Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > ENTREVISTA / GILBERTO SCOFIELD JR.

Por dentro do grande dragão

Por Paulo Lima em 04/09/2007 na edição 449

‘Não dá para morrer de tédio na China’, afirma o jornalista Gilberto Scofield Jr., correspondente do jornal O Globo naquele país. Afinal de contas, tudo o que diz respeito ao grande dragão vem carregado de superlativos. É tudo muito grandioso, desmesurado e urgente. O país ocupa uma área de 9,6 milhões de quilômetros quadrados. Sua população é de 1,3 bilhão de pessoas. E sua economia cresce a uma taxa recorde de 10% ao ano. De uma nação engessada durante mais de meio século pelos dogmas comunistas, a China passou a despontar como a grande potência do futuro. Produzir riqueza, e com rapidez, é o imperativo do grande dragão.

Gilberto Scofield Jr. é uma testemunha privilegiada dessa transformação, pois está vivendo no país desde 2004. Em seu livro recém-lançado Um brasileiro na China, ele oferece um olhar caleidoscópico sobre o cotidiano do gigante oriental. A grandeza e as mazelas da revolução econômica são expostas com extrema clareza e bom humor ao longo de 53 capítulos. Cada um deles aborda aspectos relevantes das mudanças que varrem a China. O roteiro do livro foi concebido a partir dos temas mais comentados pelos leitores do blog No Oriente, que o jornalista mantém em O Globo.

A estratégia dos dirigentes chineses de combinar capitalismo sem liberdade política produz, não raro, inúmeras contradições na vida dos chineses. A enorme confusão entre o público e o privado é uma delas, numa sociedade em que o coletivo sempre deteve a primazia sobre as decisões individuais. O livro traz situações que beiram o ridículo se comparadas aos nossos tolerantes padrões ocidentais.

O massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, não freou o ímpeto dos chineses por liberdade. ‘Há gestos de insubordinação cada vez mais freqüentes’, diz Gilberto Scofield Jr. Temas considerados tabus vão sendo gradualmente vencidos, como a utilização da psiquiatria para pessoas afetadas pela competição feroz, e não apenas como tratamento estigmatizante para doentes mentais. Outras conquistas vão-se insinuando na sociedade chinesa. As mulheres já podem pôr fim a casamentos insatisfatórios, por exemplo, algo inimaginável há até pouco tempo.

Mas o que impressiona é a velocidade com que o moderno vai tragando e destruindo a tradição na China. E não causam menor impacto os relatos de miséria coexistindo com a opulência. Uma estatística é particularmente dramática: 800 milhões de pessoas vivem em zonas rurais no país, o que representa 61% da população chinesa. Isso dá uma idéia do tamanho do desafio que aguarda o Estado chinês.

‘A China pode ser um importante país de desenvolvimento médio em 50 anos. Ou pode ser um país destruidor de recursos naturais ao ponto da exaustão do planeta’, avalia Gilberto Scofield Jr. De Pequim, ele concedeu por e-mail a entrevista que se segue.

***

Você chegou a Pequim em 2004. O cotidiano chinês ainda o surpreende?

Gilberto Scofield Jr. – Ainda. Quando você acha que já viu tudo, toma na cabeça. É muita gente, tudo enorme, números gigantes, problemas idem. Não dá para morrer de tédio, não.

O que a temporada na China tem agregado de mais importante para você como jornalista?

G.S.J. – O jogo de cintura para lidar com um governo que detesta jornalistas, especialmente estrangeiros. O governo chinês não se sente na obrigação de dar satisfação de seus atos aos chineses, que dirá aos estrangeiros. Então isso te obriga a recorrer a fontes no exterior, a professores independentes da academia chinesa, à diáspora chinesa, a acadêmicos de regiões mais livres, como Hong Kong e Taiwan. E aprender a conviver com o não, a seguranças grosseiros, a ser empurrado pela polícia, essas coisas.

