Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > CAIXA DE PANDORA

Quem perdoa a mídia do DF nos 50 anos de Brasília?

Por Marcos Linhares em 19/01/2010 na edição 573

Em 21 de abril, Brasília chegará aos seus 50 anos de fundação e o que vemos? Uma crise sem precedentes na história política da cidade – o mensalão do DEM-DF – sendo coberta pela mídia impressa como se fosse Diário Oficial do governador do Distrito Federal, o eterno chorão José Roberto Arruda (sem partido) e do vice, o onipresente Paulo Octavio.

Tenho escrito sobre a cobertura dos jornais da cidade a respeito da operação Caixa de Pandora e como os textos são, no mínimo, muito gentis para com os envolvidos, de acordo com a necessidade. Tudo leva a crer que a mídia impressa local está em plena campanha de defesa do governador, de seu vice, dos secretários e dos empresários citados nas investigações. Se isso for verdade, 2010 será um ano para ser estudado nos bancos escolares como um belo case de como ser tendencioso e andar de mãos dadas com o poder. Esse seria um belo tema para seminários nas faculdades e universidades, de graduação a pós-graduação, dos cursos de jornalismo e marketing, sobre como ‘não fazer bom jornalismo’, ou seja, como não atacar, aceitar tudo que ditam, e publicar algo apenas quando não houver jeito.

Um ‘diário oficial’

O Jornal de Brasília, por exemplo, publicou uma capa no dia 31/12/2009 que merece destaque, estudo e reflexão. Já na manchete, a mensagem: ‘Meus adversários armaram uma cilada’. Essa frase vem acompanhada por uma foto mostrando o governador com uma expressão de dar dó: combalido, triste, atingido no peito, digno de expiação. Na matéria, Arruda diz que tudo foi armação dos inimigos políticos. Seria uma bela peça publicitária, uma bela peça de marketing planejado por especialistas em crise de imagem, se não fosse por dois aspectos: trata-se da capa, ou seja, da matéria principal de um jornal com muitos anos de existência, que deveria ter compromisso e respeito para com seus leitores e, ainda, o amplo material gravado, com imagens, sons, documentos e o processo apurado pela Polícia Federal e instaurado no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Não satisfeito, o mesmo periódico, no dia 05/01/2010, trouxe nova pérola. Dessa vez, a imagem de Arruda estrategicamente em estilo despojado, vestindo calça jeans e camisa esporte para fora da calça, em ação, visitando canteiro de obras, novamente com cara de abatido. A mensagem: apesar de tudo, ele continua trabalhando, tocando obras. A manchete traz novas aspas do ‘pobre e injustiçado’ governador: ‘Quem fez as armadilhas vai acabar caindo nelas.’

Na matéria, Arruda continua sua campanha contra o ‘traidor’ Durval e a conspiração supostamente articulada pelo ex-governador, Joaquim Roriz (PSC). A edição da matéria foi cuidadosa, afinal a manchete poderia parecer uma ameaça, mas no texto haveria que se garantir que não. Um trecho: ‘Sem tom de ameaça, mas bem objetivo na observação, o aviso tinha endereço certo: seu ex-secretário de Relações Institucionais, Durval Barbosa, pivô do suposto esquema de caixa dois. A indicação pode ser estendida também para seu adversário político, o ex-governador Joaquim Roriz (PSC). Diariamente a equipe de governo de Arruda trabalha para manter a governabilidade e impedir que haja qualquer atraso no cronograma de obras e objetivos de gestão, traçados ainda durante a campanha eleitoral. `Nesse momento de crise tenho dormido pouco´, confessou Arruda, angustiado por ter de atuar em duas frentes – primeira, a administrativa e a segunda, no trabalho de provar sua inocência das acusações que lhe são imputadas.’

Não era nota oficial do governo do Distrito Federal, era matéria mesmo, acredite.

O homem do dinheiro nas meias

Já o Correio Braziliense, no dia 08/01/2010, não deixou por menos. Ao cobrir um evento em que Arruda compareceu e fez novo discurso, o periódico publicou as preciosidades ditas pelo governador sem o menor contraditório. A edição da matéria foi novamente digna de registro. O título da matéria parece mais uma piada de algum jornal das Organizações Tabajara: ‘Arruda pede perdão por seus pecados’. O sutiã é melhor ainda e traduz a intenção da matéria: ‘Governador admite que deve ter cometido erros e afirma já haver desculpado todos os que o insultaram após o deflagrar da crise’.

