Terça-feira, 23 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1047
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ARMAZéM LITERáRIO >

Pressa em publicar, pressa em condenar

Por Lilia Diniz em 04/03/2009 na edição 527

Três semanas atrás, o Brasil solidarizava-se com o drama de uma pernambucana. Nos jornais, notícias sobre uma advogada que sofrera aborto após ser agredida barbaramente por neonazistas, numa cidade suíça. Manchetes alardeavam que Paula Oliveira, funcionária de uma multinacional, estava grávida de duas meninas. Revoltados, o governo, leitores, telespectadores, internautas e a mídia criticavam o crescimento da xenofobia na Europa. Nenhum questionamento por parte dos meios de comunicação. Mas, dias depois o caso sofreu uma reviravolta. Segundo autoridades suíças, Paula Oliveira não estaria grávida e tudo não passara de uma farsa. O Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (3/3) pela TV Brasil discutiu a precipitação da mídia brasileira neste episódio.


O programa contou com a participação do jornalista Ricardo Noblat em Brasília. Com mais de 40 anos de profissão, Noblat assina o mais antigo blog de política do país e foi o primeiro a publicar uma notícia sobre o caso. No Rio de Janeiro, o convidado foi o jornalista Guilherme Fiuza, autor de um blog no site da revista Época. Para complementar o debate, o estúdio de São Paulo recebeu Renato Janine Ribeiro, professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP).


Antes do debate ao vivo, o jornalista Alberto Dines, editor do programa, comentou assuntos que estiveram em destaque na mídia nos últimos dias. O primeiro fato que Dines destacou na coluna ‘A Mídia na Semana’ foi a entrevista do âncora Riz Kahn com o escritor israelense Amós Oz veiculada pela emissora de TV Al-Jazira, sediada no Catar (ver ‘Amós Oz e as lições de equilíbrio‘). Para Dines, a entrevista mostra um paradigma de jornalismo que aposta na inteligência e é uma lição do Oriente Médio que o Ocidente poderia aproveitar. ‘A mídia é belicista ou pode ser um agente da paz?’, questionou.


Outro tema da coluna foi a reforma de conteúdo anunciada pela Folha de S.Paulo. Dines elogiou o fato de a reforma ser conduzida ‘por aqueles que fazem o jornal’, sem recorrer a consultores internacionais, e prever matérias compactas, didáticas e analíticas. ‘Acontece que a reforma começou poucos dias depois de anunciada, quando o editor de política Fernando de Barros e Silva contestou de forma polida e firme um editorial do próprio jornal que classificava o regime militar não como uma ditadura, mas uma `ditabranda´’, disse.


O último assunto foi o silêncio da imprensa sobre o sequestro de um menino brasileiro de pai americano. O caso teve início há quatro anos, mas só começou a ser explorado quando a jornalista Dorrit Harazim publicou os detalhes do imbróglio em novembro passado, na revista piauí. Na opinião de Dines, depois que a mãe do menino faleceu, o padrasto da criança, um dos maiores advogados criminalistas do país, conseguiu o silêncio da mídia brasileira. ‘Mas não o da mídia americana. A secretária de Estado levantou a questão no encontro com o nosso chanceler que, mais uma vez, é constrangido por uma mídia que ora delira e ora censura’, comentou.


Uma polêmica que não pode cair no esquecimento


Ainda antes do debate, em editorial [íntegra abaixo], Dines advertiu que o caso de Paula Oliveira não pode cair no esquecimento. Além de conter ‘ingredientes didáticos’, o episódio forçou a mídia a refletir sobre seu trabalho. ‘Denunciar e combater os neonazistas e neofascistas é uma obrigação dos democratas. Mas os jornalistas não podem se iludir com aparências. O objeto da imprensa não é a verossimilhança, mas a veracidade’, avaliou. Dines explicou que o objetivo do programa não é julgar, mas sim debater.


A reportagem exibida no programa ouviu as opiniões das jornalistas Deborah Berlinck e Eliane Cantanhêde. Para Berlinck, que cobriu o caso para o jornal O Globo, a imagem da imprensa brasileira na Alemanha ficou arranhada após o episódio. Berlinck destacou que todos os veículos compraram a versão da brasileira com base em um único depoimento: um pai desesperado que ouviu a história da filha e a repassou para a família. Do círculo familiar, a história migrou para a imprensa como um fato inquestionável. Ao reler as primeiras matérias sobre o caso, a jornalista ficou impressionada com a falta de questionamento da mídia. Os fatos eram tidos como certos, ‘não havia um `alegou´, nem um `supostamente´ nas matérias’.


Deborah avalia que a mídia suíça não é modelo de jornalismo, mas que tem razão em sua crítica. A imprensa brasileira, neste episódio, ignorou a regra mais básica do jornalismo, a de que existem pelo menos duas versões sobre um mesmo fato. E ainda assumiu que Paula Oliveira estava acima de qualquer suspeita por falar outros idiomas e trabalhar em uma multinacional. ‘Saímos com a fama, na Suíça, de uma imprensa preguiçosa que não fez o dever de casa. Admitamos: o erro foi feio’, criticou.


