Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
Menu

ARMAZéM LITERáRIO > RUI MOURÃO

Presença mineira

Por José Aloise Bahia em 15/02/2005 na edição 316

A literatura brasileira contemporânea, como uma literatura múltipla e dinâmica, abrange uma série de escritores expressivos. Muitos utilizam o espaço urbano como leitmotiv para suas estórias. Entretanto, poucos assumem o encantamento que determinados lugares provocam. E raros são aqueles que podem conviver de fato no seu dia-a-dia tendo como ambiente natural uma cidade centenária e Patrimônio Histórico da Humanidade. É o caso do mineiro Rui Mourão. E a cidade, Ouro Preto.

Antes de chegar a Ouro Preto, o escritor e jornalista perambulou por um bocado de localidades. A primeira delas, a cidade de Bambuí, Oeste de Minas Gerais, bem perto da nascente do Rio São Francisco (Serra da Canastra), onde nasceu em 18 de abril de 1929. Com 12 anos de idade, em 1941, começa o ginasial em Formiga. No segundo semestre, muda-se com a família para Divinópolis. Em 1947, precisando trabalhar para continuar os estudos, vai tentar o sustento em Belo Horizonte. Onde permanece até hoje. Entretanto, faltavam algumas histórias a contar nesta vereda lúcida e criativa. Uma delas: passar os dias em Ouro Preto e as noites em Belo Horizonte. Uma experiência anfíbia. De segunda a sexta indo de manhã e voltando à noite, ele viaja de ônibus em direção à antiga Vila Rica, onde dirige por mais de 30 anos um dos principais monumentos do país: o Museu da Inconfidência.

Estas e outras situações esclarecedoras sobre a vida, a carreira fecunda e premiada de ficcionista e ensaísta de Rui Mourão podem agora ser encontradas no sexto volume da coleção Encontros com Escritores Mineiros (novembro de 2004), editada pela Faculdade de Letras da UFMG, a mesma faculdade que pesquisou e, em várias parcerias, está restaurando todo o acervo do Suplemento Literário de Minas Gerais (fundado em 1966), além de colocar as mais de 1.200 edições impressas na internet (www.letras.ufmg.br/websuplit).

O sexto volume da coleção foi organizado pela professora Haydée Ribeiro Couto, que ressalta o valor do homenageado: ‘Rui Mourão é um autor importante não só pelo seu papel de romancista e ensaísta, mas como um escritor voltado para a preservação da memória de Minas e do Brasil’. Vai além, ao destacar a atuação no Museu da Inconfidência: ‘As atividades de Rui Mourão são confluentes e o colocam no cenário nacional e internacional’.

Realmente, Rui Mourão exerceu diferentes atividades: fundador da revista Tendência (1957), com Affonso Ávila e Fábio Lucas, editor do Suplemento Literário de Minas Gerais, em 1974 assumiu a diretoria do Museu da Inconfidência em Ouro Preto. Os prêmios literários e as medalhas recebidas reforçam o reconhecimento e a sua importância no cenário cultural e literário nacional. A coleção Encontros com Escritores Mineiros, publicação do Projeto Integrado de Pesquisa e Acervo de Escritores Mineiros da Fale/UFMG, tem como objetivo sistematizar, com os depoimentos de seus mais significativos representantes, o perfil de certa parcela da produção literária brasileira. Cada volume contém o relato da vida e da experiência intelectual dos autores, o comentário crítico – com matérias de jornais, revistas e suplementos literários de diferentes épocas – das obras publicadas, além de rico material iconográfico. Pela ordem, a coleção já lançou: Affonso Ávila, Autran Dourado, Abgard Renault, Darcy Ribeiro, Laís Corrêa de Araújo e agora Rui Mourão.

