Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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ARMAZéM LITERáRIO >

Poe e Machado de Assis, críticos da imprensa

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 15/09/2009 na edição 555

Neste estudo comparativo, parte-se da hipótese de que a admiração nutrida por Machado de Assis (1839-1908) em relação a Edgar Allan Poe (1809-1849) não tenha se restringido ao campo literário, atingindo também o universo jornalístico. Se o discurso crítico projeta luz sobre o diálogo intertextual, envolvendo os escritos literários de Poe e Machado, há que se investir também na iluminação necessária para melhor visualizar e acompanhar as pegadas deixadas por esses dois autores que se dedicaram, criticamente, a apurar os vícios e as virtudes do jornalismo praticado à época. Seus textos relativos a essa temática podem ser lidos em conjunto, devido à congruência argumentativa apresentada por Poe e Machado no que tange ao protagonismo epistemológico do campo jornalístico e à construção de parâmetros éticos fundamentais para a busca de uma atuação social cada vez mais qualificada por parte da imprensa. Como jornalistas notáveis, nos Estados Unidos e no Brasil, Poe e Machado, respectivamente, aproveitaram os espaços midiáticos que lhes foram reservados para elaborar uma rede de conceitos que até hoje vigora como ideal de jornalismo.

Mandonismo e privilégios

Para Poe e Machado, escrever na imprensa significou transitar em um terreno marcado pela relação entre um sistema de produção estética – a literatura – e outro nascido de inovações técnicas dirigidas à fruição em massa – o jornalismo. Poe e Machado fizeram parte de uma geração de escritores que participaram ativamente na vida dos jornais do século 19, fazendo com que aquele período da história da imprensa ficasse conhecido como ‘jornalismo literário’1. Se, na realidade norte-americana, na qual esteve inserido Poe, a publicação de folhetins e romances reflete um momento de aspiração das massas à cultura letrada, curiosamente, no Brasil de Machado de Assis, o jornalismo literário, apesar de ter tido importante papel cultural, nunca chegou a representar de fato uma penetração ampla no seio da sociedade, como aconteceu no caso ianque. Como entraves enfrentados pela imprensa brasileira no que tange à integração de uma grande camada da população ao círculo de leitores, ainda persistem o analfabetismo e a crise de leitura. Se a história da imprensa no século 19 se confunde com a própria história do acesso do povo à leitura, no caso norte-americano, o mesmo não pode se constatar, tendo em vista o cenário brasileiro oitocentista. Conforme sublinha Alberto Dines:

‘A imprensa no Brasil, criada por concessão de um regime absolutista, jamais conseguiu dele desvencilhar-se (…). Como nossa imprensa não foi fruto de uma conquista mas de um favor, acabou estigmatizada por este gesto primal, híbrido entre o mandonismo do sistema imperante e a busca constante de privilégios2.’

‘Produto à venda’

Esse modelo hegemônico que coloca a imprensa como aparelho ideológico de Estado, reprodutor dos valores dominantes, aponta para um papel conservador do jornalismo na história do Brasil. Ocorre que tal prática não invalida o fato de que, em que pese o seu papel conservador, a imprensa participou ativamente das transformações da sociedade brasileira, tais como a luta pela Independência e pela abolição da escravatura, para ficarmos com marcadores históricos intimamente ligados ao contexto histórico vivido por Machado de Assis. Tal fenômeno paradoxal ocorreu porque a imprensa, inevitavelmente, reflete as contradições da sociedade em que ela está inserida.