Diferentemente do Brasil, a polícia suíça não divulga fotos do envolvidos e nem passa informações para a imprensa antes de investigações preliminares. A jornalista explicou que na maioria dos grandes jornais da Europa, vítimas e agressores, mesmo com autorização, jamais têm seus sobrenomes publicados. Berlinck frisou que as fotografias de Paula Oliveira continuam a ser publicadas com o rosto distorcido para evitar que a brasileira seja reconhecida.


Deborah relembrou um episódio ocorrido em Paris, em julho de 2004, no qual uma moça judia alegou ter sido vítima de um ataque racista bárbaro em um trem. Durante dois dias, o governo, os parlamentares e a imprensa se indignaram com o suposto aumento do racismo na França, até que descobriram que toda a história não passava de uma invenção da suposta vítima. Uma bola fora da imprensa européia.


Desafios de uma cobertura à distância


‘A imprensa brasileira não tinha alternativa, tinha que publicar’, avalia Eliane Cantanhêde. Colunista da Folha de S.Paulo, a jornalista acredita que as fontes – tanto as governamentais, quanto o pai da advogada e a própria Paula Oliveira – tinham credibilidade. Um fator que prejudicou a cobertura brasileira, principalmente no início do caso, foi a distância. A quilômetros de Zurique, era difícil para um jornalista brasileiro ter acesso a informações das autoridades locais.


Os meios de comunicação não erraram de má-fé. Não houve displicência, na avaliação de Eliane. O jornalismo é uma profissão sujeita a erros. Por ter ocorrido na Europa, em um contexto de crise econômica e crescimento de movimentos xenófobos, havia um pano de fundo que tornava a história verossímil. ‘Os skinheads não foram inventados pela imprensa brasileira. Eles existem’, ponderou.


No início do debate, Dines pediu para Ricardo Noblat comentar a primeira página da edição de 4/8/2000 do Correio Braziliense, que estampava em manchete: ‘O Correio errou’. No dia anterior, a principal matéria do diário, intitulada ‘O grande negócio de Jorge’, informava que o ex-secretário do Palácio do Planalto, Eduardo Jorge, estava ligado a um escândalo de corrupção envolvendo a empresa DBO Direct e o Banco do Brasil. Mas as acusações eram infundadas e Noblat, então diretor de Redação do Correio, inovou ao publicar o inédito pedido de desculpas na manchete. Para Dines, o comportamento do jornal foi exemplar ao reconhecer o erro não em uma pequena nota, como faz a maior parte da imprensa, mas no mesmo local onde a matéria original foi publicada. No ano seguinte, a edição do Correio recebeu o Prêmio Esso Melhor Contribuição à Imprensa.


A grande imprensa pode guiar-se pela mídia virtual?


Noticiada pela primeira vez em um blog, a versão da advogada Paula Oliveira correu o mundo. Dines questionou Noblat se a imprensa pode encampar uma notícia publicada em um blog, espaço que funciona como um ‘diário de bordo’, de caráter pessoal. Noblat defendeu que toda a imprensa, inclusive na internet, deve respeitar as regras universais do jornalismo, como verificar as informações antes de publicá-las.


Antes de postar a notícia, Noblat ouviu exaustivamente o pai da brasileira e conversou com a madrasta da advogada. A pedido do jornalista, a família enviou fotografias em que Paula Oliveira aparentava estar grávida e outras onde aparecia mutilada. A cônsul-geral do Brasil em Zurique o desestimulou a tentar obter a versão da polícia, e explicou que as autoridades não se manifestariam naquela etapa das investigações. Não havia outras fontes no momento, ‘era a história possível de ser contada’. Noblat advertiu que, embora seja improvável outra reviravolta, o caso ainda não está encerrado.


Guilherme Fiuza ponderou que a imprensa não é perícia nem processo legal, e sim uma voz que procura revelar a realidade. Hoje, a opinião pública critica duramente a cobertura, mas a imprensa tinha fortes indícios de que ocorrera um fato aterrador. O jornalista comparou o episódio à recente cobertura do assalto sofrido pelo músico Marcelo Yuka, no Rio de Janeiro. Não houve dúvidas a respeito do relato do músico. Diante de uma fonte com credibilidade, a mídia não espera a versão oficial para veicular os fatos. Para o jornalista, em determinadas situações é melhor conviver com os excessos da mídia do que com uma imprensa clínica e sem oxigênio. ‘O jornalista não pode perder a capacidade de reação imediata’, disse.


Histórias impactantes e bem contadas podem induzir o jornalista ao erro, na opinião de Renato Janine Ribeiro. O filósofo compreende a atitude da imprensa em publicar versões passadas por pessoas com credibilidade antes de checar a veracidade das informações, e ponderou que além dos meios de comunicação e do governo, o leitor também errou ao se indignar com rapidez. O professor condena o tom de julgamento das reportagens publicadas após as autoridades suíças levantarem suspeitas sobre o caso. Na opinião do filósofo, é grave a postura da mídia – incluindo imprensa diária, eletrônica, revistas semanais, blogs. Para ele, a informação está editorializada e adjetivada.


