Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > LUSÓFONOS & LUSOFONIA

Resposta a um leitor

Por Deonisio da Silva em 14/08/2007 na edição 446

O leitor Carlos Ferreira (empresário, Göteborg, Suécia), a quem agradeço pela atenção dada a um artigo meu neste Observatório (‘Língua portuguesa, ainda sem acordo‘), transcreveu opiniões de outros como se fossem minhas, como no caso da percentagem das alterações na escrita de algumas palavras [ver aqui].

Escrevi o seguinte: ‘Macaqueando o modelo americano, que tudo quantifica, já surgiram cálculos, não se sabe bem apoiados em quê, dando conta de que a nova gramática vai alterar 1,6% do vocabulário luso e 0,5% do brasileiro’. O que escrevi é muito diferente do que me é atribuído como ‘imprecisão ou incorreção’. No caso, foi imprecisa ou incorreta a transcrição. Deduzir que endosso a concepção ou o cálculo é erro de leitura.

Ele escreve também que ‘o Acordo não realiza nem pretendeu realizar a unificação, apenas suprime algumas diferenças ortográficas’. Se o Acordo suprime diferenças, não pretende unificar? Qual é, então, o objetivo de suprimir as diferenças? É separar? Por que foram propostas?

Reitero que TODOS os dicionários são insuficientes para escritores de prosa de ficção. Isso pode ser comprovado com romancistas, contistas, poetas. Construímos diversas figuras de linguagem a partir de palavras vivas, muitas das quais ainda não registradas nos dicionários, de que é exemplo a palavra composta ‘seqüestro-relâmpago’, designando, no Brasil, assalto sofrido todos os dias, já não apenas nas grandes cidades, mas também em qualquer vila onde haja agência bancária. Sei que os jornalistas também encontram dificuldades semelhantes, ainda que em menor grau.

Boca do povo

Ele escreve ainda: ‘Acresce que a criação vocabular e fraseológica nunca se detém, sendo mesmo de crer que a maior parte dessa criação, ao menos a duradoura, não provém sequer dos tais ficcionistas’.

De acordo, em parte, já que a língua é alterada por outros que não são ficcionistas, mas as alterações são duradouras justamente porque foram recolhidas ou inventadas pelos ‘tais ficcionistas’. Basta ver a fonte de abonações dos dicionários para grafias, sintaxes, versões etc. O Aurélio, por exemplo, para explicar o significado da gíria lusitana ‘magala’, abona-a assim: ‘Um malandro, que vinha de púrria com seis magalas’ (Vergílio Ferreira, Manhã Submersa, p. 14).

Quanto ao erro que apontei no dicionário Houaiss, a propósito da origem etimológica de ‘urucubaca’, a desculpa do leitor não pode ser sustentada. Tão rigoroso com um simples artigo deste escritor, releva o que os redatores escrevem no verbete urucubaca: ‘JM relata que Bueno afirma ser o voc. da época da gripe espanhola (1918), quando era muito utilizado’. E acrescenta: ‘O único a afirmar é o Bueno, só ele poderia ser acusado de laborar em erro de datação’.

Não, não é isso que esperamos dos que fazem dicionários. Eles precisam conferir. E, no caso, nem sequer foram consultar o Grande Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa (oito volumes), publicado em 1968, da autoria de Francisco da Silveira Bueno, então catedrático de Filologia Portuguesa da Universidade de São Paulo. Catedráticos também erram, já que errar é humano. E assim até o eminente professor Silveira Bueno omitiu que a palavra ‘urucubaca’ deveria estar na boca do povo há muito tempo, pois fora registrada pelo compositor popular quatro anos antes da gripe espanhola. E os redatores do Houaiss, tão cuidadosos em tantos outros verbetes, neste foram negligentes.

Recortes de jornais

Escrevi: ‘Uma simples mesa-redonda com alguns escritores de criação poderia diluir certas travessuras de doutos professores que insistem em reiterar que não é preciso estudar a gramática da língua portuguesa’. Ao criticar esta sugestão que fiz, o leitor diz ser esta ‘uma frase de efeito’.

Não quis me referir a modalidades da nossa língua portuguesa, mas ao fato de doutos professores sancionarem qualquer coisa, escreverem qualquer coisa e, pagos pelo Estado, traírem o contratante e os alunos, ao ensinarem que não é preciso estudar gramática.

Alguns desses doutos dispensam o aprendizado da norma culta, como se fosse possível aprender sem ela! Como, se a figura solar do bom ensino é o livro? Se o livro não é necessário, eles deveriam advogar também que o governo brasileiro, o maior comprador individual de livros no mundo, suspendesse as licitações. O modo de ensiná-la aos alunos depende da criatividade dos professores, é claro, mas dispensar este ensino é trair os discípulos.

Repilo com veemência sua afirmação final de que ‘sobra demagogia ou quando menos leviandade para com o leitor’. Provavelmente ele desconhece meu trabalho de escritor e professor empenhado em pesquisar e ensinar a língua portuguesa, desde a juventude – tendo inclusive ‘perdido’ alguns anos na alfabetização de agricultores pobres.

Ainda que em desacordo, agradeço-lhe os comentários, certo de que ‘não se chuta cachorro morto’. Com efeito, o tema do acordo ortográfico é relevante e pertinente. E não é a primeira vez que meus artigos sobre língua portuguesa provocam discussão. Talvez isso se deva ao fato de ser jardineiro, como escritor, e botânico, como professor, à semelhança de outros escritores, entretanto menos dispostos a escrever sobre tema tão instigante.

Por fim, não cito nomes porque meu propósito não é combater pessoas, muito menos colegas, mas chamar a atenção para um sério problema que se agravou no Brasil: há professores que enganam os alunos, dispensando-os da relação bunda-cadeira-hora e da leitura de textos fundamentais de nossas letras. Assim procedendo, limitam seu universo de leitura a recortes de jornais, onde, aliás, a língua portuguesa é maltratada todos os dias. Os alunos ficam muito pouco na escola, lêem pouco e ainda são vítimas de mestres que os dispensam de estudar.

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