O caminho do exílio

Em 1949, Rui Mourão ingressa na Faculdade de Direito da UFMG. Estudioso e notadamente influenciado pelos escritores que mais lhe despertavam a atenção, como Franz Kafka, William Faulkner, Ernest Hemingway, Machado de Assis, Mário de Andrade, Graciliano Ramos e o colega também estreante Murilo Rubião, publica no ano seguinte, em A Manhã, do Rio de Janeiro, na coluna da escritora Dinah Silveira de Queiroz, o primeiro texto de crítica literária, sobre Sagarana, de Guimarães Rosa. Convidado por Fábio Lucas, colega da Faculdade de Direito, passa a integrar um grupo de jovens escritores que lançariam a revista Vocação. A partir de artigos e ensaios publicados em Vocação, nos suplementos do Diário de Minas, Letras e Artes, de A Manhã, e do Estado de S. Paulo, o seu trabalho começa a ser conhecido. Forma-se em Direito em 1953. Dois anos depois, ganha seu primeiro prêmio literário (Cidade de Belo Horizonte) com a novela As raízes. Em 1956, publica As raízes, seu livro de estréia.

Sobre o livro, Affonso Ávila observa:

O que a primeira vista se sobressai em As raízes é o seu equilíbrio estrutural, é a contenção nos limites da novela de uma experiência de vida bastante complexa e que se desdobra em mais de uma dimensão. (…) A novela se divide em duas partes, a primeira abrangendo a fase de desajustamento social dos personagens e a sua revolta contra a ordem ética, a segunda o período de dissolução moral que então sobrevém. A primeira parte se desenvolve em planos simultâneos e é nela que Rui Mourão exibe todos os seus recursos técnicos. (…) A linguagem do novelista acompanha o raciocínio do personagem, tipo obsessivo que remorde cada pensamento e se mantém em estado de permanente delírio. (…) Na segunda parte, Rui Mourão imprime maior objetividade à narrativa, acelera-se o ritmo de ação do personagem, o elemento estático da novela – a análise psicológica – cede terreno ao elemento dinâmico – a história.Com essa alteração de processo, a fabulação torna-se mais viva, há maior liberdade de movimento para o próprio ficcionista. Ele passa também a valorizar o descritivo, detém-se mais na observação de costumes. No capítulo oitavo da parte final reside o momento mais alto da novela, ali não seria exagero elogiar-se o vigor com que se consegue estabelecer o clima de ‘suspense’. Igualmente vigorosas são as cenas desenroladas no distrito policial e nos ‘bas-fond’ belo-horizontino. (Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 26/1/1957)

Neste ano de 1957, com o próprio Affonso Ávila e Fábio Lucas, companheiros de Vocação, funda uma nova revista: Tendência. Em 1960, assume a direção da revista. Em 1961, já casado com Elza Sampaio do Couto, é demitido do jornal Folha de Minas, no governo de José Magalhães Pinto (UDN), oposição ao PSD, que assumiu o poder em Minas Gerais. Em 1962, ingressa no Correio de Minas, jornal recém-fundado. Outra mudança: também se transfere para Brasília, onde, na condição de auxiliar de ensino, passa a lecionar Literatura Brasileira na Universidade de Brasília (UnB), criada por Darcy Ribeiro. Em 1963, torna-se mestre em Literatura Brasileira, apresentando dissertação sobre Graciliano Ramos. No ano do golpe militar, ocupa interinamente o cargo de coordenador do Instituto Central de Letras da UnB, em substituição ao romancista Cyro dos Anjos. No ano de 1965, com 270 professores, demite-se da UnB, em repúdio às arbitrariedades praticadas pela ditadura militar.

Não lhe resta outro caminho a não ser o exílio. Como no começo da nossa narrativa, perambula novamente por outras cidades. Em 1966, desloca-se para os Estados Unidos, onde vai lecionar na Tulane University, em New Orleans, Louisiana, na condição de professor-visitante. Nos anos seguintes, leciona na University of Houston, Texas, e ministra curso de verão na Stanford University, Palo Alto, Califórnia. Retorna ao Brasil em 1969, um ano importante na sua carreira de escritor, ensaísta e editor.

Perseguido pela ditadura

De volta ao Brasil, reassume o cargo de técnico de administração do estado de Minas Gerais, do qual se achava licenciado. É colocado à disposição da Imprensa Oficial, onde vai integrar a Comissão de Redação do Suplemento Literário do jornal Minas Gerais, caderno literário e artístico criado três anos antes, no dia 3 de setembro de 1966, pelo editor-fundador, o amigo e escritor mineiro Murilo Rubião, um dos introdutores do realismo mágico no Brasil. Neste posto será encarregado da organização dos números especiais da publicação.

