Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > ESTANTE

Quando a violência toma a forma de medo

04/10/2011 na edição 662
Narrativas do Medo – O jornalismo de sensações além do sensacionalismo, de Leticia Cantarela Matheus, 108pp., EditoraMauad, Rio de Janeiro, 2011; intertítulo do OI

[do release da editora]

Como a violência narrada na mídia toma a forma de medo, que se alastra por toda a sociedade? Com foco no discurso midiático e na dinâmica comunicacional em torno do medo – e não só pela via da “informação”, como pela dimensão do “sensível” –, Leticia Matheus estuda, neste livro, a narrativa do medo na mídia. Por meio de dois fatos policiais narrados em jornal, ela, sem o objetivo de detalhar os fatos em si, e sim, analisar o modo como são descritos e passados à população – e como a população os recebe e sente –, aprofunda-se no discurso midiático e suas repercussões.

O discurso do medo na mídia é o foco deste livro. Como um jornal narra e se posiciona diante de uma forte violência que abala a sociedade como um todo, destrói vidas e impregna de terror o dia-a-dia da população? Analisando duas coberturas policiais realizadas em 2003, Leticia Matheus estuda a narrativa do medo na mídia por meio das notícias então publicadas em O Globo, jornal, como ela diz, “em princípio não sensacionalista”. E chega à seguinte conclusão: “No decorrer das coberturas, o medo acabou transformado em protagonista.” Os casos por ela escolhidos – duas jovens feridas por balas perdidas (uma no metrô e outra em um campus universitário), tendo uma delas morrido e a outra ficado tetraplégica – não só tiveram grande repercussão, como as notícias sobre eles encadearam uma série de reações na população carioca que, mais uma vez, se viu refém do medo. O sentimento de insegurança se espalhou pela cidade e a sensação do medo funcionou como aquilo que interligava diferentes reportagens no fluxo do sensacional. Essas foram histórias diferentes ou, na verdade, exemplos distintos de um mesmo drama urbano? Como os dois acontecimentos foram lidos no contexto comunicacional do início dos anos 2000 no Rio de Janeiro? A autora responde a essas perguntas tendo como base não uma perspectiva sociológica acerca da violência criminal, mas sobre o discurso midiático e a dinâmica comunicacional em torno do medo, não só pela via da “informação”, como pela dimensão do “sensível”.

Constatando que o medo se transforma em protagonista nas reportagens policiais, a autora observa também que o acionamento das sensações é uma característica comum dessas narrativas. Por outro lado, segundo ela, o jornalismo não seria capaz de gerar autônoma e automaticamente o medo, sem que para isso houvesse condições simbólicas, construídas na longa duração da história. Discutindo ainda o que seria ou não sensacionalismo, ela não descarta a responsabilidade dos jornais na promoção do pânico, ao realimentar um ciclo de mútua estigmatização.

Sobre a autora

Leticia Cantarela Matheus é doutora e mestre em Comunicação pela Universidade Federal – UFF. Atualmente é professora no Centro Universitário Plínio Leite (Unipli-Anhanguera – Niterói, RJ) e, desde 2006, vem se dedicando à pesquisa na área de História da Comunicação. Foi repórter do jornal O Globo.

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