Para consolidar a imprensa no Brasil, Machado esteve atento às grandes tendências editoriais advindas do jornalismo praticado nos grandes centros econômicos, pois, tais paradigmas serviam de guia para a conduta noticiosa adotada pelos órgãos de comunicação. Concentrou-se nas gazetas da capital do Império a produção dos artigos de fundo e das crônicas recreativas como maiores tendências até meados dos anos 80 do século 19. A partir desse momento, tais gêneros textuais passaram a conviver com o estilo magazine, em evidência nos Estados Unidos, e o material sensacionalista. O eixo metropolitano do mundo ocidental deixava, aos poucos, de ser o de matriz francesa para assumir o viés norte-americano. Tal mudança de cenário afetará a forma predominante de se fazer jornalismo. Como alternativa à imprensa dissertativa, buscaram-se outros parâmetros considerados mais modernos: o jornalismo de impacto, cujo papel seria oferecer material sensacionalista para saciar o apetite do público; e o jornalismo factual, no qual é oferecido aos leitores um breve painel dos acontecimentos que marcaram a cena pública, prometendo totalidade na cobertura e isenção expositiva.

Nesse cenário, a crônica e o ensaio – transformados em artigo – passaram a ocupar reservadamente o espaço de opinião, sendo que os gêneros textuais predominantes, a partir daquela transformação editorial, concentraram-se nas notas jornalísticas e nas reportagens. Domesticava-se, assim, a subjetividade do folhetinista como parâmetro produtivo em prol de um distanciamento objetivo adotado pelo informante para registrar os fatos, sendo estes considerados relatos de cunho impessoal e não histórias elaboradas literariamente. Nesse sentido, vinculado à economia espacial de ocupação da matéria no jornal e ao universo da leitura dinâmica cada vez mais atrelada ao ritmo produtivo no qual se insere o público-leitor, o poder de síntese ditará o ritmo noticioso do jornalismo praticado nos grandes centros, acompanhando o perfil pragmático e a indústria do entretenimento presentes na imprensa norte-americana, na qual atuaria com destaque Edgar Allan Poe. A notícia assumiria de vez a sua condição de ‘produto à venda’, valioso para a engrenagem capitalista.

‘Pensamento ágil, reto, metódico’

Como notas dissonantes, mas capazes de entoar uma melodia de qualidade rara, Poe e Machado de Assis, como jornalistas do seu tempo, não se ocuparam na dicotomia árida envolvendo o jornalismo reflexivo de base literária-argumentativa e o jornalismo de síntese de cunho informativo-expositivo. Na contramão da grande tendência comunicativa de suas épocas, eles emprestaram seus escritos ao papel de defenderem uma imprensa que articulasse em suas mensagens uma precisão ética tanto na esfera informativa, como no nível opinativo. Os dois jornalistas defendiam a economia verbal como valor fundamental para a imprensa, desde que tal recurso contribuísse para expor com qualidade e acompanhar criticamente a diversidade expressiva da sociedade, a partir de uma operação de excelência resultante da apuração dialética dos fatos a serem reportados. Como homens de imprensa, Poe e Machado se pautaram pelo mediato e não pelo imediato. Nesse sentido, comunicar significa tornar comum o entendimento.

Em ‘Excertos da Marginália’, reunião de escritos de Poe publicados em épocas diversas, o jornalista norte-americano pôs à mostra o seu espírito analítico, a sua intuição poética, a sua formação universitária e as suas leituras vastas e variadas, que o capacitavam como ‘primeiro genuíno crítico norte-americano produzido pelos Estados Unidos’, conforme sublinha Morton Dauwen Zabel3. Para firmar bons padrões jornalísticos em sua época, Poe pontuou um conjunto de valores necessários para que a imprensa fosse menos hiperbólica, pois o exagero argumentativo prejudicava a causa a ser digna de nota comunicativa. A fim de evitar tal descontinuidade informativa e opinativa, Poe defendeu um modelo jornalístico que oferecesse ao público um cardápio mais diversificado possível de ofertas simbólicas, o que exigiria da imprensa norte-americana uma exposição condensada e versátil dos mais variados acontecimentos, de acordo com a multiplicidade característica dos perfis existentes no público-leitor. Poe ressalta que:

