Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ARMAZéM LITERáRIO > MÍDIA & VIOLÊNCIA

Quem quer ser criança ponha o dedo aqui

Por Thalita Pacini em 06/05/2008 na edição 484

É chegada a época das verborrágicas propagandas eleitorais que interrompem a divertida programação infantil. É o festival de baboseiras e engana-bobo novamente. Inédito seria algum ser iluminado na política se comprometer a turbinar a Educação, propondo obrigatoriedade de uma disciplina, em toda e qualquer área do ensino, que pudesse salvar milhares de vidas. Mas a idéia parece inviável, ameaçando o atual e desimpedido exercício da negligência ao ser humano. Eu faço campanha para o dito cujo com meus textos, com prazer e de graça!

Por que ninguém propõe e instaura a difusão dos direitos e deveres das crianças e dos adolescentes no ensino fundamental, no ensino médio, nas salas de aulas das faculdades de todo o Brasil, como fator fundamental para promoção e com freqüência obrigatória? O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) nos planos de ensino. Medida que ouso julgar simples e muito útil.

Se os dirigentes desejassem mesmo salvar as crianças de atrocidades, minimizar as diferenças sociais, como medida de proteção para a infância contra a ignorância da sua própria condição de pessoa. Se as crianças aprendessem sobre seus direitos e deveres, mesmo que de maneira superficial, poderiam se proteger e crescer com mais discernimento, tornando-se adultos ativos. Choveriam denúncias importantes como apelos à vida, responsáveis – bem intencionados evitariam deslizes e mal intencionados seriam descobertos.

Ignorância ou medo

Mas a preferência é pelo sistema educacional moldado em formato de guilhotina. Muitas crianças são apenas números na chamada, tentando decorar sem entender indigestas fórmulas conceituais para distrair o urro do estômago ou suas incalculáveis manifestações naturais julgadas como inoportunas. Quanto menos freqüência o aluno tiver, menos gasto e ‘encheção de saco’ o funcionalismo público tem.

Devaneio propor que dêem ao povo o que é do povo: educação sobre o que ele pode e deve cobrar no seu país. Mas como é mais interessante uma geração de submissos! Se der subsídios aos pequenos, se tornarão grandes demais, não é mesmo? Construirão bases muito sólidas para a tirania tombar. E não se sabe se, graças a isso ou se porque merece isso, mas como o povo também é hipócrita…

O assunto do momento é a morte da menina Isabella Nardoni, de 5 anos, que foi espancada e atirada do sexto andar de um prédio. Crime chocante que revolta pela delicadeza da vítima, pela sua impotência, sua inocência e pela galinácea covardia do assassino. Assim como milhares de outras perversidades e abusos que não temos estampados nos noticiários, que ocorrem no silêncio da vítima, no silêncio dos lares, das ruas, sob o comando de alguém que se julga detentor de poder.

Mas será que é preciso chegar ao extremo para que haja revolta? Porque muitos dos que protestam e culpam qualquer suspeito, têm em casa os próprios filhos do descaso, aplicam-lhes castigos físicos ou psicológicos. Calam, ora por ignorância ora por medo, quando têm a oportunidade de denunciar, fazer cessar ou evitar um crime. Abstêm-se de envolvimento quando desconfiam de algo ou sequer têm algum referencial sobre o que se pode classificar como maus-tratos.

Várias formas de violência

O povo tem que aprender que criança tem prioridade em tudo, que não é justo fingir que dorme e que não viu uma mãe e sua criança de colo, em pé no ônibus sacolejante, que deveria sentar-se onde você descansa as nádegas. Que aquele contexto, do ônibus em velocidade e movimento, pode ser extremamente perigoso para a integridade física e por isso são passageiros especiais. Isso também é violência.

Outro dia, um cobrador não permitiu que uma mãe descesse pela porta dianteira da condução com um recém-nascido em seu colo, explicando que ela deveria passar por entre uma densa e acotovelante multidão num estreito corredor até a porta traseira, pois eram novas normas da empresa de ônibus. Alguém teve que fazer o papel de cidadã desbocada e funcionou. Chame a polícia, oras! Mas houve cara feia generalizada, porque barulho atrapalha o sono, não é? Mas quem consegue dormir com esse barulho não merece cidadania. Vá viver no mato. Pior ainda é que o povo não sabe até onde pode reclamar.

Violência também é uma ‘tia’ ou um inspetor chamar um aluno de burro, ridicularizar, excluir, ignorar, assim como tantas outras mais refinadas atrocidades pedagógicas. É um profissional identificar sinais de espancamento em uma criança e não denunciar por medo de manchar a carreira ou porque a direção da instituição também não quer problemas para a sua pessoa jurídica. E todos se tornam cúmplices. É um juiz da Vara de Família proteger um pai que espalha uma porção de filhos por aí e se nega a pagar pensão ou ainda, na atual situação econômica e alta dos alimentos, diminui ainda mais os 50 reais de pensão alimentícia, diante do corpo mole do pagador, para o sustento das necessidades básicas do próprio filho. É uma das muitas juízas diplomadas, concursadas e bem pagas, dizer que no Direito não se discute moral, diante dos protestos de uma progenitora, ainda que o objetivo seja preservar uma criança.

Maldade humana

Também não deixa de ser violência o acesso das crianças às músicas ou programas agressivos ou de conotação sexual. É um estupro à inocência, ao intelecto e à moral. Desviar verba pública, que beneficiaria crianças, é uma barbárie. Somos tão responsáveis pelo mal que fazemos, como pelo bem que deixamos de fazer.

Há pouco tempo eu pensava no quanto gostaria de ser criança outra vez, para sempre. Simples assim, regredir e permanecer na infância. Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Tenho medo dos padres, dos pop stars e dos ladrões, desconfio das ‘tias’ da merenda, tenho receio de tomar leite adulterado, comer tomate com sal e agrotóxico. Duvido dos médicos negligentes e comerciantes de remédio, abomino o trabalho infantil. Tenho medo da dor de apanhar. Da tristeza de não me quererem no colo. Tenho medo de dormir sem mosquiteiro.

Tenho vergonha de um ou outro professor frustrado, tenho pavor das brigas em família, tenho medo de ser invisível no ônibus, lotado, do desemprego. Pavor do terreno escuro cheio de lixo, sangue e mato que a prefeitura não cercou. De gente que dirige embriagada. Pânico de me perder no shopping e alguém me devolver sem algum órgão. Dos desviados que não conseguem sexo com gente grande e forçam gente pequena, tenho medo de saber menos ainda o que sei hoje para me defender da maldade humana e da falta de atitude dos dirigentes do meu país.

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Formada em Letras, São Paulo, SP

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