O destino de Rui Mourão muda completamente quando é nomeado editor do Suplemento Literário de Minas Gerais, em dezembro de 1969 – em substituição a Murilo Rubião, denunciado como subversivo. Entretanto, é demitido do cargo, dois meses após a posse, por ordem do general Gentil Marcondes Filho, comandante da 11ª Região de Infantaria, sediada em Belo Horizonte. Outro fato marcante em 1969 é a publicação da primeira edição de Estruturas: ensaio sobre o romance de Graciliano. Após o lançamento, a obra foi responsável por uma mudança de rumos na crítica de Graciliano Ramos, tornando-se referência básica, pois ‘até então se fazia análise sociológica e biográfica do autor. A partir da análise estilística dos livros, abriram-se novas perspectivas para o estudo de Graciliano’, justifica Rui Mourão.

Em 1970, tem o primeiro contato com a antiga Vila Rica. Procurando abrigo na administração indireta para escapar à perseguição da ditadura, a qual o considerava subversivo apenas por não concordar com as práticas despóticas do governo militar, é admitido como diretor-executivo da Fundação de Arte de Ouro Preto, a convite de Murilo Rubião, que presidia o órgão. No ano seguinte, ganha novamente o Prêmio Cidade de Belo Horizonte com o romance Curral dos crucificados. ‘Uma grande metáfora’, nas palavras de Affonso Ávila: ‘Belo Horizonte-Curral-del-Rey-Curral dos Crucificados’. Um livro político. Um retrato real, singular e crítico. Uma imagem atualizada da grande contradição estrutural brasileira: o êxodo dos moradores do campo para os grandes centros urbanos do país, em busca de melhores condições de vida.

O leitor cúmplice

Eis o comentário de Fritz Teixeira de Salles sobre a prosa de Curral dos crucificados:

(…) Mural ou sinfonia de signos polivalentes e de imagens vivas construídas para expressar (revelando) o burburinho caótico, amplo e tumultuado da cidade-coração do mundo contemporâneo, neste livro podemos ver quais as conseqüências e as renovações profundas que a colocação do texto como foco da estrutura poderá acarretar e já acarretou. Em o Curral dos Crucificados tudo se transforma incessantemente. O texto atinge a obra e a sua estrutura; esta estremece no tumulto da rua que vai e vem na sua vibração contemporânea, atual e transformadora, onde tudo o que é – já era, ou foi porque será. O romance brasileiro perdeu então o seu caráter de corte estático, ou sincronia sem diacronia – de uma paisagem imobilizada no lago tranqüila de um universo que não se move e não responde. (‘Suplemento Literário’ do Minas Gerais, 27/11/1971)

Contradições e ironia do sistema, aliás, grata satisfação: em 1972, é condecorado com a Medalha do Sesquicentenário da Independência pelo governo militar. No ano de 1973 publica Cidade Calabouço. Uma obra literária simbólica e fragmentada dentro de uma cidade sombria. Um ritual úmido e subterrâneo. Uma execução, em última análise, carnavalesca de um casal de retirantes nordestinos, cruel, lenta e gradativa. Considerado um dos melhores livros do ano pela crítica. ‘Um romance dionisíaco’, segundo Fábio Lucas (Correio do Povo, Porto Alegre, 2 de abr. 1974). Ou, ‘Uma narrativa, onde o povo é a personagem coletiva que, onipresente, ofusca, oblitera, mas, sobretudo engloba e assimila todas as demais. A grandiosidade dessa personagem incomum, aliada à condensação de situações de clímax, confere à narrativa uma dimensão de epopéia’, na opinião de Astrid Cabral (Revista José, Rio de Janeiro, ago. 1976). Bella Josef também destaca as qualidades da ficção:

Uma narrativa de predominância parodística, como esta, diminui o projeto humano, baixando-lhe a estatura heróica. No sistema narrativo de sua obra, Rui Mourão coloca elementos aparentemente em oposição, que interrompem a narrativa. O agenciamento dos pormenores num contexto de paródia, donde as exigências da narrativa contrariam a continuidade, faz do leitor cúmplice, frustrando o desejo de coerência, enquanto o autor lhe propõe uma nova figura de ordem: o fantástico. Coloca o leitor dentro do quadro do fantástico e situa a ficção dentro do universo temporal do leitor. (Revista Iberoamericana, EUA, abril-junho de 1975)