‘O progresso realizado em alguns anos pelas revistas e magazines não deve ser interpretado como quereriam certos críticos. Não é uma decadência do gosto ou das letras americanas. É, antes, um sinal dos tempos; é o primeiro indício de uma era em que se irá caminhar para o que é breve, condensado, bem digerido, e se irá abandonar a bagagem volumosa; é o advento do jornalismo e a decadência da dissertação. Começa-se a preferir a artilharia ligeira às grandes peças. Não afirmarei que os homens de hoje tenham o pensamento mais profundo do que há um século, mas, indubitavelmente, eles o têm mais ágil, mais rápido, mais reto, mais metódico, menos pesado. De outro lado, o fundo dos pensamentos se enriqueceu. Há mais fatos conhecidos e registrados, mais coisa para refletir. Somos inclinados a enfeixar o máximo possível de idéias no mínimo de volume, a espalhá-las, o mais rapidamente que pudermos. Daí, nosso jornalismo atual; daí, também, nossa profusão de magazines4.’

O protagonismo epistemológico

Dez anos após a morte do pensador norte-americano, o cronista-jornalista brasileiro vai assimilar certos princípios jornalísticos tão caros ao autor de O Corvo, fazendo uso do curioso confronto entre os dois suportes de comunicação – o livro e o jornal – que dominaram, nos meados do século 19, o debate das tecnologias da informação. A exemplo de Poe, Machado vai destacar a importância do livro sem que tal atitude negue o valor da expressão do conhecimento advinda do jornal, que despontava com eficácia e eficiência na cena moderna. Por um lado, a literatura detinha uma tradição expressiva predominantemente dissertativa e imaginativa, além de contar com um público reduzido, conferindo a ela ares aristocráticos. Por outro, o jornalismo é promovido por Machado como tribuna ampliada de idéias que circulavam por uma gama maior de leitores, sendo, portanto, as gazetas de notícias mais fiéis do que os livros no tocante ao espírito publicista daquele momento, motivado pela expansão transmissiva dos saberes produzidos socialmente.

Em ‘O jornal e o livro’, de 10 e 12/01/1859, ao perguntar se o jornal matará o livro e se o livro absorverá o jornal, Machado percebe que o livro aparece como uma construção canônica de tradição monumental, comparado à arquitetura da catedral, em vertiginosa queda de prestígio. Já o jornal supera o livro justamente por sua distribuição mais eqüitativa e democrática: ‘O jornal é mais que um livro, isto é, está mais nas condições do espírito humano.’5 O cronista percebe uma nova era que se anuncia com o advento do jornal, que, utilizando uma escala de tempo mais dinâmica, interpreta, resume e divulga o que fora, durante séculos, o privilégio e o monopólio do livro.

Para evitar maiores desentendimentos, Machado esclarece que ‘admitido o aniquilamento do livro pelo jornal, esse aniquilamento não pode ser total. Seria loucura admiti-lo’6. Diante disso, o cronista brasileiro apresenta um posicionamento semelhante ao de Poe, já que ambos destacaram que o protagonismo epistemológico do campo jornalístico não representava uma decadência do gosto ou das letras.

O lado ‘sombrio’ da natureza humana

Para Poe, tal mudança de paradigma é resultado ‘de uma era em que se irá caminhar para o que é breve, condensado, bem digerido, e se irá abandonar a bagagem volumosa; é o advento do jornalismo e a decadência da dissertação’7. Dentro do mesmo compasso de idéias do jornalista norte-americano, Machado, em tom eufórico, faz uma propaganda da imprensa, cujo objetivo foi destacar seus propósitos compromissados com a democratização do poder em uma realidade brasileira, marcada pelo analfabetismo e pela ordem escravocrata:

‘Tudo se regenera: tudo toma uma nova face. O jornal é um sintoma, um exemplo desta regeneração. A humanidade, como o vulcão, rebenta uma nova cratera quando mais fogo lhe ferve no centro. A literatura tinha acaso nos moldes conhecidos em que preenchesse o fim do pensamento humano? Não; nenhum era vasto como o jornal, nenhum liberal, nenhum democrático, como ele. Foi a nova cratera do vulcão8.’

