Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Retratos do Brasil

Por Regiane Santos em 15/09/2009 na edição 555

Embora Zeca, personagem interpretado pelo belo e talentoso Duda Nagle em Caminho das Índias, fosse coadjuvante, o jovem ator atraiu atentos olhares de formadores de opinião para a tradicional novela das oito exibida pela Rede Globo de Televisão que terminou na noite da última sexta-feira [11/9].

O pityboy (termo utilizado para denominar jovens violentos residentes na zona sul do Rio de Janeiro) teve um final digno de uma trama global, quando foi condenado pela Justiça a prestar serviços à comunidade após atropelar, propositalmente, a grávida Duda, personagem que ganhou vida através da atriz Tânia Khallil.

Em sua última aparição na novela, Zeca arrepende-se dos vários atos infracionais dolosos cometidos ao longo das centenas de capítulos. Com um comedido sorriso estampado em um semblante sóbrio, o ex-pitboy conta singelas histórias a inocentes crianças em uma fundação. Como tradicionalmente direciona suas obras de ficção, a escritora Glória Perez conduziu o personagem ao final feliz, típico desfecho adotado por autores que destinam suas criações à massa. Apesar de tal situação ser almejada pelos simples e mortais telespectadores, ávidos por depararem com a felicidade na próxima esquina de suas vidas, finais felizes raramente protagonizam as histórias da vida real.

Cicatrizes permanentes

Os pitboys, gênero evolutivo do playboy (personagens cuja aparição alcançou seu ápice na década de 1990 ao desfilarem pelas ruas dos grandes centros urbanos trajando roupas de grife enquanto pilotavam seus carros importados), incorporaram a violência em sua personalidade, acarretando, assim, trágicos episódios de violência urbana, amplamente noticiados pelos veículos de comunicação.

A ausência de limites estabelecidos pelos pais aos filhos gera agressivas atitudes que beiram a barbárie. O desregrado consumo de entorpecentes, infelizmente comum nesta privilegiada casta, associado às habilidades adquiridas através da prática de esportes para travar lutas, conduzem os pitboys a atos que chocam a sociedade, como o espancamento de uma empregada doméstica ou até mesmo a queima de um inocente índio que dormia em um banco de praça.

Desconhecendo o significado da palavra limite, os violentos jovens provenientes de uma abastada classe social não imaginam que suas irresponsáveis atitudes deixarão cicatrizes em suas vítimas, que passarão o restante de suas vidas chorando pela desfiguração de sua dignidade.

Caos, crimes e lágrimas

O consumismo desencadeado pela excessiva valorização dos bens materiais em nossa sociedade pós-moderna, infelizmente, acarreta o esquecimento da prática dos valores tradicionais que não são mais ensinados pelos pais aos seus filhos. Os pais, cuja ausência na educação de seus filhos foi motivada pela excessiva dedicação à profissão na ânsia de receber um salário para suprir os caros anseios de seus dependentes, esqueceram-se de conscientizar seus descendentes sobre a importância de obedecer às regras. Tal atitude, exercida na maioria das vezes inconscientemente pelos pais, acarreta drásticas conseqüências que comprometem a garantia do bem-estar coletivo.

A grave situação não terá, pelo menos à primeira vista, um final feliz, como em Caminho das Índias. Se associada à deficitária educação proporcionada pelo sistema público de ensino brasileiro e às escassas oportunidades de emprego ofertadas aos jovens em situação de risco social, vivenciaremos o caos permeado por sangrentos crimes regados por incontáveis e inconsoláveis lágrimas.

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Jornalista e blogueira, Pedro Leopoldo, MG

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