Boas novas

O ano de 1974 é de reconhecimento e trabalho. Rui Mourão toma posse no dia 14 de junho, no cargo de diretor do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Uma administração difícil no começo. Período de muitos estudos, planejamentos e projetos, pouca verba, e intervenções necessárias, pois o prédio exigia uma manutenção especial, principalmente na conservação de peças valiosas. Foram construídos dois anexos e a implementação mais ágil de serviços técnicos essenciais se prolongou por vários anos. O trabalho frutificou e se tornou referência para um sistema que unia todos os museus e casas históricas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Minas Gerais.

Tanto esforço em prol da preservação da memória do acervo público valeu a Rui Mourão, no ano de 1978, além do cargo de diretor do Museu da Inconfidência, a coordenação do Grupo de Museus e Casas Históricas de Minas Gerais, e, posteriormente, a coordenação do Programa Nacional de Museus. Muita responsabilidade, com a qual permanece até hoje.

E anuncia as boas novas: ‘Desde da época em que o presidente Getúlio Vargas em 1942 trouxe de volta ao Brasil os restos mortais dos inconfidentes degredados para a África, e a inauguração oficial no dia 16 de agosto de 1946, em comemoração ao bicentenário do poeta e inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, as instalações do Museu da Inconfidência não sofreram alterações. Agora em 2005 vai ser a primeira vez que o museu passará por uma reforma geral. Pois mesmo com os anexos, o espaço se encontra pequeno para guardar o acervo, que aumentou em obras e qualidade, devido às inúmeras aquisições, pesquisas e restaurações de peças’.

As últimas aquisições importantes foram o conjunto dos processos que tiveram curso na Justiça de Ouro Preto, durante os séculos 18 e 19, os manuscritos musicais descobertos por Francisco Curt Lange, pesquisador da música colonial, os Autos da Devassa referentes aos réus eclesiásticos. Além dos numerosos traslados da devassa de Minas Gerais e do Rio de Janeiro que haviam permanecido em Portugal, como propriedade da família do Conde de Galveas.

Justa homenagem

Retomemos a saga literária: em 1978, sai a segunda edição de Cidade calabouço. Lança mais um livro em 1979, Jardim pagão. Sobre o romance, F. S. Nascimento observa:

Usando a ficção, em vez do ensaio, para questionar importantes problemas da atualidade. Rui Mourão faz, à sua maneira, uma obra cheia de denúncias, ressaltando os instrumentos de repressão ao uso da palavra, mesmo que em defesa dos postulados nacionais. Diríamos que sob a plumagem de sua prosa de ficção se reúnem muitos fatos que, integrando a nossa contemporaneidade, haverão de mais tarde servir de subsídios aos sociólogos, historiadores ou cientistas políticos do futuro que pretendam estudar as repercussões de idéias possivelmente reais, mas só ficcionalmente assumidas por pregadores populares como Ângelo e Militão. (Estado de Minas, Belo Horizonte, 13/12/1980)

O ano de 1983 também lhe é muito especial. Recebe a medalha comemorativa dos 75 anos do Museu Nacional de Belas Artes. Em outubro toma posse como diretor do Museu da República, na cidade do Rio de Janeiro, e publica mais um romance: Monólogo do escorpião. Edilberto Coutinho faz a seguinte apreciação:

Em livros anteriores, como Curral dos crucificados, Cidade calabouço e Jardim pagão, sentia-se muito forte, no ficcionista, a presença do crítico e do ensaísta. A crítica e o ensaio, porém, foram gêneros que deixaram marcas profundas, no romance de Rui Mourão, sem prejuízo do impacto dramático de suas narrativas. Neste Monólogo do escorpião, o ficcionista se renova, recalcando o teórico, em favor de pura criação, mostrando que nenhum desajuste existe em sua atividade múltipla de escritor. Temos assim, em seu Monólogo do escorpião, toda a vida mineira reanimada com sopro próprio por um verdadeiro artista da palavra escrita. Rui Mourão reconstrói Minas Gerais (por extensão, o Brasil) a partir da reconstrução do seu universo pessoal, de forma sempre convincente. (O Globo, Rio de Janeiro, 3/7/1983)

