Domingo, 25 de Junho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº946

ARMAZéM LITERáRIO > MÍDIA E GLOBALIZAÇÃO

Retrato do poder midiático

Por Eduardo Maretti em 19/06/2007 na edição 438

O livro Midiático poder – o caso Venezuela e a guerrilha informativa, de Renato Rovai, aborda uma temática tão atual quanto preocupante, e bem definida na página de apresentação: a ‘concentração dos meios de informação em um número cada vez menor de grupos empresariais’ e a ‘a partidarização de grupos midiáticos e o seu envolvimento com golpes de fundo político’. Objetivamente, o tema é a tentativa de golpe que atingiu o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em abril de 2002.

Mas a realidade é outra em relação aos golpes de Estado com os quais a América Latina conviveu no século 20: no caso venezuelano, as elites já não se valem de um poder, por assim dizer físico (militar), para ‘derrubar a Bastilha’; utiliza-se do poder virtual dos meios de comunicação eletrônicos. A televisão substitui os tanques.

Na Venezuela de 2002, a rede Univisión, de Gustavo Cisneros, era a mais poderosa – mas, claro, não a única – voz praticante de um ‘estilo’ de jornalismo nada democrático: ‘O discurso dos meios é unificado por um instrumento de padronização da cobertura, conhecido pelos venezuelanos como una sola voz‘. Por esse padrão de jornalismo, os cidadãos vêem, ouvem e lêem, em todos os canais de TV comercial, rádio e grandes jornais, apenas uma versão dos fatos.

‘Guerrilha informativa’

Um dos emblemas dessa passagem é o famoso caso da Ponte Laguno. Pela telinha, os venezuelanos assistem às chocantes imagens do dia 11 de abril de 2002, quando parcela da população anti-Chávez vai às ruas incentivada pelas redes RCTV, Venevisión e Globovisión.

A televisão mostra os apoiadores de Chávez na ponte, situada sobre a avenida Baralt, supostamente atirando contra a marcha de oposição. Versão posteriormente desmentida por um vídeo da Associação Nacional dos Meios Comunitários Livres:

‘A deformação informativa foi realizada sem pudores e da seguinte forma: como os manifestantes pró-Chávez estavam sobre a ponte, acima da avenida Baralt, um dos acessos ao palácio presidencial de Miraflores, e atiravam para baixo, seus disparos pareciam dirigir-se contra a marcha. (…) De fato, atiravam em direção à avenida. (…) Mas o que depois ficou comprovado por vídeos comunitários é que ‘franco-atiradores estavam posicionados em um hotel de nome Eden, em frente à ponte Laguno, na avenida Baralt. A manifestação da oposição, aparentemente vítima das balas chavistas, sequer estava nessa avenida. Esses ‘franco-atiradores atacavam os chavistas a tiros. As TVs filmaram apenas a resposta dos chavistas. Pareceu aos venezuelanos e ao mundo que eram os tiros da resposta que matavam.’

A passagem é paradigmática das táticas do chamado poder midiático, do qual o caso venezuelano, por sua vez, é também um paradigma. O golpe de 2002 na Venezuela não vingou, entre outros motivos, graças à reação popular apoiada por algo de que os golpistas se esqueceram ou cujo alcance subestimaram: a internet, que ajudou a mobilizar a população e informar ao resto do mundo sobre o que se passava no país (daí o subtítulo do livro, ‘a guerrilha informativa’).

Respaldo constitucional

No Brasil, o discurso único, embora menos virulento, é também uma realidade, como se pôde observar na cobertura das últimas eleições no país, quando a liberdade de imprensa e sua suposta imparcialidade justificaram a tal una sola voz por aqui. No caso da decadente revista Veja, ‘a cobertura [da Venezuela, em abril de 2002] beirava a comemoração. A edição n° 1.747 chegou às bancas no domingo pela manhã anunciando ‘a queda do presidente fanfarrão’’, exemplifica Rovai no livro. Outro exemplo: o do analista Arnaldo Jabor, que exultava no Jornal Nacional: ‘Eu ia dizer que a América Latina estava se ‘rebananizando’, com o Hugo Chávez (…) Por isso, acho boa a notícia da queda de Chávez. Acordamos mais fortes hoje e eu já posso ‘desbananizar’ a América Latina’, proferiu Jabor, com seu discurso egocêntrico, barroco e vazio. Para ele, como para o ‘poder midiático’ brasileiro, o fato de que estava sendo derrubado um governo democraticamente eleito era apenas um detalhe, sequer digno de nota.

Rovai, no livro, poderia ter relativizado a figura de Hugo Chávez, um líder inegavelmente importante na América Latina de hoje, mas que a maioria da esquerda brasileira tende a mitificar. Isso pode levar a uma visão maniqueísta (e portanto, pelo avesso, também parcial) se a análise é estritamente política, o que, de resto, não chega a ser o caso de Midiático Poder, porque seu objeto de análise é a mídia, e não a figura de Chávez ou apenas a conjuntura política venezuelana de então. Como se reporta a 1989, o livro registra o movimento liderado pelo próprio Chávez contra o governo de Carlos Andrés Pérez em 1992, que a esquerda caracteriza como ‘um movimento cívico com grande apoio popular’ e a direita como um ‘golpe’, simplesmente.

A obra é oportuna nestes dias de debate sobre a não-renovação da concessão da RCTV por Hugo Chávez. Um ato que muitos, em nome da sagrada ‘liberdade de imprensa’, contestam, mas para o qual Chávez tem respaldo constitucional e legitimidade política.

Obstáculo ao discurso único

Ao ler Midiático Poder, vem à mente o cineasta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975). Num texto escrito para o Corriere della Sera, nos idos de 1973, ele dizia, ao abordar a massificação e a padronização do pensamento e da cultura:

‘A responsabilidade da televisão em tudo isso é enorme. Não enquanto meio ‘técnico’, mas enquanto instrumento de poder e poder ela própria. (…) É no espírito da televisão que se manifesta concretamente o espírito do novo poder. (…) O fascismo, no fundo, não foi capaz nem de arranhar a alma do povo italiano: o novo fascismo, através dos novos meios de comunicação e informação (especialmente a televisão) não só a arranhou, mas a dilacerou, violentou, contaminou para sempre.’ (Os jovens infelizes – antologia de ensaios corsários, Editora Brasiliense, 1990.)

A mente visionária do diretor de Mama Roma (1963) não previu, porém, o advento da internet. Quem poderia prever, quatro décadas atrás? ‘Em 2007, já é impossível contabilizar o raio de ação dos sites e blogs que existem para dar versões diferentes das que divulga a maior parte dos meios de comunicação’, anota Rovai.

Veículos informativos individuais (blogs), agências de notícias e sites existem ‘sem uma ação centralizada, vertical ou mesmo organizada’ e essa vitalidade, ao menos, dificulta a consolidação irrevogável do chamado discurso único.

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Jornalista, São Paulo, SP

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