Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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ARMAZéM LITERáRIO >

Quando o repórter vira personagem

Por Ricardo Kotscho em 09/11/2010 na edição 615

Repórter só costuma virar notícia quando morre em acidente ou comete uma bobagem muito grande. Pois, desta vez, não se trata de uma coisa nem outra: no sábado (13/11), a Editora Tinta Negra, do Rio de Janeiro, lança na tradicional Feira do Livro de Porto Alegre o livro Lugar de Repórter ainda é na rua – O Jornalismo de Ricardo Kotscho, de Mauro Junior e José Roberto de Ponte.

‘Colocamos você como personagem de uma grande história’, escreveu-me Mauro Júnior no e-mail que mandou na sexta-feira 95/11) para comunicar o lançamento da obra, que ficou com 360 páginas e tem preço de capa de R$ 39,90.

Já vou logo avisando que não tenho nenhuma responsabilidade sobre o livro, uma iniciativa de dois jovens jornalistas que começaram a pesquisa quando ainda eram alunos da Universidade Santa Cecília (Unisanta), em Santos, para fazer seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), em 2002. Chegaram a imprimir alguns exemplares do trabalho por conta própria e, só mais recentemente, quando encontraram uma editora, retomaram as pesquisas e entrevistas.

Além de Porto Alegre, já estão marcados lançamentos do livro no Rio (Livraria Saraiva Shopping Rio Sul), dia 1/12; em São Paulo (Livraria Saraiva Vila Olímpia), dia 2/12; e, em Brasília (Livraria Saraiva Pátio Brasil), dia 8/12. No próximo ano, depois do Carnaval, o livro será lançado na Universidade Santa Cecília.

Equipe de um

Mauro Júnior começou sua carreira de repórter trabalhando em afiliadas da TV Globo e, desde 2008, integra a equipe de reportagem da Central Globo de Esportes, no Rio de Janeiro. Seu parceiro José Roberto de Ponte trabalha, desde 2005, na agência DM9DDB, em São Paulo.

Além de falar longamente comigo, em várias sessões, e entrevistar toda a família Kotscho, Mauro e José Roberto ouviram meus colegas de redação em diferentes épocas, publicitários, personalidades da cultura brasileira, políticos e formadores de opinião. Entre outros, Clóvis Rossi, Bóris Casoy, Raul Martins Bastos, Zuenir Ventura, Ancelmo Góis, Mino Carta, Ruy Castro, William Waack, o presidente Lula e o vice José Alencar.

‘Os jornalistas Mauro Junior e José Roberto de Ponte se debruçaram sobre os bastidores do jornalismo brasileiro, tendo Ricardo Kotscho como personagem central e produziram uma reportagem minuciosa em que o jornalista é a própria notícia’, informa o release distribuído pela editora. ‘Considerado por vários colegas de profissão o melhor repórter das últimas décadas, Kotscho é reconhecido pelas importantes reportagens que produziu e pela difusão do lema lugar de repórter é na rua.’

Segundo os autores, ‘o livro traça um perfil biográfico de Ricardo Kotscho, numa linha do tempo preenchida com fatos e eventos históricos marcantes transformados pelo jornalista em reportagens detalhadas e focadas na experiência de personagens. O leitor terá a oportunidade de conhecer os bastidores e as mudanças das redações, desde a decáda de 60 até hoje, e compreender como e por que Kotscho sempre perseguiu um jornalismo imparcial e humano’.

Eu sei que é chato falar da gente. Mas, como na minha equipe do blog só tem eu mesmo, não encontrei outro jeito de contar esta novidade para vocês.

Prova viva

E, por falar em repórteres, é imperdível a edição de outubro da revista Imprensa, comandada pelo meu velho amigo Sinval de Itacarambi Leão. Ali o leitor vai encontrar as histórias de vida de dois profissionais exemplares que confirmam minha velha definição do ofício, segundo a qual ‘lugar de repórter é na rua’ (advertência que ouvia do motorista Sebastião Ferreira, o Ferreirinha, quando me via lendo jornal ou coçando o saco na redação da Folha).

Numa época em que repórter, com raras e honrosas exceções, não suja mais os sapatos nem corre o risco de desmanchar os cabelos, preferindo o conforto das redações, vale a pena ler os perfis da jovem baiana Fernanda Santos, única jornalista brasileira na redação do New York Times, e do veterano mestre gaúcho Paulo Totti, do jornal Valor. Os dois continuam pegando sol e chuva, dependendo do tempo.

Aos 72 anos, com 58 anos de reportagem no lombo, Totti já passou por praticamente todas as redações, ganhou todos os prêmios (o mais recente foi o Esso de Jornalismo de 2007), trabalhou em diferentes países como correspondente, mas mesmo quando ocupou cargos de chefia e direção nunca deixou de ser repórter – e caçar matéria na rua. Como se pode imaginar, sua história é longa – e foi muito bem contada pela repórter Karina Pardial.

Igor Ribeiro, o editor-executivo de Imprensa, foi a Nova York mostrar um dia rotineiro de trabalho nas ruas do Queens acompanhando a repórter Fernanda Santos, e conta sua trajetória desde que chegou aos Estados Unidos, com uma bolsa de estudos, até conseguir sua vaga na redação do principal jornal do mundo.

Fernanda é uma prova de que ainda se fazem repórteres como os Totti de antigamente. 

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Racismo regional

Na primeira semana pós-eleição, além das especulações sobre os ministeriáveis do governo de Dilma Rousseff e dos rumos da oposição, o assunto dominante no noticiário foram as manifestações de racismo regional, uma praga que ressurgiu durante a campanha e ganhou força no final do segundo turno embalada no discurso fundamentalista da oposição.

A partir de uma estupidez contra os nordestinos escrita no twitter por Mayara Petruso, jovem estudante de Direito das Faculdades Metropolitanas Unidas, de São Paulo, uma guerra de mensagens carregadas de preconceitos e fobias invadiu a internet. Em vez de acalmar os ânimos, parece que o resultado eleitoral resultante de uma campanha suja e retrógada, deixou sequelas perigosas para o convívio dos brasileiros. Tomara que esta onda passe logo.

Fim melancólico

Antes que a semana chegasse ao final, o candidato derrotado José Serra apareceu num seminário em Biarritz, no sul da França, para descer a lenha no presidente Lula e no governo brasileiro, acusados de populismo e de se unir a ditaduras, até tomar pela cara um ‘por qué no te callas?’, disparado por um mexicano da Fundação Zapata.

Parece ser o melancólico fim de carreira de uma das grandes esperanças da esquerda brasileira nos anos 60, que acabou se transformando ao longo da última campanha presidencial numa liderança da versão tupiniquim do Tea Party, o movimento de ultradireita que fez furor nas eleições americanas desta semana.

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Jornalista

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