Quinta-feira, 22 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Pauta à espera de reportagens

Por Mauro Malin em 01/09/2010 na edição 605

As principais campanhas eleitorais estão tão afastadas da realidade do país que ignoram resolutamente o noticiário que poderia e deveria abastecê-las com fatos novos, capazes de gerar discussão política.


Veja-se o exemplo do massacre no estado de Tamaulipas, México, em que foram vitimados dois rapazes brasileiros, com certeza, e talvez duas jovens, entre 72 pessoas que procuravam entrar ilegalmente nos Estados Unidos e foram executadas por narcotraficantes na última semana de agosto.


Do ponto de vista brasileiro, o terrível episódio torna patentes, mais uma vez, os riscos da emigração ilegal. Os candidatos não têm nada a dizer a respeito disso? A própria imprensa vai a reboque do noticiário policial, embora haja diferentes e sérias questões sociais e econômicas em jogo.


Pedreiros e faxineiras


Em reportagem publicada na revista Previdência Nacional, edição de setembro de 2009, Carla Dórea Bartz escreveu que ‘ao longo das últimas décadas alguns municípios brasileiros adotaram a emigração como política econômica. Apesar de se beneficiarem das remessas que, de certa forma, aqueceram suas economias, não fizeram nada para entender esse processo, para ajudar sua população e, principalmente, criar alternativas de desenvolvimento’.


A repórter revela dois fatos importantes. Primeiro, que os benefícios da emigração são ilusórios, porque a maior parte dos brasileiros vão para Estados Unidos e Europa trabalhar como pedreiros e faxineiras. Ou seja: ganham pouco. Se empregassem no país a energia que lhes permite enfrentar no exterior condições extremamente adversas, provavelmente obteriam resultados melhores.


Carla Bartz publica uma tabela que compara o valor per capita das remessas estimadas feitas por 3,8 milhões de brasileiros emigrados com as rendas per capita do Uruguai e do estado do Amazonas, que possuem populações da mesma ordem de grandeza. O resultado é o seguinte:























  População PIB (US$) Per capita (US$)
Uruguai 3,3 milhões 40 bilhões 12 mil
Amazonas 3,3 milhões 17 bilhões 5,2 mil
Brasileiros emigrados 3,8 milhões * 5,6 bilhões ** 1,5 mil


* Número estimado. O censo deste ano obterá uma informação mais precisa não só sobre o número total de emigrantes como sobre seus locais de origem e destino.


** Dados de 2008. Nesse ano, o Banco Central contabilizou remessas no valor de US$ 2,9 bilhões, mas estimativas não oficiais apontavam a cifra de US$ 5,6 bilhões, porque boa parte do dinheiro entra no país fora do sistema bancário.


Notar que nessa conta estão incluídos os decasséguis, que conseguiam salários melhores no Japão.


Muito além de Governador Valadares


O segundo fato relevante é que o fenômeno da emigração não está circunscrito à região de Governador Valadares, Minas Gerais, de onde saíram os dois brasileiros mortos em Tamaulipas e já identificados – Juliard Aires Fernandes e Hermínio Cardoso dos Santos –, e Jean Charles de Menezes, assassinado pela polícia em Londres em 2005, confundido com um suposto terrorista.


Os emigrantes saem também das regiões de Criciúma, Santa Catarina, onde no fim dos anos 1990 a extração de carvão e a indústria de cerâmica entraram em crise, devido à concorrência de produtos importados; e de Anápolis, Goiás. Sem falar dos brasileiros de ascendência japonesa que saíam principalmente de Maringá, Paraná, e da cidade de São Paulo.


A pesquisadora Sueli Siqueira, da Universidade do Vale do Rio Doce (Univale), sediada em Governador Valadares, diz que as notícias sobre desventuras de emigrantes brasileiros são denúncias em si mesmas, mas deveriam ser complementadas por reportagens que mostrassem ‘a importância de o poder público pensar nesse fenômeno não pelo ângulo das remessas de dinheiro, como se se tratasse de um novo ciclo econômico, e sim procurar lutar aqui para que os cidadãos transformem a realidade local e consigam realizar seus sonhos’.


‘A imprensa noticia’, diz Sueli. ‘Há relatos das desventuras feitos diretamente pelos que voltaram, e ninguém deixa de ir, devido ao encantamento de viver nos países mais ricos que toma conta dessas pessoas. Episódios como o de Tamaulipas denunciam a forma como a riqueza está distribuída, como o mundo está organizado.’


Obter em 4 anos o que demandaria 40


A pesquisadora constata que o móvel dos emigrantes é conseguir em quatro anos o que levariam 40 para obter em suas cidades natais. ‘Em Sardoá (cidade de onde saiu Hermínio Cardoso dos Santos, um dos mortos já identificados) é possível identificar perfeitamente quem emigrou, pelo tipo de casa, maior, mais confortável’, exemplifica Sueli Siqueira. ‘A pessoa também compra um carrão. Depois, é obrigada a vender o carro, não consegue manter a casa, e aparecem as doenças, fruto das condições extenuantes de trabalho sofridas no exterior.’


Sueli aponta também uma questão de cidadania. Ela conta que entrevistou filhos de emigrados que não acompanharam os pais, mas contavam fazê-lo, e que lhe disseram não ter interesse em aprender a falar e escrever corretamente em português: ‘Para que, se eu vou viver fora daqui?’, ouviu. Recolheu também relatos de homens e mulheres que foram estuprados e disseram que fariam tudo novamente, porque conseguiram amealhar alguma coisa.


A pesquisadora atribui ao mundo capitalista, ‘ao desejo de ter e consumir’, um encantamento cujas consequências são muito pesadas para as comunidades de onde partem os emigrantes. ‘A emigração é uma denúncia das mazelas da realidade local e da realidade global’, afirma.

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