Domingo, 22 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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ARMAZéM LITERáRIO > CASO DANIEL DANTAS

Política de vazamentos pinta toda a imprensa de marrom

Por Alberto Dines em 15/07/2008 na edição 494

O diretor-geral da Polícia Federal, Luís Fernando Corrêa, entrou de férias nesta segunda-feira (14/07), no exato momento em que a Polícia Federal está na berlinda por ter vazado relatórios sigilosos sobre a operação Satiagraha para O Estado de S. Paulo.


Procurado em Brasília pela equipe do programa Observatório da Imprensa na TV, sua assessoria informou que o diretor está de férias e que ninguém, a não ser ele, está autorizado a falar sobre o assunto.


Julho, mês de férias, é bem possível que a explicação seja verdadeira. Pode ser também que os assessores do diretor-geral tenham inventado uma desculpa esfarrapada para livrar o chefe de mais um chatíssimo pedido de entrevista.


Mas é no mínimo estranho que a PF não conte em seus quadros com um funcionário autorizado a dar satisfações à sociedade no momento em que o país inteiro toma conhecimento do teor de uma conversa telefônica do chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto de Carvalho, com um dos advogados de Daniel Dantas, Luiz Eduardo Greenhalgh (sobre o tema, leia também Vazamentos são mais graves do que espetacularização das prisões).


A verdade é que a imprensa brasileira não se incomoda com a praga do vazamento ‘seletivo’ de documentos sigilosos. Ela é a beneficiária da irregularidade agora regular, mesmo que o privilégio seja rotativo, espécie de prêmio aos jornalistas bem-comportados. Com isto, aqueles que deveriam denunciar procedimentos impróprios das autoridades policiais tornam-se seus cúmplices. É o retorno do velho sensacionalismo amarelo (no Brasil, agora marrom) que aposta no furo futuro e esquece o seu compromisso com a investigação autônoma e soberana.


Leitor quer lama no ventilador


Também os leitores não se incomodam com esta sujeição da imprensa e da mídia eletrônica à loteria de informações patrocinada pela PF. O leitor quer barulho, lama no ventilador, escândalo. De nada adianta reclamar contra o número de grampos autorizados pela justiça. Segundo O Globo (13/07, manchete de primeira página), são 33 mil linhas legalmente grampeadas a cada mês. Em 2007, foram 409 mil escutas clandestinas.


Teoricamente legais: o vazamento é o subproduto do grampo indiscriminado: a polícia e/ou o Ministério Público apelam com tanta freqüência para o grampo, e a Justiça geralmente os atende, porque todos – com as melhores intenções, diga-se – contam com o vazamento de parte desses grampos para a imprensa. E a partir da imprensa fica estabelecido um tribunal virtual, sumário e discricionário. Do grampo ao paredón, assim foi com a Gestapo nazista, a GPU stalinista e a Stasi da Alemanha Oriental.


Na edição 487 deste Observatório (27/05/08) foi publicada a síntese de um processo do STF em que o seu presidente, Gilmar Mendes, uma hora depois de uma conversa telefônica com o procurador-geral da República, foi surpreendido com o telefonema de um repórter relativo ao teor desta conversa. A conversa entre as duas autoridades foi evidentemente grampeada e imediatamente transmitida a um jornalista ávido por um furo.


É legítimo jornalisticamente? É legítimo juridicamente? É legítimo republicanamente?


Vazamentos seletivos


Gilmar Mendes converteu-se em bête noire e talvez por isso sua reclamação não tenha merecido a devida atenção. Mas nos próximos dias, ou horas, o governo será levado a protestar, explícita ou indiretamente, contra a violação do segredo de justiça através do vazamento para a imprensa de uma conversa do mais alto funcionário da Presidência da República.


A luta contra a impunidade deve ser implacável, mas deve travada através de meios lícitos, caso contrário a punição torna-se suspeita, igualada aos ilícitos e à infração.


A política de vazamentos seletivos atende aos que se submetem ao princípio de que os fins justificam os meios. Acontece que a própria dinâmica dos vazamentos está empurrando os vazadores a ultrapassar todos os limites e distribuir informações sigilosas a esferas midiáticas onde impera o vale-tudo, isto é a blogosfera.


