Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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ARMAZéM LITERáRIO >

Pensando morreu um burro

Por Deonisio da Silva em 07/04/2009 na edição 532

Muito custa uma notícia!/ Que ofício! E nada aparece./ Que canseira e que perícia! Que andar desde que amanhece!/ E tu, leitor sem entranhas,/ Exiges mais, e não vês/ Como perdemos as banhas/ Em te dar tudo o que lês’.

Estou lendo, ou melhor, degustando o volume quatro das obras completas de Machado de Assis, que reúne suas crônicas, ainda que traga algumas páginas de versos, como estes com os quais abro este artigo, publicados originalmente na Gazeta de Notícias, no dia 5 de novembro de 1886.

Os outros três se ocupam de reunir os romances, os contos, as poesias, as peças de teatro, a correspondência, a fortuna crítica e um conjunto a que os organizadores chamam miscelânea, que tem de tudo um pouco.

É uma boa iniciativa da editora Nova Aguilar, mas o preço dos quatro volumes ainda é alto, cerca de trezentos reais, dependendo de onde você compra, apesar do patrocínio da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), da Academia Brasileira de Letras (ABL) e da Fundação Miguel de Cervantes.

Este volume quatro é primoroso. No dia 8 de abril de 1894, Machado, em companhia de um amigo, vê um burro à beira da morte nas imediações da praça Quinze de Novembro. Notemos que o nome, depois tão comum por todo o Brasil, homenageava a República, proclamada há menos de um lustro.

Pensamento não é causa de morte

O escritor nos informa que diante do burro havia um pouco de capim e uma lata com água. E dirige-se ao benfeitor, que não deixou o animal inteiramente abandonado: ‘Alguma piedade houve no dono ou quem quer que o deixou na praça, com essa última refeição à vista. (…) Se o autor dela é homem que leia crônicas, e acaso ler esta, receba daqui um aperto de mão.’

No século seguinte, Carlos Drummond de Andrade diria que ‘de notícia e não-notícia faz-se a crônica’. Era ainda um tempo em que os jornais pareciam escolher melhor os cronistas. Hoje, os bons textos devem ser garimpados com muito esmero, o que nem sempre é possível, por falta de tempo, e acabamos por dar uma passada de olhos na maioria dos jornais em busca deste gênero admirável, que nos tem dado textos antológicos. Afinal, foram cronistas, além de Machado e Drummond, romancistas e poetas de alto calibre, como Mário Quintana, Fernando Sabino, Clarice Lispector etc. Naturalmente, resistem ainda as exceções de praxe, como João Ubaldo Ribeiro, Carlos Heitor Cony e este admirável cronista catarinense que é Sérgio da Costa Ramos. Esses tiram leite de pedra, como se diz.

Machado diz que havia um menino de dez anos por perto, com uma vara na mão. E conclui que se o propósito do garoto ‘não era o de dar com ela na anca do burro para despertá-lo, então eu não sei conhecer meninos porque ele não estava ao lado do pescoço, mas justamente do lado da anca’.

A seguir, usando de mote o conhecido provérbio, diz que ‘o pensamento não é a causa da morte, a morte é que o torna necessário’.

Ao leitor, o que precisa e merece

Grande Machado! Um ourives da palavra, como queria o seu contemporâneo Olavo Bilac – outro grande cronista, como demonstrou o professor Antonio Dimas, da USP, quando recolheu as crônicas do poeta. Bilac diz em Profissão de Fé: ‘Invejo o ourives quando escrevo:/ Imito o amor/ Com que ele, em ouro, o alto relevo/ Faz de uma flor’.

Prossegue o Bruxo do Cosme Velho – apelido dado pelos vizinhos que o viam queimando papéis na caldeira atrás da casa, vestindo uma capa preta e diz que o burro fazia uma exame de consciência. Eis pequena amostra do que pensa o burro, na fina ironia machadiana, escritor que viu o povo, quase pasmado, assistir ao golpe de Estado que trocou um monarca por um marechal: ‘Não havendo nenhuma revolução declarado os direitos do burro, tais direitos não existem. Nenhum golpe de Estado foi dado em favor dele; nenhuma coroa os obrigou. Monarquia, democracia, oligarquia, nenhuma forma de governo teve em conta os interesses da minha espécie. Qualquer que seja o regime, ronca o pau.’

Depois de dizer que das abelhas e das formigas as ‘instituições políticas são superiores às nossas, mais racionais‘, pergunta: ‘Por que não sucederá o mesmo ao burro, que é maior?’

A crônica termina com um requiescat in pace, pois no dia seguinte, passando pelo mesmo lugar, encontra o animal já morto.

Poucos jornalistas e ainda menos escritores gastam suas banhas para dar aos leitores, hoje, tudo o que eles precisam e merecem. E assim, muitos jornais, que já não andam bem das pernas, com a crise tendem a piorar porque não estão gastando suas banhas para investir em bons textos, que todos precisam e merecem.

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenador de Letras e de teleaulas de Língua Portuguesa; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século)

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