Num capítulo do livro, você trata da barreira idiomática. Você chegou a viver alguma situação difícil pelo fato de não falar o chinês?

G.S.J. – Várias. Eu já me peguei em restaurante, em frente a um prato de salada, pedindo sal com aquele gesto universal de saleiro, e me ver rodeado de cinco chineses tentando entender o que eu dizia. Não é só o problema dos tons da língua, mas do processo de entendimento de um estrangeiro tentando se comunicar, um fenômeno recente devido à abertura chinesa nos anos 80. Isso sem falar que muitos motoristas de táxi de Pequim não são da capital e têm um sotaque incompreensível. Então você diz o endereço para o cara e ele não entende. Ele te responde e você não entende. Ou seja, impossibilidade de comunicação total, que só é rompida quando eu ligo do celular para o meu tradutor e peço a ele que explique ao motorista onde eu quero ir. Não é mole, não.

Seu olhar caleidoscópico sobre a realidade chinesa vai da culinária ao cinema. Algum produto (no sentido amplo do termo) chinês conquistou você a ponto de você pensar em substituí-lo por seu similar brasileiro?

G.S.J. – Calça jeans Levi’s 501 a R$ 20 e mp3 player a R$ 40, sinceramente, não dá para recusar. O resto é muito vagabundo ou não faz meu tipo/gosto.

Que tipo de hábito (ou situação) você testemunhou na China que jamais viu em outra parte do mundo?

G.S.J. – O hábito de escarrar ruidosamente em público, em qualquer lugar, como se fosse a coisa mais normal, mesmo dentro de shoppings e supermercados. Um horror.

O posto de correspondente estrangeiro já foi um dos mais glamourizados do jornalismo, especialmente naqueles países que envolviam ou envolvem o ‘circuito Elizabeth Arden’. Você acredita que a função tem sido desvalorizada pela mídia brasileira?

G.S.J. – Muito pelo contrário. O que eu vejo são os jornais apostando em correspondentes com a visão brasileira do mundo, o que é importantíssimo. O Globo, por exemplo, criou o cargo de correspondente em Pequim. Quando eu sair daqui, outro virá para o meu lugar. Isto é um investimento e tanto. Muitos jornais adotaram o saudável hábito de enviar equipes para lugares conflituosos, como o Globo fez recentemente com a África e a Folha com o Irã. Nunca a imprensa brasileira cobriu tanto a América Latina como hoje, uma região sempre tratada com certo complexo de superioridade nas últimas duas décadas. Então vejo muita melhora. A única ressalva que eu faço é sobre o ainda tímido espaço dado às editorias internacionais nos grandes jornais. Esse espaço tem que aumentar, para benefício do leitor.

Você mantém o blog No Oriente, sobre o seu dia-a-dia na China. Que assuntos mais despertam o interesse do leitor brasileiro?

G.S.J. – Os comportamentais, ou seja, como as mudanças econômicas estão afetando o dia-a-dia do chinês comum. Foi com base na audiência do blog que selecionei os capítulos para o livro.

Um capítulo importante do seu livro aborda a forte censura vigente na internet chinesa. O governo continuará ditando as regras, ou a batalha será vencida pelos internautas e isso é só uma questão de tempo?

G.S.J. – É difícil dar o tempo preciso desta mudança, que eu tenho certeza que ocorrerá no futuro, quando mais de 500 milhões de chineses estiverem na rede, por exemplo (hoje são 162 milhões). Mas o fato é que o Partido Comunista chinês não se sente disposto a abrir mão do poder num prazo inferior a 50 anos. Vamos ver quem ganha esta queda de braço. Da última vez que o povo chinês se manifestou na direção de reformas políticas, em 89, mais de dois mil estudantes morreram esmagados por tanques na Praça da Paz Celestial. Mas naquela época não tinha internet. Então vamos ver.

Imagine que você foi transformado num empresário capitalista com o desafio de comercializar um único produto na China? Qual seria? Por quê?

