Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ARMAZéM LITERáRIO > ESTANTE

Para inflar o ego da malta

Por Ivan Schmidt em 16/10/2007 na edição 455

Tudo começou – quem conta é Elias Canetti – no dia 13 de agosto de 1912, em Berlim, quando Franz Kafka conheceu a jovem Felice Bauer na casa do amigo e protetor Max Brod, que viria a ser seu primeiro biógrafo. Um mês depois (a primeira carta é de 20 de setembro), começou entre Franz e Felice uma correspondência que se estenderia por cinco anos e mais de 700 páginas.

Cinco anos antes de falecer, Felice vendeu as cartas ao editor do próprio Kafka, propiciando a Canetti não apenas uma mera contribuição para a história da literatura, mas uma observação bastante feliz: ‘Sendo assim, cumpre-nos realmente agradecer a Felice Bauer, porque guardou e pôs a salvo as cartas de Kafka, mesmo que tenha sido capaz de vendê-las’. Para estabelecer o valor escriturístico dessa correspondência, o autor de Massa e poder a comparou à descoberta de documentos inéditos que aportassem novos relatos sobre a vida de Pascal, Kierkegaard e Dostoievski. ‘No que tange a mim, só posso dizer que essas cartas entraram no meu espírito como uma vida genuína, e a esta altura afiguram-se-me tão enigmáticas e tão familiares como se sempre me tivessem pertencido, desde que comecei a tentar acolher em mim seres humanos, a fim de compreendê-los uma e outra vez’, escreveu.

Sofrimento obsessivo

Aliás, Canetti foi um dos muitos intelectuais a mergulhar no universo pessoal de Kafka, brindando os leitores com a informação de que Felice Bauer revelara a Max Brod o prazer de copiar manuscritos, pedindo mesmo que lhe enviasse alguns para o agastamento inicial do criador de Gregor Samsa, que ao saber da intenção teria dado um sonoro tapa na mesa.

A partir de agora entra em cena o novo livro de Wilson Bueno (A copista de Kafka, Planeta, SP, 2007), autor paranaense que escalou saliência a saliência o imenso paredão de uma carreira literária ascendente até assumir um lugar ao lado dos maiores ficcionistas do país, ombreando-se com todos os méritos aos que hoje em dia ostentam a láurea de mestres do fatigante ofício da escrita.

A respeito da Felice Bauer. que se tornaria noiva de Kafka (a esposa sempre adiada, na sagaz expressão de Bueno), Canetti concluiu que ‘o mais importante era o fato de ela existir, de não ser necessário inventá-la, já que era impossível que Kafka a inventasse tal como era’, apesar de passar a importuná-la com uma espécie de idolatria incontrolável e promessas de amor que jamais foram além das lamúrias originadas da inquebrantável autoridade paterna, da aparente hostilidade do ambiente familiar, da rotineira tortura do emprego na companhia de seguros e, afinal, da mortificante repulsa que devotava à própria magreza. Pois, a partir desse ser real, de carne e osso, Wilson Bueno logrou ultrapassar Kafka e Canetti, o que é um feito literário ousado, para dizer o mínimo, e com a magia exuberante que distingue os realmente iluminados, bosquejar, com a graça da mais fina tapeçaria literária, a saga de uma mulher escolhida por um ocasional lance de dados que a vida distribui sem olhar a quem, para compartilhar da responsabilidade pelo formidável sucesso póstumo daquele que tanto a amou, embora incapaz de romper as amarras de seu sofrimento obsessivo.

O ciumento Brod

Em perfeita explanação das razões que o levaram a escrever um livro sobre Felice Bauer, disse bem o romancista que ‘só ela poderia, através de seus diários, de certo modo fraudados por minha escritura, urdir uma lenda de amor que se fizesse de e para a literatura’.

Juntamente com as cartas da alentada correspondência, a copista passou a receber também manuscritos de romances inacabados, contos e peças teatrais, além de meticulosas instruções de como datilografá-los do modo mais conveniente, decifrando garranchos insondáveis que já delineavam o que, mais tarde, passou a ser epigrafado como o universo kafkiano. A um desses textos, a copista se refere como o bestiário, tal a lista de mais de 80 animais do zôo de Kafka, ‘onde tudo pode e onde impera a contrafação e as intrigantes tiradas filosóficas’.

De resto, nos inúmeros textos datilografados por Felice – não a pedido de Franz, mas em perfeita simetria com a pulsão narrativa de Bueno –, além dos ambientes escolhidos para servir de moldura aos enredos serem todos localizados na geografia germânica, nos textos picarescos e quase todos bizarros, como convém ao estilo kafkiano, à maioria dos personagens concedeu-se a insignificante deferência de serem nominados apenas pelas iniciais. Quanto ao bestiário, Felice não esconde a vaidade de ser escolhida para guardar todos os bichos de Kafka, ‘sem que ninguém saiba, principalmente o ciumento Brod, capaz de romper com Franz se descobrir que este o trai enviando-me mais que secretos inéditos’.

A realidade aliciante

O leitor está em pleno direito de escolher a hipótese que mais lhe agrada após percorrer com atenção o novo livro de Wilson Bueno, que, sem perda alguma, pode ser degustado na seqüência preferida. Todavia, saibam todos quantos têm verdadeiro amor pelas palavras, esta matéria-prima do alumbramento, que se está diante de um livro cujos signos vão se tornando mais e mais palpáveis na medida da apreensão de sua forma artística, mas, acima de tudo, da oportunidade de compreender a mescla poética do real com o ilusório, na consagração definidora do percurso ficcional que se deixa impregnar por narrativas curtas e aforismos da melhor qualidade.

Nesse particular, que se receba como uma dádiva a aventura criativa de Bueno e se exalte a liberdade auferida depois de tantos anos de labor, qual seja a de valer-se da prerrogativa de apresentar aos leitores, mesmo que essa entrega se faça recorrendo à sintaxe e ao discurso fonético próprios de uma copista imaginária, filigranas dignas do ‘genial judeuzinho de Praga’, como se refere ele com reverência ao autor de A metamorfose. Todos sabem, essa é a obra-prima que começa com a frase ‘uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto’, que até hoje seduz multidões de apaixonados por literatura, prazer inatingível caso o amigo Brod executasse o pedido do moribundo Kafka e queimasse seus alfarrábios.

Como tantos outros membros da tribo, esse foi um dos primeiros livros lidos por Wilson Bueno ainda na adolescência. ‘Uma das poucas obras grandes e perfeitas deste século (20)’, repontaria Canetti, inflando o ego da malta.

Na apresentação de A copista de Kafka, Boris Schnaiderman, ele mesmo romancista, crítico literário e tradutor de poesia russa moderna, assegurou que o livro deve ser saudado ‘como verdadeira criação de nosso século, com nossas ambigüidades e descaminhos, mas com a realidade fluida, aliciante’, que Wilson Bueno ‘soube engendrar’.

Dizendo algo terminante, sem prestar favor algum a ninguém, é forçoso reconhecer que o Paraná, neste momento, tem na pessoa de Wilson Bueno, para quem escrever é ‘desbastar o real até atingir a mais pura realidade’, um criador de legítima dimensão nacional.

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Jornalista, autor de Edgar Allan Poe, Nunca estive realmente louco, Curitiba, PR

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