Nos anos seguintes, Rui Mourão recebe uma premiação internacional, duas nacionais e inúmeras medalhas, sendo as principais a Medalha Rodrigo Mello Franco de Andrade, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1987, e a Medalha da Ordem do Mérito Diamantinense, em 1988, ano do sesquicentenário da cidade de Diamantina, Minas Gerais. Dois anos depois, em 1990, publica O alemão que descobriu a América, ensaio sobre a pesquisa de Francisco Curt Lange que, ao descobrir a obra dos compositores mineiros do século 18, anexou 100 anos à história da música no Brasil. Uma obra esclarecedora e justa homenagem ao Mestre da Música, cujos manuscritos descobertos na década de 1940, em suas viagens pelas Minas Gerais, fazem parte do acervo do Museu da Inconfidência.

Original e intrigante

Em 1991, recebe outra condecoração importante, a Medalha Santos Dumont, grau Prata, e publica Boca de chafariz, contemplado em 1992 com o Troféu Francisco Igreja, da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, como o melhor romance do ano. Em 1994, concorrendo com 427 obras publicadas pelos principais autores do continente, Boca de chafariz é agraciado, na Colômbia, com reconhecimento Especial do Premio Pegaso de Literatura Latinoamérica, do Centro Regional para o Fomento Del Libro em América Latina y el Caribe (CERLALC). Boca de chafariz é considerado por muitos críticos o melhor romance de Rui Mourão, que assume e revela a sua ligação afetiva com Ouro Preto:

Escrevi o romance Boca de chafariz, uma estória de renascimento. Renascimento da cidade-monumento contra todos os fatores que tramam a sua degradação, destruição e morte. Renascimento do escritor que, deixando para trás um passado de criatividade que nunca o desonrou, desejava se comprometer, noutro plano, com um presente de mais conseqüente renovação, de ambição de maior perenidade. Ouro Preto proporcionou-me talvez a aventura limite da minha carreira intelectual. Por isso eu a enxergo sempre com olhar de encantamento. (‘Suplemento Literário’ do Minas Gerais, Belo Horizonte, abril de 2004).

Outro mineiro, o jornalista e poeta Affonso Romano de Sant´Anna, destaca Boca de chafariz:

Original e intrigante esse romance de Rui Mourão onde o autor, que há anos dirige o Museu de Ouro Preto, conta uma história fantasticamente mineira: imagina Ouro Preto sendo destruída por um avassalador temporal e onde figuras que se relacionam com sua história voltam para salvá-la. Misturam-se surrealisticamente Aleijadinho e Rodrigo Mello Franco, Tiradentes e Aloísio Magalhães, os inconfidentes, Guignard, Tarquínio de Oliveira, Edson Mota, Jair Inácio e muitas outras personagens vivas e mortas numa carnavalização da história. É uma narrativa histórica, onde sobretudo os mineiros voltarão aos subterrâneos de sua alma. (O Globo, Rio de Janeiro, 29/1/1992)

Jabuti de 2002

No ano de 1995, relança uma nova versão, atualizada, do livro Museu da Inconfidência (publicado, inicialmente, em 1984, com a contribuição lúcida e de inestimável valor do historiador Francisco Iglésias), contando com colaboração e assessoria de vários professores, historiadores e críticos de artes plásticas. Em 1996, mais um romance: Servidão em família. O foco muda de lugar: o cenário é a capital mineira. Despindo a alma dos personagens, desmascarando a tão falada tradicional família, e tocando na questão principal de todo o sistema: o dinheiro.

