Quinta-feira, 21 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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Preconceitos e incompetências

Por Marcos Vinicius Gomes da Silva em 17/02/2009 na edição 525

A advogada Paula Oliveira, de acordo com as mais recentes notícias, foi atacada por um grupo de três rapazes caracterizados, segundo ela, como skinheads nazistas, na Suíça. Ela, grávida, teve um aborto espontâneo. As autoridades brasileiras pediram empenho daquela nação européia na prisão e punição dos autores da violência contra a brasileira.


Alguns jornalistas de veículos de comunicação – principalmente a eletrônica – destacaram em suas reportagens que Paula era imigrante legal e altamente qualificada, tendo sido escolhida num difícil processo de seleção de uma empresa multinacional.


Estranhas, estas colocações, partindo ainda mais de um veículo de comunicação brasileiro como a TV, que, de uma forma ou de outra, são o reflexo de pior em nossa sociedade tão complexa. Vejamos um exemplo latente no caso: a educação; a mediocridade, a preguiça e o corporativismo reinam desde a educação básica até a universidade. Nossos maiores produtos de exportação são modelos esquálidas, reflexo de nosso baixo empenho intelectual, pautado nas ‘commodities humanas’, assim como os jogadores de futebol.


Um país racista-velado


Fomentamos a ilusão de milhares de meninas em concursos do tipo ‘Garota Fantástica’ onde a sorte é tão necessária quanto no sorteio da Mega-Sena. Desprezamos o conhecimento científico propriamente dito e o aprimoramento constante através do estudo e conhecimento. Difundimos a idéia de que vale mais a pena ser ‘malicioso, esperto e competente’ do que ser um adepto do planejamento pessoal e coletivo, visando a algo consistente em longo prazo. Por fim adoramos a insignificância midiática à la Big Brother.


Por que, então, ressaltar que a brasileira Paula Oliveira é qualificada – com certeza o é –, que ela é ‘diferente’ para os padrões brasileiros (inclusive femininos), neste momento de irracionalidade vinda de presumidos cidadãos de uma nação presumidamente civilizada e tolerante, mesmo quando em situações militares, como a Suíça?


Creio que seja devido ao forte simbolismo racista-nazista que o permeia. Somos, como todos sabemos, um país racista-velado, onde os resquícios de nosso passado humanista vergonhoso ainda persiste em elevadores de serviço, em quartos de empregada com dois metros quadrados e no assédio moral e sexual que muitas trabalhadoras do lar enfrentam. Sem falarmos da exploração sexual, da pedofilia, da falta de zelo com o que é público, do machismo truculento que às vezes é trágico, do compadrio político, do ‘sabe com quem está falando?’.


Exaltar virtudes inexistentes


Exaltando qualidades evidentes de competência, sucesso profissional e decência (que seriam despercebidas, ignoradas ou até invejadas em outras situações) nesta brasileira vítima de tamanho infortúnio, parece estarmos tentando nos diferenciar dos silvícolas europeus que mancharam a dignidade e a vida de uma cidadã-irmã. Deixamos de ser o país que é leniente com a violência diária que estampa nossos jornais impressos e televisivos. Deixamos de ser o país que recebe turistas, mas que não zela pela segurança das cidades, sendo que vários destes visitantes já foram mortos em tentativas de assalto. Deixamos de ser o país pautado pela estratificação desumana e responsável por uma das maiores desigualdades sociais do mundo. Deixamos de ser o país que não zela por suas crianças e jovens, que se perdem nas drogas e violência urbana ou são recrutados como escravos para o lucrativo mercado sexual europeu.


Será que haveria exaltação das qualidades da turista se ela fosse ilegal e estivesse em ocupações desonrosas praticadas por várias brasileiras iludidas por mercadores sexuais estrangeiros? Haveria tanta indignação se fosse, quiçá, negra ou mulata? Esperamos justiça para essa brasileira que foi vítima da intolerância que ainda reina no século 21. Mas que esse clamor por justiça não seja um leniente para com nossas mazelas seculares, um certo ‘complexo’ de nosso subdesenvolvimento humano, político e social. Que não seja um letárgico discurso para exaltarmos virtudes como país que não temos. Façamos nossa parte para que sejamos um país justo e melhor. Para que cidadãos, qualificados ou não, não necessitem sair de sua pátria para buscar condições que seu próprio país não oferece.

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Professor de inglês, Taboão da Serra, SP

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