A matéria traz a defesa religiosa usada pelo político pecador contumaz que vive se arrependendo dos pecados, e pedindo perdão. ‘Arruda disse ontem que perdoa todos os que o criticaram, como forma de também ser perdoado por todos os seus pecados.’ Que frase maravilhosa! No mesmo texto, Arruda admite ter cometido erros. E se cometeu erros, não é santo. E mesmo assim, tem a desfaçatez de dizer que perdoa a todos os que o criticaram para ser também perdoado. No mesmo texto, outra informação salta aos olhos: a repórter repetiu duas vezes que ‘foi um discurso de 25 minutos e 31 segundos’. Fantástico. A precisão com que se salientou a duração do discurso. Talvez deva haver alguma ligação numerológica para tamanha precisão e relevância dos segundos.

Na coluna ‘Lido, Visto e Ouvido’, de Ari Cunha, uma nota chama a atenção: ‘(…) Pelo sorriso de Arruda depois da Operação Pandora e perdões, há cartas na manga. Paulo Octávio olha para o relógio entre o tempo e as horas.’ E assim caminha a impunidade.

Quanto à OAB-DF, afirmei em texto recente recear pelas medidas do novo presidente eleito da instituição, Francisco Caputo, já que o escritório dele tem defendido Arruda há muitos anos. E o que aconteceu? Estranhamente, por alguns dias, as notícias sobre a Caixa de Pandora sumiram do site da OAB-DF. Depois quando o site voltou ao ar, Caputo soltou todos os cartuchos contra o homem do dinheiro nas meias, o deputado e presidente da Câmara Legislativa do DF, Leonardo Prudente (sem partido). Conveniente, não? Felizmente, dessa vez a mídia local registrou o estranho sumiço das notícias que voltaram a aparecer no site. Nem tudo parece estar perdido.

Uma nódoa difícil de engolir

Tudo isso fez-me lembrar de trecho de uma crônica do saudoso jornalista, escritor e professor Austregésilo de Ataíde, publicada na Folha de S.Paulo em 28 de agosto de 1963. No texto, Ataíde fala sobre o capital que temos para gastar com Deus. Ele afirmava ter gasto o dele. ‘Meu capital não era tão grande como pensava e eu gastei muito e depressa. Como o filho pródigo, fui impaciente de gozos e me atirei a gozar a fundo. Um dia, amanheci pobre e nu, disputando com os porcos os restos de comida que sobravam, da mesa dos mais prudentes.

Há homens que usam Deus a conta-gotas, quando viajam de avião, quando caem os raios, quando os parentes morrem. Guardam avaramente a herança: às vezes chegam a morrer ricos, pois o capital rende juros. Não foi esse o meu caso. Tive pouco e esbanjei muito. O capital acabou e não tive pena nem cólera de ter gastado tanto e por tão pouco.’ Parece que Arruda está ‘queimando’ os resíduos de gordura que havia reservado para ir ao céu, desde que mentiu copiosamente e pediu perdão no episódio do painel.

Retorno ao início deste texto. Brasília, 50 anos. Contudo, parece que a mídia que presenteia a cidade com uma cobertura continua sendo feita pelos veículos de fora. Folha, Estadão, O Globo continuam a estampar diariamente matérias corretas com desdobramento sobre os escândalos, novos envolvidos, novas abordagens e questionamentos necessários. Na capa do Estadão de 11/01, por exemplo, a manchete diz tudo: ‘Investigação liga vice de Arruda a rombo de R$ 27 mi.’ E o sutiã também: ‘Ministério Público entrou com cinco denúncias na Justiça Federal contra construtoras de Paulo Octávio’.

Isso é bom jornalismo. Não se calar. Continuar apurando. A corrupção não pode vencer sempre. Temos um papel social a cumprir, que não pode ser pura e simplesmente de entreguismo. Mario Covas já dizia: ‘A corrupção na administração pública agora é organizada, quase partidarizada. Uma barbaridade inaceitável.’ Resistir é necessário, pois o custo da vergonha dos panetones será uma nódoa difícil de lavar e de engolir.

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Jornalista, escritor, diretor de redação da revista Fale!Brasília

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