Num olhar afiado, o escritor Duílio Gomes faz o seguinte comentário:

Servidão em família é o retrato sem retoques de uma instituição falida. (…) O texto elegante e reflexivo de Rui Mourão passeia pela insensatez e por uma Belo Horizonte dividida entre os muitos ricos e os sem nada. O confronto entre classes sociais é patético. Madame Bovary parece ter sido o modelo no qual se inspirou o autor para compor sua tresloucada personagem feminina. E Sêneca – que nem sequer é citado no livro – poderia estar na epígrafe com a sua máxima ‘uma grande fortuna é uma grande servidão. (Estado de Minas, Belo Horizonte, 23/1/1997)

Em 2001, mais um livro: Invasões no carrossel. Em 2002, mais um prêmio: o Jabuti da Academia Brasileira de Letras, como o melhor livro-ficção do ano de 2001. Agora, a temática é mais contemporânea. Como analisa Cláudio Leitão:

O guerrilheiro Carlos Lamarca, nome de impacto na história recente do Brasil, é personagem de Invasões no carrossel, de Rui Mourão, ensaísta e romancista premiado com Boca de chafariz (1992). Morto pelas forças oficiais, inicia e encerra a narração reflexiva, para contar a morte da amante e a sua própria morte. Fernando Collor de Mello é o outro nome que se transfunde em personagens de ficção nesse mesmo carrossel de vozes giratórias. O tom é cambiante e profético. O livro abrange a campanha, o curto mandato presidencial e a deposição de Collor e seus aliados. Nomes conhecidos e inventados tornam-se igualmente personagens. Realidade e ficção querem se fundir. (…) Fantástico, absurdo e nonsense são recursos encontrados em equilíbrio, no plano do romance. Na fatura da obra, o uso de cartas, diários e toda sorte de escrita pessoal encontrada em romances como Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, e Boquinhas pintadas, de Manuel Puig, é material reciclado com êxito por Mourão. (‘Jornal de Resenhas’, Folha de S. Paulo, 10/8/2002)

Moderna e viva

O cruzamento das linhas do processo criativo de Rui Mourão atravessa o universo de Minas Gerais e deságua no Brasil. Desde a remota Bambuí, onde nasceu, Formiga, Divinópolis, Belo Horizonte ou a barroca Ouro Preto. Cidades-Mundos, por onde passou e ainda passa; e na sua biografia como bom morador das Alterosas, enxerga e repara bem de perto o povo, identifica-se com os seus temores, seus conflitos, suas esperanças, e, o principal: seus causos e a boa prosa.

Navegando por terra observa as montanhas e o céu. Na confluência do horizonte, uma inquietude sadia e o amadurecimento intelectual, apontam novas reflexões, novas perspectivas, sem nunca perder o prumo das palavras. Em tempo algum renuncia o extremo cuidado com que trata a língua. Desta fonte, e como assinala o jornalista Alécio Cunha, ‘Catando o pó cósmico da história’, a travessia ligeira e de bom passo do escritor Rui Mourão, para o deleite, nos oferece um banquete de livros, capaz de prender a atenção e sempre nos revitalizar, nos sacudir nas poltronas. O ponto máximo da ficção apresenta-se na forma de artifícios destemidos em seus jogos de linguagens num processo criativo, marcado por um eterno jogo de idéias, com exercícios polifônicos infinitos. Que nos surpreende do início ao fim.

A qualidade da sua ficção e ensaios é dignamente a confirmação da presença emancipada e a procura de vasos comunicantes férteis e dilatadores para um intelectual de várias facetas. A sua presença mineira celebra o encontro de vários personagens em obras imaginativas, sempre em expansão, migrantes e cinéticas. Dotadas de uma prolongada sede de liberdade, onde os leitores, com certeza, a partir de seus apontamentos atuais feitos nas viagens de idas e vindas, de ônibus, diariamente entre Belo Horizonte e Ouro Preto, receberão aquilo que é do reino da boa literatura: o domínio da técnica, as metáforas elaboradas, a ficção exigente, a escrita expressiva, ousada, fantástica, gerativa de sentidos amplificados e o mais notável: a emoção. Impressionante, perturbada, abrasadora – que detesta todo e qualquer tipo de aprisionamento. Ambiciosa, perceptiva e alicerçada na tradição e na consciência de um passado rico e reflexivo, com raízes firmes, moderna e viva neste mundo de culturas híbridas.

******

Jornalista e escritor, Belo Horizonte; pós-graduado em Jornalismo Contemporâneo, autor de Pavios curtos (no prelo pela anomelivros)

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem