Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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ARMAZéM LITERáRIO >

Reflexões sobre um jornalista mentiroso

Por Rodolfo Stancki em 09/11/2010 na edição 615

Michael Finkel mentiu. Sabemos disso antes de chegarmos às primeiras linhas de A história verdadeira pois o fato é apresentado por Sérgio Dávila na orelha da obra. Depois de passar uma semana investigando uma história furada sobre escravidão na África a mando do New York Times Magazine em 2001, Finkel voltou para os Estados Unidos com uma pauta que considerava perfeita. Seu texto iria desmascarar uma série de falácias sobre escravidão infantil que circulavam em outros veículos.

Seu problema começa quando chega à redação com o texto na cabeça e recebe a ordem de reestruturar a reportagem focando-se em um único personagem. Sem muita escolha, ele compila características de diversos entrevistados em um só e publica sua história. Para quem não sabe, isso é mentir – um pecado imperdoável na prática jornalística.

Finkel, desolado e enfrentando o desemprego ocasionado por sua ação, acabou encontrando redenção em um crime muito pior que o seu. Prestes a ser difamado publicamente por sua mentira duas semanas depois da publicação de seu texto sobre escravidão, o jornalista recebe um telefonema. Era alguém informando que um homem acusado de assassinar a família havia sido preso no México atendendo pelo nome de Michael Finkel – repórter do New York Times Magazine.

A armadilha em que Finkel caiu

Essa premissa altamente instigante é o que movimenta o livro-reportagem A história verdadeira, de autoria do próprio Finkel. A partir do momento em que recebe o telefonema, o jornalista decide investigar o crime e começa uma amizade com o acusado, cujo nome verdadeiro é Christian Longo. Como sabemos pouco do caso – mas com ciência de que se trata de um fato verídico – nos envolvemos rapidamente com a narrativa do jornalista. Focando em sua própria trajetória de jornalista investigativo, Finkel intercala sua história com a dos erros sucessivos praticados por Longo criando uma narrativa poderosa, impactante e – muitas vezes – estranha.

Como parte de um enorme acaso (que Gay Talese costuma chamar de ‘serendipitar’), Longo rapidamente se mostra um personagem cujas principais características estão no fato de ser cativante e ardiloso. A mentira do jornalista acaba refletindo nas mentiras contadas pelo suposto assassino. Conforme a relação dos dois se torna mais íntima, Finkel precisa estar mais atento ao que pode confiar que seja verdadeiro ou não no relato de seu personagem. Pois, por mais que estejam próximos, o jornalista tem consciência de que vai se aproveitar da história – buscando um retorno glorioso ao mercado que o expulsou.

Em sua investigação, Michael Finkel sabe que é um jornalista mentiroso contando uma história verdadeira sobre um personagem mentiroso. E é essa dinâmica que pauta parte do cuidado tomado pelo autor durante as extensas conversas semanais que manteve com Longo (enquanto este aguardava pelo julgamento). No processo, observamos como a sinceridade se tornou um elemento essencial. E a armadilha em que Finkel acabou caindo (admitindo ao leitor) é a de que também serviu ao interesse de Longo. Em suas conversas com o jornalista, o prisioneiro confessava mentiras e as testava, tentando entender até que ponto elas podiam ser críveis em um julgamento. Ou seja, Michael Finkel acabou ajudando Christian Logo a reinventar sua própria história – não que isso tenha feito alguma diferença na sentença final do júri.

Autor não esperou Longo morrer

Os conflitos éticos da obra reforçam uma mensagem moral para a própria prática profissional jornalística – que é fundamental para quem está começando na área. Um bom jornalista não pode mentir e precisa evitar se envolver demais com seus personagens. São ideais que podem soar românticos, mas que não podem abandonar nossa prática. Afinal, além de existirem manipulações de informações muito menos justificáveis que as de Finkel em nossa imprensa, também assumimos facilmente versões de grandes crimes, como os da menina Nardoni em 2007, por exemplo. Justamente por isso é que A História Verdadeira é um livro é tão valioso, pois nos colocamos no lugar do autor e nos solidarizamos com sua situação. Será que não faríamos as mesmas escolhas de Michael Finkel se estivéssemos em seu lugar?

Embora tenha conseguido encontrar uma salvação – que rendeu o excelente livro –, o processo se mostrou extremamente desgastante ao jornalista. O que provoca um eco do processo de finalização de A Sangue Frio, de autoria de Truman Capote (cristalizado pelos filmes Capote, de 2005, e Confidencial, de 2006). Mas, para nossa sorte, ao contrário do que fez Capote, o ex-jornalista do New York Times Magazine não esperou Longo morrer para publicar sua obra. Isso porque o condenado está preso em Oregon aguardando a pena de morte até hoje.

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Jornalista, Curitiba, PR

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