Irrigado pelos vazamentos, o chamado ‘espaço-cidadão’ corre o perigo de degradar-se rapidamente, porque blogs são geralmente iniciativas individuais, não oxigenadas por discussões internas, nem comprometidas com manuais e códigos, tocadas majoritariamente por impulsos antropofágicos.


Acontece que muitos ativistas deste tipo de jornalismo (no passado chamado de amarelo e hoje marrom, ver abaixo), nas horas livres estão a serviço da grande imprensa e são provavelmente estimulados por seus departamentos de marketing para desenvolver seus sub-subprodutos.


De onde se conclui que esta onda de vazamentos faz parte de uma cruzada insidiosa para desmoralizar o que restou de uma imprensa razoavelmente decente e medianamente responsável.


PS às 16h de 15/07: O vazamento agora é total. Desde a noite de segunda-feira, está disponível no site Consultor Jurídico a íntegra do relatório da Polícia Federal sobre o inquérito do Caso Dantas.

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/03/2010 Flamarion Reis

    Boa atrde,

    Mandei pra vocês um artigo chamado: ‘Cliente olho-por-olho, mercado dente-por-dente.’ e não obtive resposta quanto à sua possível publicação.

  2. Comentou em 12/03/2010 Flamarion Reis

    Boa atrde,

    Mandei pra vocês um artigo chamado: ‘Cliente olho-por-olho, mercado dente-por-dente.’ e não obtive resposta quanto à sua possível publicação.

  3. Comentou em 17/07/2008 Cláudio Dias

    Rubens, infelizmente, uma análise isenta dos regimes socialistas nos faz concluir que a corrupção ali também foi presente, e não em pequenas doses. Parece que esse é um problema comum da humanidade. Concordo com pensadores como Hobbes, Maquiavel e Norberto Bobbio que têm uma visão antropológica negativa. Por isso mesmo é que, seja qual for o regime, os cidadãos devem ter autonomia e senso crítico diante do Poder, de qualquer poder, ideologia ou sistema econômico.

  4. Comentou em 17/07/2008 Angelo Azevedo Queiroz

    O Sr. Dines esta parecendo João Batista pregando solitário no desolado deserto do esquerdismo. A militância esquerdista que dá pantão aqui no OI com comentários e artigos despreza as conquistas da civilizaçao. Estão, há mais de séuclo, em guerra santa contra o avanço da Decomcracia e do estado de Direito São herdeiros do pensamento e dos crimes de Lenin, Stalin, Mao, Pol Pot e adoradores de Kim IL Sung, de Fidel do Kmer vermelho e de Chavez.

  5. Comentou em 17/07/2008 Angelo Azevedo Queiroz

    O Sr. Dines esta parecendo João Batista pregando solitário no desolado deserto do esquerdismo. A militância esquerdista que dá pantão aqui no OI com comentários e artigos despreza as conquistas da civilizaçao. Estão, há mais de séuclo, em guerra santa contra o avanço da Decomcracia e do estado de Direito São herdeiros do pensamento e dos crimes de Lenin, Stalin, Mao, Pol Pot e adoradores de Kim IL Sung, de Fidel do Kmer vermelho e de Chavez.

  6. Comentou em 17/07/2008 Thomaz Magalhães

    Caro Paulo Pontoes, eu só disse que acho interessante nos petistas o que você confirmou: ‘Os petistas não sentem vergonha ou qualquer outro sentimento por alguns petistas de carteirinha.’ Quanto a ser patrulheiro dos tucanos, o partido social democrata do B, não sou não. Sou de direita. O Mário Covas, por exemplo, foi um tucano que eu nunca fui com a cara. Era comunista. A propósito, sabe o que eu acho dos socialistas? São comunistas envergonhados. E dos social-democratas? Socialistas envergonhados. Tracoisa: escrevi São Paulo e Jornalista com caixa alta e baixa, para melhorar minha imagem. Obrigado.

  7. Comentou em 16/07/2008 marcos omag

    Como o Diogo Mainardi não tem nada a ver com o esquema, se é explicitamente acusado no relatório?E não é preciso ler todo o calhamaço da PF. Leiam à partir da página 148, um único capítulo chamado ‘manipulação da mídia’.Se Veja acabar, DM perder o emprego e tiver que pilotar uma carrocinha de cachorro quente, uma certa Janaína for presa, a vida continua. E virá uma nova imprensa, que não tenha que esconder ‘esqueletos no armário’, como a imprensa que existe no Brasil de hoje.

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