Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ARMAZéM LITERáRIO > SUCESSO NO EXTERIOR

Rubem Fonseca, um escritor cult no México

Por Wladir Dupont, da Cidade do México  em 30/05/2006 na edição 383

Em se tratando de literatura brasileira, vergonhosamente esnobada na América Latina, não sendo o México a desejada ou sonhada honrosa exceção, a façanha é estimulante: no sábado (27/5), um dos melhores suplementos literários da imprensa local, Confabulario, do jornal El Universal, dedicou a capa e quatro páginas internas, logo na abertura, ao mais recente lançamento de um livro de Rubem Fonseca, Mandrake, La Biblia y el bastón (Cal y Arena, México, 2006), traduzido a quatro mãos pelos pesquisadores e professores de literatura e cultura brasileiras da UNAM – Universidade Nacional Autônoma do México, Regina Crespo, ela paulista de Rio Claro, ele o mexicano Rodolfo Mata.


É o nono livro de Fonseca que o casal traduz e a mesma editora publica, num trabalho sistemático e primoroso feito desde 1994, que muito tem contribuído para criar, entre os leitores mexicanos, uma certa aura de autor policial cult ao escritor carioca: seus admiradores, fanáticos, rapidamente consomem uma edição habitual de 3 mil exemplares, o que, para um escritor de língua portuguesa, que precisa ser traduzido ao espanhol, não é nada desprezível.


De fato, uma rápida olhada, hoje, nas mesas de novidades nas grandes livrarias da Cidade do México (Gandhi, Fondo de Cultura Económica, El Parnaso, El Sótano, El Péndulo), por exemplo, constataria a presença de algum romance recente de Nélida Piñon, edição (e tradução) vinda da Espanha, e olhe lá. Claro que Paulo Coelho sempre brilha nas vitrinas e nos anúncios de página inteira nos jornais, mas esse seu sucesso de vendas, garantido, pouco ou nada tem a ver com a cultura e a literatura brasileiras mais autênticas.


Sexo e morte


Boa parte desse prestigio editorial de Rubem Fonseca se deve aos esforços e atenções do próprio editor da Cal y Arena, o fino escritor e ensaísta Rafael Pérez Gay, que acompanha de perto a produção do colega brasileiro e se mobiliza para traduzi-lo tão logo ele publica novo livro. É seu fã de carteirinha, gosto que não esconde, como se lê no belo ensaio que acompanha a publicação de um trecho de Mandrake no suplemento Confabulario. Para começar: ‘Fonseca é, efetivamente, um escritor livresco, um culto intransigente numa época em que o mercado impõe seus cânons mercantilistas… Quem aproximou-se da complexidade do livro A Grande Arte saberá então que existem três temas em Fonseca: o sexo, a morte e a literatura como segunda pele…’ E continua:



‘…Os romances de Fonseca são criações maiores, operações sinfônicas sustentadas não somente no seu assunto central, mas também em subtramas extraordinárias, estudos rigorosos de temas que têm passado com grande naturalidade á sua prosa… Á caudalosa fluência de sua prosa, o manejo insuperável dos diálogos, a densidade verossímil de seus personagens, Fonseca acrescenta o conhecimento detalhado e o refinamento de uma vastíssima cultura literária…’


Estudioso perspicaz mas cauteloso, Pérez Gay obviamente não ignora que Fonseca, como escritor consagrado, tem, até mesmo por seu absoluto desprezo as luzes públicas, detratores nos meios literários, críticos ou colegas de oficio, que nem sempre aplaudem seus livros, nos últimos anos recebidos com certa frieza, por conta de um ciclo temático considerado gasto e repetitivo. Mais contundente ainda, dizem ou escrevem, Fonseca seria, sem dúvida, rápido e eficaz no processo narrativo, mas sem maior profundidade na temática:



‘Não compartilho a visão crítica daqueles que vêm na obra de Fonseca somente o entrelaçado do gênero policial. Com efeito, ele emprega da melhor maneira uma das essências dessa literatura, o suspense; em suas tramas há assassinatos, policiais e labirintos criminais, mas seus fins não se propõem a descobrir o assassino, a façanha literária é a revelação do lado obscuro da condição humana…’


Claro-escuro


Em sua análise, o crítico mexicano vai ainda mais longe ao afirmar que o escritor brasileiro escreveu pelo menos dois livros de nível superior dentro da narrativa latino-americana dos últimos trinta anos: O Caso Morel e Agosto. Só com esses dois livros, Fonseca mostra, na plenitude, diz Pérez Gay, dois traços notáveis da sua literatura:



‘…A variedade de tonalidades e texturas, a penumbra ou luz meridiana, a escuridão ou o claro-escuro… Fonseca não é um romancista que escreve relatos, mas um contista de raça, na escala de Maupassant e Chekov, Updike ou Capote.’


E, fechando a defesa, em grande estilo, do renomado escritor brasileiro, arremata seu autorizado leitor mexicano:



‘…Essa mobilidade temática de Fonseca lhe permitiu contar a vida violenta da favela e a exuberância ridícula da alta sociedade brasileira. Fonseca é um crítico social, mas só com a condição de emoldurar esse grande afresco social sob a advertência que ele próprio coloca na frente de sua obra: ‘Toda grande visão da realidade é produto da imaginação. Como queria Berkeley, uma realidade é sempre uma realidade da imaginação.’

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Jornalista e escritor brasileiro radicado na Cidade do México

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