Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

ARMAZéM LITERáRIO > PRIMEIRO TIME

Romance em ritmo de canção

Por Giulio Sanmartini em 08/03/2005 na edição 319

Não sei onde ‘conheci’ primeiro o cronista José Inácio Werneck, se foi no jornal em que escrevia ou nas resenhas esportivas de que participava. Certezas tenho duas: foi há mais de 30 anos e o vi brilhar num conjunto de colegas jornalistas que dificilmente poderá ser juntado outra vez: João Saldanha, Nélson Rodrigues, Sandro Moreira, Armando Nogueira. Assim como Florença teve seu auge com Michalengelo, Raffaello e Leonardo da Vinci, o jornalismo esportivo brasileiro viveu seu ‘Renascimento’ com esse grupo do qual fazia parte José Inácio Werneck.

Um dia, ele resolveu sumir, nunca mais soube onde estava. Por meu lado, também, dedicava-me às andanças pelo interior do Brasil, onde os meios de comunicação nem sempre me eram acessíveis.

O tempo foi passando, mudei-me para a Itália, mais precisamente para a cidade de Belluno, onde nasci, até que um dia, acompanhando a Copa do Mundo de Futebol (2002), reencontro José Inácio Werneck escrevendo em um grande jornal brasileiro. Nunca tivéramos qualquer tipo de contato, no tempo em que o lia no Brasil, pois não existia fax e muito menos internet.

Comunicar-se com um jornalista implicava escrever uma carta, colocá-la num envelope devidamente endereçado, levá-la até o correio, colocar-lhe um selo lambido e esperar que o destinatário a recebesse. Normalmente não havia retorno nem citação. Mas agora a coisa era diferente. Enviei-lhe um e-mail e José Inácio me respondeu no mesmo dia; fiquei sabendo que estava morando em Bristol, Estados Unidos, e daí para a frente passamos a nos escrever pelo menos duas vezes por semana. Nosso assunto obviamente era o esporte e nosso compromisso era com a inteligência, deixando pra lá qualquer paixão.

Casamento perfeito

Com muita sensibilidade, ele percebeu os grandes problemas dos imigrantes brasileiros nos Estados Unidos, a forma desses não perderem sua identidade através da leitura dos jornais de seu país via internet, e resolveu escrever um livro sobre o assunto. Como também existe um grande afluxo de imigrantes brasileiros na Itália, trocamos muitas figurinhas, até que um belo dia me chegam em apenso os originais do livro, praticamente pronto, que teve por título Com Esperança no Coração: Os Imigrantes Brasileiros nos Estados Unidos. Li-o de um fôlego só e fiz meus comentários, alguns foram até aproveitados.

Depois veio a fase da agonia. Só quem já escreveu um livro pode avaliar a ansiedade em que se vive, desde o momento em que os originais são enviados ao editor até a explosão de alívio e euforia quando temos em mãos o primeiro impresso, saído ainda quente da máquina de encadernar. Tudo correu como esperado e, em novembro de 2004, recebi pelo correio o meu exemplar.

Logo depois, no dia 4 de dezembro, me chega a seguinte mensagem:

Querido Italiano, você lembra do Gino Paoli, que cantava ‘Sapore di Sale’? Ele o gravou em 1964, num álbum chamado Basta Chiudere Gli Occhi. Será que você sabe a letra da música? Eu gostaria muito de tê-la, para um novo livro que pretendo escrever. Grande abraço, Zé Inácio.

Com a ajuda de minha mulher, enviei-lhe a longa letra da música e espantei-me uma semana depois ao receber os oito primeiros capítulos do livro.

Passado pouco mais de um mês, o Sabor de Mar estava pronto. Nesse período trocamos mais de 60 cartas, em alguns pontos entramos em delírio bizantino. Numa discussão sobre um quadro de Van Gogh, foram 17 cartas com um total de 2.300 palavras. Disso tudo, resultou útil ao livro somente um parágrafo com menos de 300 palavras.

Fiquei muito orgulhoso quando Zé Inácio me pediu que lhe fizesse o prefácio. É o primeiro que faço em minha vida. Por outro lado, estou também participando da agonia de ver o livro pronto, por sentir-me na condição de padrinho. É um romance-novela, urdido em torno da belíssima canção italiana. Quem nunca a ouviu no passado, certamente vai querer ouvi-la agora. Não sei se Gino Paoli jamais ouvira falar de Ipanema quando escreveu ‘Sapore di Sale’, mas o casamento é perfeito. Zé Inácio une música, paisagem e enredo numa trama que cresce com grande dinamismo e explode num final surpreendente.



O jornalista e o romancista

Bolívar Lamounier (*)

[Texto da ‘orelha’ de Sabor de Mar, de José Inácio Werneck; título da Redação do OI]

Romance de estréia, Sabor de Mar é obra de um escritor maduro. Jornalista experiente, José Inácio Werneck é dono de uma prosa enxuta e elegante. Calejado e viajado, percorre campos os mais diversos, da cultura ao esporte, da vida cotidiana à política. Essa versatilidade já se evidenciara em seu Com esperança no coração, pungente livro-reportagem sobre os brasileiros que emigraram para os Estados Unidos, publicado em 2004.

Convertido agora ao romance, José Inácio não censura o jornalista que mora dentro dele. Ao contrário, dá-lhe a palavra, autoriza-o a tomar parte na história. O romancista-jornalista que daí resulta é notável sob vários aspectos. Desde logo, pela capacidade de sustentar uma narrativa ágil, rápida, ofegante, quase de romance policial, enquanto vai construindo personagens psicologicamente densos, diria até com certo toque de Nélson Rodrigues. Desde logo a personagem central, Maria Eduarda, a heroína do romance, encarna o interior e a capital, a província e a metrópole, ambientes nos quais se fez, além de Londres, por onde andou. Encarna-os e ao mesmo tempo os ilumina, cada um com suas grandezas e misérias, seus tipos sociais, suas formas de humanidade.

Sabor de Mar é também história: história de uma cidade e de um país. Cidade: o Rio de Janeiro. Aqui e ali, em rápidas pinceladas, José Inácio evoca-a com a intimidade dos que a conhecem e sempre a amaram. País: o nosso. O Brasil dos anos cinqüenta, da risonha esperança que então parecia brilhar tranqüila, depois o Brasil do regime militar, da guerrilha, dos anos de chumbo e da abertura política, e daí à estranha ambigüidade dos dias de hoje; o Brasil, enfim, com seus acertos e desacertos.

(*) Cientista político

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