Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ARMAZéM LITERáRIO > PÚBLICO

Rui Araújo

14/11/2006 na edição 407

‘A crónica sobre editoriais da semana passada suscitou algumas reacções. Vicente Jorge Silva, primeiro director do Público, escreveu ao provedor.

‘Para caucionar o impudor com que, nos seus editoriais, usa e abusa do seu estatuto numa obsessiva doutrinação neo-conservadora, José Manuel Fernandes socorre-se de um editorial meu, quando era director desse jornal, e que para mal dos meus pecados terá ficado na história por razões mais folclóricas do que substanciais (‘Geração rasca?’).

Uma vez que é suposto o Público estar em processo de ‘refundação’, a invocação de um texto do seu primeiro director não é apenas obviamente disparatada como uma forma intelectualmente desonesta de tentar reescrever a história do jornal. Além disso, uma coisa é um editorial polémico, outra coisa é utilizar

sistematicamente os editoriais do Público como pretexto para cruzadas ideológicas, o que nem eu nem os meus colegas editorialistas da altura – incluindo José Manuel Fernandes – se permitiam fazer.

Nesses tempos antigos, tínhamos o hábito salutar de discutir uns com os outros, democrática e colegialmente, os textos que escrevíamos, no sentido de respeitar a pluralidade dos pontos de vista, mas sem prejuízo da coerência e consistência do rumo editorial do jornal, um capital que muito prezávamos. Basta aliás comparar os editoriais de agora com os editoriais da altura em que eu era director do Público para se perceber a infinita distância que separa os dois tempos. Não vivíamos então em clima esquizofrénico de guerrilha ideológica entre directores e entre o director e as secções do jornal, cada qual

puxando a brasa à sua sardinha. E o Público era bem mais respeitado do que é hoje’, afirma Vicente Jorge Silva.

Dei conta do teor da mensagem a José Manuel Fernandes. Eis a resposta do actual director:

‘O meu amigo Vicente Jorge Silva (VJS) pode, naturalmente, ter a pior das opiniões sobre o Público de hoje e sobre as minhas opiniões em particular, que diz determinadas por uma cruzada em nome de uma corrente política que, nas páginas do Público, o ex-líder do partido por que foi deputado, Mário Soares, afirmou já nem sequer existir.

Convém porém recordar o que se manteve da sua herança e o que foi alterado com um pouco mais de rigor. Manteve-se da sua herança a tradição dos editoriais assinados, tradição nascida no Expresso, em que ambos trabalhámos, porque VJS, director-adjunto, não se entendia com o seu director de então, José António Saraiva. Quando VJS, eu e os outros fundadores do Público saímos do Expresso, os editoriais deste voltaram a não ser assinados. No Público sempre foram porque, mesmo podendo ser lidos e discutidos, não eram a mediana das opiniões da redacção ou mesmo da direcção. VJS sabe que escreveu muitos editoriais com que eu não concordei (não foi o caso do ‘Geração rasca?’, em que fui dos raros a apoiá-lo), tal como eu sei que escrevi muitos com que ele não concordava. Também se manteve o hábito salutar de discutir uns com os outros sempre que possível, com a diferença que o director (eu) não impõe as suas opiniões e aprecia um

pluralismo em que VJS vê apenas guerrilha ideológica. Daí que tenha de facto havido uma alteração na política editorial, não nas regras dos editoriais, mas no que respeita ao pluralismo das opiniões, que passou a ser maior.

VJS entendia, por exemplo, que os colunistas não podiam polemizar entre si, opinião com que nunca concordei, como ele sabe, mas que foi vertida em regra impositiva na primeira versão do Livro de Estilo. A aplicação de tal princípio levou-o mesmo a ter uma discussão homérica com Vasco Pulido Valente logo no primeiro mês do jornal, discussão que levaria VPV a deixar o jornal meses depois, no final de 1990. Eu, em contrapartida, entendo que todas as opiniões são susceptíveis de ser contraditadas no próprio jornal e não remetendo os discordantes para outras publicações. Por isso o Livro de Estilo, com o acordo do Conselho de Redacção, foi alterado nesse ponto. No fundo, que mal há em que cada um puxe à brasa à sua sardinha? Se a sociedade é plural, porque há-de um jornal ser monolítico? Se vivemos em liberdade, por graça de quem havemos de reprimir o que pensamos e impor aos outros que façam o mesmo? Para continuar sem discutir ideias, velha desgraça portuguesa? Até VJS concordará que isso não seria saudável. Tal como sabe que o conceito de cruzada ideológica rima mal com pluralismo e que pluralismo assumido não é sinónimo de guerrilha nem resulta em qualquer clima esquizofrénico’, respondeu José Manuel Fernandes.

Não compete ao provedor pronunciar-se sobre os argumentos invocados pelos dois jornalistas. Apenas aceitei reproduzir os dois textos por uma questão de equidade e de transparência.

O leitor António Fernandes também reagiu às declarações do actual director do Público ao seu comentário.

‘Registo com agrado a prontidão da resposta do Director do jornal. É instrutiva e documentada, mas baseia-se num equívoco: o de que eu pretendo ‘impor’ um tipo definido de ‘editorial’ (neutro, médio, baço, etc.), de entre os vários que se encontram na experiência jornalística comparada. Nada disso. O que eu questiono é, justamente, se o ‘editorial’ é um objecto distinto, ou se pode ser, simplesmente, uma ‘forma superior’ de opinião, reservada a um conjunto de pessoas da redacção, sendo particularmente frequente a aparição do director. Porque, num jornal em que avultam tão amplos espaços de opinião (plural), esta segunda hipótese transforma o ‘editorial’ numa espécie de púlpito ou de ‘Hide Park corner’ susceptível de gerar interpretações equívocas.

Eu não o teria incomodado se, por exemplo, o ‘editorial’ fosse exclusivamente assinado pelo director. Na medida em que é escolhido pelo dono do jornal e aceite pela redacção para desempenhar esse cargo unipessoal, teria suficiente legitimidade para exprimir, no lugar próprio, uma opinião distinta e própria, que, sem dificuldade nem escândalo, se consideraria corresponder à tendência do jornal, enquanto ‘instituição’. Certamente por falta de lucidez – mas não por falta de dados, pois frequento diariamente muita imprensa internacional – , não tenho ideia de nenhum jornal em cujo ‘editorial’ se possa, num dia, ler uma coisa, e, no dia seguinte, o seu contrário. Confesso que não vejo senão uma semelhança formal entre o caso do Público e o do Libération.

Já agora, o Director do Público empata comigo em equívocos. Julgo ter deixado claro que não pretendo ‘editoriais’ médios, neutros, etc., plebiscitados pela redacção. E também que só me merece aplauso o pluralismo (e a qualidade intrínseca) das páginas de opinião que o jornal contém diariamente. Há nisso uma

evidente singularidade, mesmo no contexto da imprensa nacional. O Público é o meu jornal diário principal e o único que leio integralmente.

Interessa-me muito a escola de pluralismo que diariamente se abre nas suas páginas. O que eu pretendo é simples: clareza. Se há uma coisa chamada ‘editorial’, que ela corresponda a uma ‘opinião autorizada’ porque imputável à instituição-jornal – e que as opiniões individuais sejam publicadas onde aparecem as outras do mesmo cariz. Se a diferenciação do ‘editorial’ não for possível ou politicamente sustentável – então é melhor que deixe de existir.

Peço-lhe desculpa por ter voltado a incomodá-lo com o mesmo assunto. Agradeço profundamente a atenção que lhe dedicou e a extrema correcção com que o tratou. Mas – já agora – confesso que gostaria de conhecer a opinião do Provedor do Leitor. Porque a do Director, não era difícil imaginar qual fosse’, retorquiu o leitor.

Solicitei, necessariamente, mais um comentário ao director.

‘1. No Livro de Estilo estabelece-se que os editoriais são escritos pelos directores e por eles assinados. Nos períodos em que não fiz parte da direcção do jornal (como subdirector, director adjunto e depois director), quando os responsáveis me pediam para escrever textos de comentário e/ou opinião, eles vieram sempre assinalados como ‘comentários’, como também prevê desde sempre o Livro de Estilo.

2. Quando sinto que uma opinião minha é demasiado diferente ou, se se preferir, demasiado minoritária, prefiro publicá-la sob a forma de opinião. Verifico contudo que muitos leitores a vêem como se fosse um editorial, como de resto via suceder com a coluna de José António Saraiva no Expresso ou, até, com colunas regulares como a de Eduardo Prado Coelho. É um assunto que não posso resolver. A minha intervenção só pode ser a de garantir pluralismo e equilíbrio’, acrescentou José Manuel Fernandes.

As explicações estão dadas, com ou sem equívocos.

De um modo geral a imprensa portuguesa só começou a ter editoriais assinados depois de 25 de Abril de 1974. Vera Lagoa e Francisco Sousa Tavares, por exemplo, marcaram esses anos com editoriais deveras excepcionais.

O leitor interpelou o provedor: ‘Mas – já agora – confesso que gostaria de conhecer a opinião do Provedor do Leitor.’

O provedor considera que a principal função de um editorial é reforçar a coesão (na medida em que propõe uma ‘perspectiva central única, uma definição homogénea da realidade de acordo com os critérios socioculturais, ideológicos e económicos (ou mesmo mercantis) preestabelecidos – e a ideologia dominante através de um discurso de auto-justificação pseudo-argumentativa’).

O modelo adoptado pelo Público é inovador, plural e ao mesmo tempo assaz controverso (na medida em que os editoriais são interpretados, por vezes, como uma ‘forma superior’ de opinião nem sempre autorizada e acabam por ‘gerar interpretações equívocas’).

É por isso que subscrevo a opção da imprensa anglo-saxónica (os editoriais exprimem a orientação geral do jornal, da rádio ou do canal de televisão – enquanto instituições – sobre um acontecimento e não são assinados), mas é apenas a minha opinião. É um parecer somme toute, irrelevante.’

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