Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > FOLHA DE S. PAULO

Primeiras páginas contam 90 anos de história

Por Deonisio da Silva em 15/03/2011 na edição 633

O alvorecer de 2011 trouxe para as livrarias a 7ª. edição de Primeira página: 90 anos de história nas capas mais importantes da Folha. Reflete com boas amostras as primeiras páginas do jornal Folha de S. Paulo desde 1921.

É um documento e tanto. Para os pesquisadores, uma fonte de indícios e temas a aprofundar. E para o leitor comum é um livro que, conquanto difícil de ler, pelo miúdo e pelo amontoado das letras, oferece informações, curiosidades, lembranças, enfim um memorial de quase um século! E, melhor ainda, do século de quase todos os leitores!

Na apresentação, Otavio Frias Filho, diretor editorial da Folha, admite que não existe acordo sobre o que é um ‘fato’, mas ‘damos como certo que a cada dia ocorre uma infinidade deles’ e que ‘somente uma parcela ínfima é recolhida e relatada às pressas pelos jornais; parcela ainda menor é projetada, depois de vencer uma corrida semelhante à da seleção natural, nas primeiras páginas’.

A responsabilidade editorial é, então, posta de cara à consideração dos leitores. Passado o tempo, que tudo consome, inclusive os editores, os repórteres, os redatores – e os leitores! – é possível avaliar se a primeira página espelhou corretamente o Brasil e o mundo no período.

Espelho retrovisor

Tomemos o exemplo do dia 24 de agosto de 1954. A manchete principal do jornal, então ainda com o nome antigo de Folha da Manhã, foi: ‘O PRESIDENTE CAFÉ FILHO ORGANIZA O NOVO GOVERNO’. A foto do vice que assumiria – no Brasil, é preciso lembrar, é frequente que o vice assuma – aparece à esquerda da manchete. Ocupando igualmente duas das oito colunas, a foto de Getúlio Vargas é de arquivo e logo abaixo lê-se: ‘a tragédia que emociona o Brasil’, abaixo do que vem a informação relevante: ‘SUICIDA-SE NO PALÁCIO DO CATETE O PRESIDENTE GETÚLIO VARGAS’. O jornal ainda destaca num cercadinho: ‘Escreveu um breve bilhete e matou-se com um tiro no coração – Os ultimos momentos do chefe do governo – Trasladação do corpo, hoje, para São Borja – A família dispensa honras oficiais’.

Não é preciso muito esforço de interpretação para ver que o jornal paulista espelhava na primeira página um contentamento por Getúlio Vargas deixar o governo, ainda que sob a tragédia do suicídio, o primeiro e único entre presidentes do Brasil. É informado ainda que não houve autópsia. E a última pessoa a falar com Vargas foi o mordomo, que se encarregou de transmitir também as últimas palavras do presidente dando conta de que ele, mordomo, se retirasse, que ele, presidente, queria dormir um pouco mais.

Naturalmente, esse estado de coisas deu matéria para lendas, versões, romances. Até hoje está disponível na internet o depoimento de Virgínia Lane, vedete do teatro, assegurando que saiu da cama de Getúlio, enxotada por um alta patente militar que a fez pular o muro e sair da confusão, e que já na rua ouviu o tiro. Três romances, entre outras narrativas, se basearam na tragédia: Agosto, de Rubem Fonseca; Getúlio, de Juremir Machado da Silva, e O homem que matou Getúlio Vargas, de Jô Soares.

Cada página desse livro dá matéria para muitas colunas. Cabe-me recomendar a leitura ou a consulta com grande entusiasmo. Que belo espelho retrovisor a Folha nos deu! E quanta controvérsia!

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Escritor, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, professor, pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa)

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