G.S.J. – Pão de queijo. Porque é comida (o chinês come horrores), é novidade que os chineses gostam (todos os que eu conheço adoram) e tem 1,3 bilhão de bocas no país, né? Hauhauhahuha.

No livro, você mostra que a postura zen atribuída aos chineses não passa de um mito, pois o que prevalece nas grandes cidades é a agitação e a pressa, como em qualquer parte do mundo. Nem mesmo na China mais tradicional ela pode ser encontrada, ou está tudo dominado?

G.S.J. – Mesmo no interior, o conceito de paz e tranqüilidade vem sendo rapidamente subvertido pela necessidade das pessoas fazerem dinheiro no menor prazo de tempo possível. Está tudo sendo dominado, eu diria.

O país combina crescimento econômico excepcional com centralização das decisões políticas nas mãos do Partido Comunista. No dia-a-dia chinês você tem presenciado gestos de insubordinação, ou todos se renderam ao culto à riqueza?

G.S.J. – Há gestos de insubordinação cada vez mais freqüentes (por isso eu falo em mudanças). Esta semana, por exemplo, uma mulher que possui um quiosque de bebidas no sul da cidade se recusou a abandonar o imóvel – que será destruído para que as avenidas onde vai ocorrer a maratona das Olimpíadas sejam ampliadas. Ela já disse que não sai. Nada disso é publicado na imprensa estatal, mas todo mundo comenta na internet e no boca a boca da cidade. Casos assim são cada vez mais comuns.

Por trás da força do crescimento chinês está uma poderosa indústria da pirataria. Por que o chinês copia tanto?

G.S.J. – Porque não tem liberdade para ser criativo, para discordar, para questionar. Na melhor tradição confucionista, são orientados para obedecer. Este é o grande dilema do desenvolvimento chinês hoje.

Suponha que você tivesse à sua frente uma bola de cristal e, através dela, fosse estimulado a imaginar o futuro da China. Em sua opinião, que futuro poderá ser esse?

G.S.J. – Tudo vai depender, como já disse, do grau de abertura para a criatividade que o governo permitir. E do grau de bom senso com relação à qualidade do crescimento. A China pode ser um importante país de desenvolvimento médio em 50 anos. Ou pode ser um país destruidor de recursos naturais ao ponto da exaustão do planeta. O que eu sei é que isso não é um problema só da China, ainda que o governo de Pequim ache isso.

Em sua opinião, o que nós, brasileiros, podemos aprender com os chineses para não perdermos o bonde da história?

G.S.J. – Fazermos o trabalho de casa, com investimento pesado em infra-estrutura, o grande diferencial do bem que a China possui. No campo educacional, é melhor mirar no Japão e na Coréia. E no campo da saúde, mirar nos países europeus.

E, ao contrário, há algo que nós, brasileiros, possamos ensinar aos chineses (não vale jogar futebol nem dançar samba)?

G.S.J. – Criatividade em situações de impasse, o famoso jogo de cintura do brasileiro. Temos de sobra.

É natural que brasileiros, após uma temporada fora do país, costumem olhar para o Brasil de uma maneira diferente, enxergando-o como um lugar melhor ou pior para viver. Como está sendo com você? Como vê o Brasil a partir de um posto de observação tão longínquo como a China?

G.S.J. – Vejo um país lento no processo de mudanças necessárias ao desenvolvimento. E um país sufocado por um nível de violência absurdo e doentio.

A China é um país particularmente complicado para jornalistas. Você tem conversado com os coleguinhas chineses? O que os motiva na profissão?

G.S.J. – O salário no fim do mês e a sensação de estar num país num momento de transição e mudanças tão espetaculares quanto a China.

Se você tivesse que deixar a China hoje, que produto tipicamente made in China levaria na bagagem?

G.S.J. – Música tradicional chinesa, porcelanas e alguns quadros de pintores contemporâneos.

E como definiria o país numa palavra?

G.S.J. – Superlativo.

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Jornalista, editor do Balaio de Notícias

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