Regras universais


‘Estamos condenando e atacando muito depressa’ criticou Ribeiro. A imprensa oferece a sentença, o leitor só precisa endossar. É uma característica brasileira a pressa em condenar apressadamente. Enquanto americanos e europeus têm o hábito do debate, os brasileiros têm dificuldade em aceitar que possam existir dois pontos de vista legítimos sobre uma mesma questão. Renato Janine Ribeiro creditou o fato à falta de vivência democrática dos brasileiros. E a mídia pouco contribui para o confronto pacífico de idéias.


Dines questionou se o frenesi da era digital tem atrapalhado o espírito da ponderação, imprescindível na atividade jornalística. Até que ponto vale a pena publicar uma notícia em primeira mão? Fiuza destacou que o consumidor de informação tem capacidade de discernimento e quer tomar posição sobre os assuntos publicados. A função da imprensa não é só informar. É também oferecer análise e perspectivas. Para Fiuza, o afã do julgamento observado na imprensa reflete o afã da opinião pública em encontrar culpados.


O jornalista destacou que a opinião pública brasileira está com raiva de Paula Oliveira, mas não deve se esquecer que a advogada é uma brasileira em outro país e que precisamos ficar alertas para que ocorra um julgamento justo. Noblat afirmou que a mídia convencional não pode se pautar pelo jornalismo eletrônico, embora as regras que regem o jornalismo sejam universais. ‘Não pode haver irresponsabilidade nem descomprometimento com a verdade’, alertou. A vontade de dar o furo gera precipitação em todos os meios. Noblat discorda de Deborah Berlinck de que a imprensa brasileira não fez o dever de casa. ‘Ser profeta do passado é muito fácil’, disse.


***


O objeto da imprensa


Alberto Dines # editorial do programa Observatório da Imprensa na TV nº 492, exibido em 3/3/2009



Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.


É sempre assim: depois da empolgação da imprensa vem o cansaço e o esquecimento. Mas o caso da advogada Paula Oliveira, supostamente agredida por neonazistas suíços, não deveria ser abandonado. Ele contém ingredientes altamente didáticos e conseguiu superar a cortina de silêncio que a própria imprensa coloca em cima das controvérsias que a envolvem.


Nunca é demais lembrar, especialmente depois do período de férias, que este Observátorio não é um tribunal. Atravessamos a primeira década, estamos no segundo decênio insistindo sempre num ponto – somos um fórum mas de debates e reflexão. Não há réus, nem magistrados. A mídia deve buscar a transparência – inclusive a sua própria.


Um blog originalmente chamado de weblog é um diário de bordo, instrumento de comunicação pessoal. Um veículo jornalístico é um instrumento coletivo, institucional. Ao fazer estas distinções estamos tentando mostrar que a mídia é um conjunto de meios, portanto é um processo e um sistema. E este conjunto de meios deve funcionar de forma diversificada para oferecer à sociedade uma visão integral da realidade.


Uma coisa é certa: o fascismo e o nazismo não morreram. Estão vivos no Novo Mundo e no Velho Mundo onde surgiram há pouco mais de 70 anos. Denunciar e combater os neonazistas e neofascistas é uma obrigação dos democratas. Mas os jornalistas não podem se iludir com aparências. O objeto da imprensa não é a verossimilhança, mas a veracidade.


***


A mídia na semana


** A mídia é belicista ou pode ser um agente da paz? A rede al-Jazira demonstrou há duas semanas que um jornalismo inteligente e superior aproxima adversários ao invés de acirrar ressentimentos. A entrevista do âncora Riz Kahn com o consagrado escritor israelense Amós Oz, ambos em inglês fluente, mostra um paradigma de jornalismo que aposta na inteligência. Uma lição do Oriente Médio que o Ocidente e a América Latina poderiam aproveitar.


** A Folha de S.Paulo anuncia uma reforma de conteúdo. Parabéns! A reforma está sendo preparada por aqueles que fazem o jornal sem recorrer aos consultores internacionais. Parabéns. As matérias deverão ser compactas, didáticas e analíticas. Parabéns! Acontece que a reforma começou poucos dias depois de anunciada quando o editor de política, Fernando de Barros e Silva, contestou de forma polida e firme um editorial do próprio jornal que classificava o regime militar não como uma ditadura mas uma ‘ditabranda’. Parabéns novamente.


** O caso se arrasta há mais de quatro anos e não mereceu da imprensa brasileira uma única linha até que a jornalista Dorrit Harazim, na revista piauí de novembro passado, contou a história inteira. Um menino brasileiro, filho de pai americano, foi seqüestrado pelo padrasto e pelos avós maternos. A mãe brasileira, casada com um dos maiores advogados cariocas especializado em direito de família, morreu de parto. O pai requereu a guarda do filho. O padrasto conseguiu o silêncio da mídia brasileira. Mas não o da mídia americana. A secretária de estado Hillary Clinton levantou a questão no encontro com o nosso chanceler, que mais uma vez é constrangido por uma mídia que ora delira e ora se cala.

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