Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ARMAZéM LITERáRIO > TWITTER

Política em 140 caracteres

Por Victor Barone em 12/10/2009 na edição 559

O Twitter tem se configurado como uma importante ferramenta de interação e de manifestação política. No Irã, em junho, a plataforma sustentou os opositores do presidente Mahmoud Ahmadinejad, driblando a censura e levando ao mundo imagens da repressão. No Brasil, um movimento pela renúncia do presidente do Senado, José Sarney ganhou espaço a partir da tag #forasarney. Grupos sociais dos mais diversos matizes têm usado o microblog para divulgar suas idéias, angariar aliados, debater suas propostas. Trata-se de uma ágora virtual que, em meio à babel de mensagens em 140 caracteres, possibilita que ‘cada um seja o seu próprio Roberto Marinho’, conforme definiu o jornalista/blogueiro Marcelo Tas recentemente, durante o Seminário INFO – Twitter, Orkut e Flickr.

Um estudo da agência americana Interpret – citado em reportagem do Wall Street Journal – revela que os usuários do Twitter são mais receptivos a publicidade que os integrantes de outras redes sociais. Segundo o levantamento, os tuiteiros fazem mais resenhas, dão mais notas a produtos através da internet (24% contra 12% dos usuários de outras redes sociais), visitam mais perfis online de empresas (20% contra 11%) e clicam em mais anúncios ou patrocínios (20% contra 9%). Uma mina de ouro para quem quer promover um produto, ou a si mesmo.

O resultado é que esta imensa rede, na qual multidões circulam diariamente, tem atraído a atenção de políticos e instituições governamentais. Vereadores, deputados estaduais e federais, senadores e governadores aderiram ao microblog, ao lado de uma miríade de pré-candidatos às eleições de 2010. A maioria ainda não entendeu a vocação e o potencial das mídias sociais, mas os que compreenderem os seus meandros poderão obter vantagens ao estreitarem de forma transparente as suas relações com a população.

Uma mudança cultural

O governo do Estado de São Paulo, por exemplo, deu um importante passo ao liberar o uso de redes sociais pelos servidores e ao possibilitar a criação de perfis das secretarias no Twitter – seu perfil principal, o @governosp, já acumulou mais de 10 mil seguidores. O grande incentivador do uso da ferramenta é o próprio governador José Serra. Ele alimenta diariamente sua página que tem mais de 108 mil seguidores. Uma característica do perfil do governador é a informalidade: uma das condições para que um político obtenha bons resultados com a ferramenta.

Para Bruno Caetano, secretário da Comunicação do governo de SP, ‘o uso do Twitter encurtou a distância entre o governo e as pessoas’. Para ele, ‘agora é mais simples interagir, dizer o que não está sendo feito ou até alertar sobre algo que deveria estar funcionando e não está’.

Um exemplo dessa aproximação está no perfil da Secretaria de Agricultura. O objetivo é atingir quem está dentro e fora da internet. ‘Muitos dos nossos seguidores são estudantes de agronomia. Eles levam para os pais, que muitas vezes são agricultores, as dicas que damos no perfil’, afirma Vinícius Dias, responsável por gerenciar os perfis de mídias sociais da secretaria. No Twitter há links para o perfil do Flickr, que exibe espécies de peixes com descrições científicas, e do Youtube, com vídeos com explicações práticas de como plantar mudas, por exemplo.

O governo paulista ainda está aprendendo a se relacionar de uma maneira mais interativa com os cidadãos, diz Roberto Agune, coordenador de inovação do governo José Serra. ‘A idéia é criar um espaço para o cidadão comunicar do ponto de vista dele como estão os resultados dos nossos serviços. É preciso estar inserido onde a população se relaciona. Desde janeiro, 23 órgãos do governo de São Paulo criaram seus blogs. Trata-se de uma mudança cultural que surge com estas novas ferramentas, novas formas de falar com a população e ouvi-la’.

‘Quero mais ouvir do que falar’

Para Agune, a presença do governo nas redes sociais é um caminho sem volta: ‘Se você não está presente, outros farão isso por você’, afirma e vai além: ‘Ou o governo entra e usa estas linguagens ou se afasta da sociedade. Temos que usar estas ferramentas para nos aproximarmos do cidadão e para ouvi-lo. Isso é importante’.

Outro exemplo é o governo da Bahia, que inaugurou sua conta no Twitter em maio do ano passado divulgando notícias sobre o Estado. De acordo com a assessoria de imprensa do Estado, oprofile passou por uma fase de testes e só começou mesmo a ser divulgado a partir de dezembro de 2008. Hoje, conta com mais de 10 mil seguidores.

A Prefeitura Municipal de Campo Grande (MS) também está prestes a adentrar o espaço virtual com um perfil no Twitter. O prefeito da cidade, Nelson Trad Filho (PMDB-MS), já tem o seu. Com cerca de 1800 seguidores, Trad Filho recebe elogios e sugestões e responde – via assessoria – críticas, sugestões e reclamações de seus munícipes. De olho no perfil, a assessoria – que auxilia o prefeito no microblog – identifica as dúvidas e reclamações dos followers, encaminha para as secretarias responsáveis – ou para o próprio prefeito quando necessário – e responde o mais rápido possível. ‘Isso cria um vínculo entre a administração pública e a população plugada. É importante na medida em que o internauta sente que não está falando para o vazio’, explica o coordenador de comunicação da Prefeitura de Campo Grande, Ico Victorio.

O deputado estadual Paulo Duarte (PT-MS) também aposta na interatividade. Usuário contumaz do Twitter, vai se reunir na próxima terça-feira, 13/10, com um grupo de seguidores para debater um projeto de sua autoria que prevê a proibição do uso de sacolas plásticas no estado: ‘Em função das manifestações dos tuiteiros, quero ouvir suas sugestões sobre o projeto. Quero mais ouvir do que falar’, disse Duarte, para quem o microblog é uma ferramenta que possibilita às pessoas ‘opinar sobre assuntos que dizem respeito diretamente às suas vidas’.

Um resumo sucinto

Talvez esteja aí, na interação com a população, o grande segredo das mídias sociais para políticos. Mas, é preciso muito mais que informalidade para criar uma relação de confiança entre um político e a população via Twitter. Mais importante é a transparência. Marcelo Tas diz que o Twitter é uma ‘ferramenta de ouvir’. Correto.

Tiago Cordeiro, analista de mídias sociais da consultoria Pólvora, aposta nisso: ‘Há muitos políticos que usam o Twitter como megafone, como se fossem celebridades, querendo contar o que quiserem. Mas ele funciona melhor, sim, como uma espécie de telefone, que te permite conversar e trocar idéias e não apenas ficar recebendo conteúdo que você muitas vezes não vai nem ler direito. O político que esperar até 2010 para abrir seu Twitter já terá perdido espaço’, afirma.

Um bom exemplo de uso do Twitter por político foi dado pelo senador Delcídio do Amaral (PT-MS) – cujo perfil acumula mais de cinco mil seguidores. Em maio, durante viagem inaugural do Trem do Pantanal, o senador usou o próprio celular para contar o que acontecia no vagão das autoridades, fechado à imprensa, onde viajava o presidente Lula. As mensagens acabaram divulgadas em blogs e sites do estado que cobriam a visita do presidente.

‘É uma forma muito mais direta de se comunicar com as pessoas. Abre um amplo espectro para a conversa sobre as atividades do dia-a-dia e até para falar de música, política, esportes. Sou um cara que gosta de compartilhar isso com as pessoas’, diz.

O líder do Democratas na Câmara Federal, deputado Ronaldo Caiado (GO), tem mantido atualizado o perfil no Twitter. ‘É muito importante, principalmente para nós da oposição, para expor nossos argumentos. O Twitter é um resumo sucinto. Não detalha, mas pauta as matérias. E depois, as pessoas buscam mais detalhes no blog’, diz.

‘Ironias, provocações, reflexões’

O senador Renato Casagrande (PSB-ES) também está no microblog e considera o espaço imprescindível para estreitar o contato com os eleitores: ‘Com o nível de acessibilidade do eleitor nestas eleições, não há a menor chance de nós, candidatos, ficarmos camuflados. Quem não entender isso vai ficar para trás. Estou contratando dois assessores só para me ajudar a alimentar esses instrumentos.’

Outro senador presente no Twitter é Cristovam Buarque (PDT-DF) – mais de 20 mil seguidores em seu perfil. Ele também não abre mão das mídias sociais: ‘Já tenho equipe e estou usando todos os instrumentos que posso. Torpedo eu recebo mais do que mando. Mas tuito toda hora que posso. Recomendo livros, comento notícias’.

O presidente do Democratas, deputado Rodrigo Maia (RJ), acha que a chave do bom uso do Twitter está na polêmica e no bom humor. ‘Quando você põe uma frase mais polêmica e sacaneia um adversário, tem resposta. Tem que ter bom humor, sem agressividade, mas é uma ferramenta que se encaixa bem para quem quer ser mais econômico. Os comentários ganham atenção na mídia também porque às vezes você está em casa, pensando na vida, e vem uma idéia boa. O Twitter te permite usá-la.’, disse, em entrevista a Maurício Savarese do UOL Notícias.

O presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), também em entrevista ao UOL, apostou na descontração: ‘Pelo dinamismo, é algo que te força a ser conciso, te permite ironias, provocações e reflexões. Dá capacidade uma de interação muito grande, sem dúvida vamos utilizar nas eleições e será uma arena importante.’

Turbilhão gerado por ofensas

Seja qual for a estratégia, sem o binômio transparência/informalidade, usando estratégias estranhas às mídias sociais, o Twitter pode se transformar em uma armadilha para o político. Exemplos recentes foram protagonizados pelo líder do Partido dos Trabalhadores no Senado, Aloízio Mercadante, e pelo governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB).

O mico de Mercadante ocorreu às 12h15, do dia 20 de agosto, quando tuitou a seguinte mensagem: ‘Eu subo hoje à tribuna para apresentar minha renúncia da liderança do PT em caráter irrevogável.’ Às 12h28, a Folha Online publicava a notícia: Mercadante usa Twitter para anunciar renúncia à liderança do PT. Às 14h16, oEstadão divulgou a mesma informação (Mercadante diz que deixará liderança do PT em twitter) que, três minutos depois, foi reproduzida pelo G1: Mercadante diz que deixará liderança do PT em twitter. No dia seguinte, voltou atrás patrocinando o primeiro efeito cascata negativo de um político brasileiro no Twitter.

‘O erro foi meu, não foi do Twitter. Depois usei a ferramenta para explicar as razões que me demoveram. Houve manifestações boas, outras que foram duras, mas acho que são válidas. Me expor no Twitter é o mesmo que me expor à rua. Eu não deixo esse expediente para minha assessoria de imprensa, como fazem alguns. O Twitter está para a modernidade como a praça estava para a Grécia antiga. As reações estão em um nível normal’, afirmou Mercadante posteriormente, mostrando que é possível aprender com os erros na net.

O exemplo do governador André Puccinelli, por sua vez, exemplifica como um político não deve usar um perfil de Twitter. No turbilhão gerado por suas ofensas ao ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, a quem chamou de ‘viado’ e ‘maconheiro’, Puccinelli foi alvo de críticas e pedidos de esclarecimento em seu perfil no microblog. Alheio ao estilo e necessidades das redes sociais, limitou-se a responder com ‘frases oficiais’. Resultado: o perfil está abandonado desde o dia 30 de setembro.

‘Comunicação contínua e bilateral’

Segundo Roberto Agune, administrar as críticas recebidas no Twitter é fundamental: ‘Há críticas interessantes, construtivas, e há quem extrapole.’ Para ele, os críticos trazem ferramentas, informações necessárias para fazer ajustes em procedimentos de governo. ‘É fundamental criar espaços onde se possa ouvir o cidadão. A sugestão de um cidadão pode nos ajudar a melhorar nosso trabalho’, afirma.

Este duplo pilar de sustentação, transparência/informalidade, esta ausente na maioria dos perfis políticos no Twitter. O erro está em se relacionar com as mídias sociais da mesma forma como se relaciona com as mídias tradicionais: na qual o discurso era uma via de mão única. ‘Antes nós falávamos com um milhão de pessoas. Hoje, um milhão de pessoas falam com você num instante’, resumiu Rodrigo Byrro, gerente de produtos da HTC América Latina, durante o Seminário INFO – Twitter, Orkut e Flicker.

É como diz Edney Souza, gestor do Interney.net, referindo-se a políticos que se armam das mídias sociais sem prepararem-se para isso: ‘Ter a oportunidade de falar não significa nada se não tiver avanços’. Para ele, apesar das iniciativas para aproximar população e esfera política, ainda é cedo para dizer que há algum tipo de proximidade. ‘Tudo que temos são indícios de boas intenções que na prática parecem mais campanha eleitoral antecipada do que algo de efetivamente produtivo para o cidadão brasileiro. Não bastam iniciativas isoladas para ouvir a população, é preciso começar a priorizar, dar satisfações e entregar resultados. Tudo isso acompanhado de uma comunicação contínua e bilateral.’

‘Atitudes que surgem nos bastidores’

Há quem questione a presença de políticos no Twitter. O diretor executivo da Transparência Brasil, Claudio Weber Abramo, é um deles. No artigo ‘Babel inútil‘, resume estes perfis como um ‘nunca acabar de trivialidades, auto-elogios, roteiros de visitas, elogios aos companheiros de partido e espetadelas previsíveis nos adversários’.

O cientista político da Universidade Federal Fluminense (UFF), Afonso de Albuquerque, em entrevista ao jornalO Globo, alerta para a repercussão instantânea de ‘gafes virtuais’ à Mercadante. Outro problema é a dificuldade em se adaptar o discurso a espaços onde a informalidade é a regra. ‘Neste caso, o efeito pode ser contrário: em vez de atrair, afasta o eleitor’, afirma.

Para Albuquerque, o Twitter pode servir para mostrar o lado humano, mas até isso é complicado para o político. ‘Na política é preciso tomar decisões que contrariam princípios pessoais. O jogo político não é centrado na opinião pública. É preciso muitas vezes tomar atitudes que surgem nos bastidores’, argumenta.

Eleitores se informam pela internet

Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília, o professor Venício A. de Lima explicitou recentemente, no artigo Internet e eleições: só não vê quem não quer‘, o inevitável avanço da rede sobre a política. Citando duas pesquisas, Lima traça um panorama desta presença inexorável.

Os resultados da pesquisa realizada pelo DataSenado ‘revelam que a internet (19%) já é o segundo meio de comunicação mais usado pelo eleitor brasileiro para informar-se sobre política, atrás apenas da TV (67%). Jornais e revistas aparecem em terceiro lugar, com 11% e o rádio é preferido por apenas 4% dos entrevistados. Além disso, quase metade dos eleitores (46%) acredita que a principal vantagem da internet nas eleições será a troca de informações e idéias. A possibilidade de facilitar a comunicação entre candidatos e eleitores aparece em segundo lugar, com 28%. Os entrevistados que disseram usar a internet diariamente somaram 58%; 78% acessam sites de notícias e 53% participam de alguma rede social, como Orkut ou Twitter.’

Outra pesquisa, realizada pelo Vox Populi, mostra que a proporção de eleitores que usam a internet para se informar sobre política já chega a 36%: ‘Quase dois terços dessas pessoas se informam exclusivamente em sites de notícias e blogs jornalísticos, enquanto que 7% utilizam somente as redes sociais, como Orkut, Facebook e Twitter com essa finalidade. Os 29% restantes combinam as duas possibilidades. São eleitores que acessam a rede com muita intensidade: cerca de 70% dos que procuram nela essas informações dizem que navegam `todo dia ou quase todo dia´ com esse intuito.’

Não há volta.

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Jornalista e edita o blog Escrevinhamentos

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