Ricardo Araújo sintetizou de forma lapidar como Poe e Machado percebiam a representatividade do livro e do jornal naquelas circunstâncias de produção de conhecimento ao afirmar que ‘se o livro é o vislumbre para a entrada no mundo moderno; o jornal é a efetivação plena da modernidade’9. As características da modernidade podem ser melhor compreendidas se as inserirmos no contexto da mentalidade filosófica do Iluminismo, surgido no século 18, mais especificamente no período entre a Revolução Inglesa (1688) e a Revolução Francesa (1789). O conceito fundamental desse movimento filosófico de secularização do pensamento era o da razão, com a qual se conseguiria a emancipação humana por meio de formas racionais de organização social capazes de liberar o homem das irracionalidades do mito, da religião, da superstição e do uso arbitrário do poder, assim como do lado ‘sombrio’ da própria natureza humana.

Um impasse ético

A imprensa, nesse contexto, teve o grande papel de tornar públicos os ideais emancipatórios que serviriam de inspiração para os movimentos revolucionários que adentraram o século 19: o universalismo, a individualidade e a autonomia. Imaginou-se que o liberalismo presente nesses propósitos fosse capaz de desarticular a ordem aristocrática e a estrutura escravocrata que vigoravam no (des)concerto das nações ocidentais, incluindo aí os Estados Unidos e o Brasil. Poe e Machado, imbuídos dessa promessa de reforma social pela imprensa, articulavam com perspicácia as duas filosofias de jornalismo que vigoram em seu tempo: ‘Dê ao povo o que ele quer’ e ‘Dê ao povo a verdade que ele precisa ter’10. Poe e Machado defendiam o encontro entre as mencionadas tendências, pois percebiam que o público leitor das gazetas apresentava condições próprias de saber, pelos jornais, o que lhe interessava, mas que também precisavam aperfeiçoar a sua formação, via imprensa, ao acessarem os conteúdos que lhe eram desconhecidos ou censurados. Retomando o texto de ‘Excertos da Marginália’, Poe destaca o papel divulgador da imprensa, sendo esta responsável pela promoção da ampla divulgação dos fatos a serem transmitidos com exatidão, penetração e rapidez:

‘Há mais fatos conhecidos e registrados, mais coisa para refletir. Somos inclinados a enfeixar o máximo possível de idéias no mínimo de volume, a espalhá-las, o mais rapidamente que pudermos. Daí nosso jornalismo atual; daí, também, nossa profusão de magazines11.’

Este papel social da imprensa enquanto agente de reflexão, tendo em vista o desenvolvimento da educação dos seus leitores, também foi destacado por Machado de Assis, ao definir o jornal como ‘a verdadeira forma da república do pensamento’, ‘a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos’ e ‘a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das idéias e o fogo das convicções’12. Ao mesmo tempo, ressalta Machado, o jornal está ligado ao ‘desenvolvimento do crédito’, constituindo uma ‘monetização da idéia’13. A partir dessa ressalva, vale a pena investigar que nas gazetas motivações privadas e corporativas eram processadas como razões públicas, configurando um impasse ético que levará Machado a afirmar que a imprensa no Brasil não estava à altura de sua missão. Poe verificaria questão semelhante no contexto estadunidense.

Mentalidade elitista

Entre a imprensa ideal e a praticada em seus países, Poe e Machado também verificaram o hiato existente entre a projeção utópica e a realidade vigente do jornalismo, fazendo com que eles exercessem de forma pioneira o papel de críticos da imprensa, ao ficarem atentos aos deslizes editoriais e éticos cometidos pelos periódicos. Em relação ao jornalista norte-americano, é digno de nota o seguinte comentário feito em ‘Excertos da Marginália’: ‘Os homens que exercem a profissão de jornalistas parecem constituídos como os deuses do Walhalla, que se cortavam em pedaços, todos os dias, e acordavam de perfeita saúde todas as manhãs.’14 Como é possível perceber, já não se expressava naquele espaço o entusiasta da imprensa, mas o denunciador dos vícios comportamentais do jornalista, que o faziam atropelar a ética da comunicação social.

Ao mostrar como os jornalistas, no afã de tornar os fatos públicos, se desumanizavam à medida que se sentiam endeusados, pois detinham o privilégio social de trazerem à tona os acontecimentos não iluminados pelo holofote midiático, Edgar Allan Poe destaca ‘a sede de nomeada’ presente no campo jornalístico. Ao invés da discrição e da sobriedade informativa e opinativa, os jornalistas buscavam primeiramente gozar de fama e notoriedade, ocupando o papel de protagonista no circuito noticioso. Os fatos e a sua apuração vinham a reboque do prestígio social acerca do nome do autor da matéria jornalística. Poe compara a atuação de certos jornalistas à performance divina presente no mundo paradisíaco de Walhalla, campo sagrado pertencente à tradição nórdica dos vikings. Walhalla estava reservada para os corajosos, ou seja, os que morriam lutando; para os saudáveis, os escolhidos dos deuses; e para os ricos e bem sucedidos. Nessa casta de privilegiados, encontravam-se os jornalistas, na concepção crítica de Poe. Nas alturas, os jornalistas gozavam de uma aura sagrada que o separavam do outro lado do mundo, que foi intitulada pelos nórdicos de Hel. Em contraposição a Walhalla, Hel estava reservado aos doentes, aos medrosos e aos pobres. Infere-se, nesse sentido, que Poe denunciava a mentalidade elitista presente no corpo jornalístico que, ao se comprometer com os valores do status quo, se comportava de maneira indiferente em relação aos sofrimentos daqueles enquadrados no limbo da sociedade.

O modelo sensacionalista

Alienados de uma perspectiva ética, alerta Poe, os jornalistas não se integravam à coletividade, mas se colocam estranhos a ela. Tal distanciamento é oriundo de uma ação prepotente que visa diluir os conflitos éticos a partir de uma postura cínica. Essa conduta condiciona os profissionais de imprensa, segundo Poe, a mutilarem os seus princípios, chegando ao ápice da deformação existencial, porém, ignorando o fato de que tal atitude possa colocar em risco a própria integridade, tamanha a sensação de anestesiamento moral. Poe demonstra, a nosso ver, preocupação com os seus companheiros de profissão acometidos por esse transtorno psicológico que, incorporado, chega a afetar perigosamente a integridade orgânica dos jornalistas.

Para Machado de Assis, a mutação sofrida pelo profissional de imprensa em nome do espetáculo da notícia vai protagonizar o fenômeno da imprensa sensacionalista. Na crônica de 16/09/1894, Machado compreende, com exímia argúcia, os papéis que o sensacionalismo absorve para si o papel de válvula de escape de nossa ‘pulsão de morte’, compreendida como fenômeno obscuro e curioso da psicologia coletiva. O material sensacionalista atua como um escoadouro dos impulsos, e a fórmula de enaltecer, de maneira exagerada, os aspectos emocionais da noticia é bem sucedida justamente por trabalhar com as emoções que o público desconhece ou recusa em si.

O cronista brasileiro apresenta nesse texto uma comparação que simboliza bem os encantos e os desencantos causados pela notícia trágica: mais vale ‘o espetáculo de uma perna alanhada, quebrada, ensangüentada’ do que ‘o da simples calça que a veste’15, conforme confessa sem titubear o narrador para depois dar-nos o motivo: ‘As calças, esses simples e banais canudos de pano, não dão comoção.’16 Comoção significa abalo de certa gravidade na ordem pública, sacudidela, choque resultante de descarga elétrica. Estes sentidos fazem da comoção a palavra-chave que movimenta o fazer jornalístico de viés sensacionalista. Nos detalhes entre a mercantilização da informação e os desejos obscuros da mente humana, encontra-se a exploração emocional dos fatos, praticada pelo modelo sensacionalista, contrário ao paradigma jornalístico preconizado por Machado desde jovem.

Paradigmas até hoje pertinentes

Compreende-se melhor a crítica endereçada à comercialização simbólica de cunho sensacionalista e alienador que regeu (e ainda rege) hegemonicamente a imprensa, quando Poe e Machado expõem ao público seus métodos de trabalho, sendo estes pautados pela perspectiva ética e pelo temperamento artístico necessários ao jornalismo de qualidade. No processo de apontamento dos vícios e das virtudes da imprensa do seu tempo, Poe e Machado expuseram alguns ensinamentos reflexivos que merecem ser destacados. Ambos se esforçaram para viabilizar o jornalismo em seu aspecto transformador e questionador das condutas sociais.

Edgar Allan Poe sugere ao jornalista, pensado como prosador do cotidiano e construtor da narratividade voltada para um público em larga escala, alguns procedimentos imprescindíveis para a sua capacidade analítica da realidade. Em outro texto de ‘Excertos de Marginália’, o jornalista estadunidense, ressalta que tal habilidade expressiva se obtém a partir de uma lapidação artística alcançada a partir de virtudes estritamente morais, tais como: ‘A paciência, a atenção sustentada, a faculdade de concentrar o espírito, o domínio sobre si mesmo, o desprezo de todos os preconceitos e, mais especialmente ainda, a energia e o trabalho.’17

Na outra ponta do continente americano, Machado de Assis receitava ao bom folhetinista (assim era chamado o jornalista em sua época), na crônica de 04/08/1878, os seguintes procedimentos de apuração e construção do texto a ser publicado nas folhas volantes: a) no campo da observação, ‘espreitar os sucessos da rua’; b) na relação com a fonte informativa, ‘ouvir e palpar o sentimento da cidade’; c) no plano da recepção por parte do jornalista dessas mensagens e da integração destas a história a ser contada, ‘denunciar, aplaudir ou patear, conforme o nosso humor ou a nossa opinião’; e, por último, na zona da estética da recepção, ‘quando nos sentarmos a escrever estas folhas volantes, não o fazemos sem a certeza (ou a esperança!) de que há muitos olhos em cima de nós’18. Nessa mesma crônica, Machado divide com o leitor o seu método de atuar na imprensa, a saber: ‘Cumpre ter idéias, em primeiro lugar; em segundo lugar expô-las com acerto; vesti-las, ordená-las, e apresentá-las à expectação pública.’19

Mesmo tendo sido responsáveis pela promoção da titularidade epistemológica do campo jornalístico na condição de vetor da modernidade problematizada no século 19, nos Estados Unidos e no Brasil, Edgar Allan Poe e Machado de Assis, respectivamente, foram capazes de avaliar criticamente as virtudes e os vícios da imprensa, examinando o mérito e o demérito das políticas de sentido que foram coordenadas pelas cadeias de comunicação midiática da época. Em nome do potencial reformador do jornal, Poe e Machado, como homens de imprensa, fizeram questão de tornar públicas suas queixas em relação aos abusos de poder e distorções éticas cometidas pela mídia. Além de críticos da imprensa, Poe e Machado fundamentaram paradigmas ideais de jornalismo até hoje pertinentes.

Abstract

This comparative study emphasizes the hypothesis that Machado de Assis´ (1839-1908) admiration towards Edgar Allan Poe (1809-1849) was not restricted to the literary field, also reaching the universe of journalism; both authors were committed to the critical investigation of the vices and virtues of journalism in their times. Thus, while the critical discourse casts light on the dialogue between their texts, it is also essential to provide the necessary illumination in order to follow the footprints left behind by Poe and Machado. It is possible to read their texts on this issue together, due to the argumentative congruence in their approaches to the epistemological protagonism of the journalistic field and the construction of basic ethical parameters to an increasingly social acting by the press. As notable journalists in the United States and in Brazil, Poe and Machado, respectively, have taken advantage of their spaces in media so as to elaborate a network of concepts which is still held as an ideal to journalism.

Keywords: Edgar Allan Poe, Machado de Assis, press critic.

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Doutorando em Literatura Brasileira pela Faculdade de Letras da UFMG (Bolsista de doutorado do CNPq). Mestre em Literatura Brasileira pela Faculdade de Letras da UFMG. Jornalista, formado pelo Centro Universitário de Brasília – UniCeub

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