Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ARMAZéM LITERáRIO >

Rupturas e tecnologias no fazer jornalístico

03/11/2009 na edição 562

O jornalismo já não é mais o mesmo. Questões tecnológicas, sociais e legais vêm modificando o campo em ritmo acelerado. É justamente este o cenário que torna a leitura deste livro obrigatória. Segundo volume da série Metamorfoses Jornalísticas, o projeto mantém o mesmo objetivo de passar em revista crítica as transformações e rupturas contínuas que testemunhamos nos veículos noticiosos, nas tecnologias, como também no próprio fazer jornalístico. Como fenômeno complexo, mudanças em um ou mais subsistemas alteram e condicionam a totalidade. Sendo assim, não é de surpreender que a digitalização dos meios e modos de produção, o espírito epocal e os rearranjos políticos e econômicos demandem atualizações nas questões de pesquisa e nas próprias senhas explicativas da academia.

O título desta obra não poderia ser mais preciso. Não se pode pensar na morte de um certo jornalismo e no nascimento de outro. Ora, se assim fosse, o campo seria de tal forma frágil (a ponto de se desintegrar) que não seria possível reconhecê-lo como prática, profissão nem tampouco como área do saber. Pelo contrário, os autores aqui reunidos nos mostram como o jornalismo se transmuta e se fortalece diante do tempo que avança impiedosamente. Por outro lado, tais metamorfoses não se constituem apenas em meros ajustes. O jornalismo resiste. As pressões do capital demandam a todo momento restrições e sublimações que o campo não pode conceder. Em outro eixo, contudo, o imperativo tecnológico vai tornando arcaico o que é analógico, lento e pouco interativo.

Qualidade e credibilidade

Contrastes e fronteiras que guiavam o fazer jornalístico e a própria reflexão acadêmica passaram a mostrar seus limites. Com a emergência de condições de interação conversacional e produção colaborativa mediadas pelo computador, atividades de escrita e leitura deixaram de parecer antônimos. Em um momento, o interagente de um site noticioso é reconhecido como parte da audiência, para logo em seguida intervir com comentários, imagens ou mesmo alterações no próprio corpo da notícia.

O webjornalismo participativo surgiu como um dos principais exemplares da Web 2.0 – a segunda geração da Web, marcada principalmente pelos processos de produção colaborativa. Sua entrada em cena, ao lado da popularização de blogs, dividiu opiniões e assustou os mais afoitos. Chegou-se a supor que os jovens internautas abandonariam de vez os produtos das grandes instituições jornalísticas para informar-se apenas em sites onde notícias e colunas seriam assinadas pelos próprios membros da comunidade. A ‘morte’ do jornalismo e dos próprios jornalistas, temida e propalada por tantos, não passou de um slogan apavorado, mostrando as mesmas cores dos chavões que também anunciaram o fim dos professores e bibliotecários diante do fortalecimento dos cursos à distância e dos sistemas colaborativos de indexação de informações na rede.

É tamanha a rapidez das transformações na comunicação social que com frequência as análises pecam pelo antecipado negativismo, próprio de quem se sente ameaçado. Apesar dos riscos que acompanham as mudanças aceleradas, é salutar que nos últimos anos muitas de nossas certezas tenham sido desafiadas. Mas não podemos negar que de quando em quando é importante que se levante o pó para descobrir o que se escondia. É preciso permitir que o novo se mostre, nos provoque e crie novas relações. Nosso papel enquanto jornalistas e/ou pesquisadores de jornalismo não é apenas guardar suas boas e velhas características como jóias intocáveis, mas sim, acompanhá-lo em sua evolução. É preciso estar atento, sim, para os deslizes que intervêm pelo caminho, mas jamais temer a emergência do novo. Vale deixar surpreendermo-nos com tais novidades, sem jamais padecermos pelo deslumbre. Devemos, sim, lutar pela qualidade e credibilidade das informações com que trabalhamos, mas devemos desconfiar da confortável manutenção do que alcançou estabilidade.

Discurso e condições de existência

Esse é o tom que o leitor encontrará nas próximas páginas. O registro do atual estágio do jornalismo, capturado em pleno movimento, é sempre acompanhado por um olhar crítico que quer refletir sobre o que encontra, buscando dar sentido às transformações observadas.

Dentre as metamorfoses debatidas neste livro, quatro grandes temas desafiam os pesquisadores aqui reunidos. Primeiramente, o jornalismo é pensando a partir da complexidade e fecundidade do conceito de dispositivo.

No capítulo que abre esta coletânea, Lia Seixas reconhece a diversidade de abordagens sobre suporte, formato, dispositivo e mídia. Como muitas vezes conceitos são o único ferramental disponível ao pesquisador das ciências sociais, é preciso lapidá-los para que se tornem operacionais. A autora, reconhecendo tal necessidade, visita diferentes autores e perspectivas. Mas, além de levantamento tão cuidadoso (que culmina na elaboração de um útil quadro conceitual), Seixas tem um objetivo bem definido: quer analisar a inter-relação discursiva entre dispositivo e jornalismo. Seu percurso reflexivo culmina na seguinte conclusão: ‘O midium não é determinante, mas pode ser condicionante na configuração de um gênero jornalístico.’

Jairo Ferreira, por sua vez, discute os dispositivos enquanto reflete sobre o processo de midiatização. A partir desse direcionamento, o autor nos mostra a existência de um ‘acoplamento’ das instituições jornalísticas e as disposições discursivas, entre discurso e condições de existência. Durante seu texto, Jairo busca nos mostrar que a tradicional análise que foca ou a produção ou o consumo já não é suficiente para o estudo do jornalismo. Diante disso, defende o estudo da circulação em sua complexidade.

Três relações básicas das redes

A midiatização também é discutida por Demétrio de Azeredo Soster. Seu foco, contudo, volta-se para os diálogos estabelecidos entre diferentes meios, como jornais, revistas, rádios, televisão, blogs etc. Ao observar o ‘jornalismo midiatizado’, Soster reconhece auto-referencialidade, já que as operações jornalísticas voltam-se para o interior do sistema midiático-comunicacional, e co-referencialidade, tendo em vista que os dispositivos passam a interagir entre si.

A interação entre os produtores e consumidores de mensagens tem provocado pesquisadores como Antonio Fausto Neto. Inspirados por projetos de webjornalismo participativo, diversos sites de instituições jornalísticas tradicionais vem incorporando ferramentas e slogans (frequentemente associados à palavra ‘interativo’) que convidam a participação da audiência. Mas existe de fato a intervenção criativa e crítica do público? A partir da noção de contrato de leitura, Fausto Neto investiga como se dá o processo de criação da página ZH Responde, da versão on-line do jornal gaúcho Zero Hora. Mesmo que essa construção seja apresentada pela empresa como colaborativa, a pesquisa vai mostrar que as próprias respostas dos internautas já estavam contidas no convite do jornal à intervenção. Para este estudo, o autor utiliza as seguintes categorias: dispositivo de transformação, dispositivo de captura, dispositivo de apropriação, dispositivo de mediação. Após avaliação criteriosa sobre tal processo interativo, o autor conclui ironicamente: ‘ZH pergunta e responde!’

O leitor certamente não se surpreenderá ao saber que os condicionamentos e deslocamentos causados pela tecnologia no fazer jornalístico é outro tema central nesta coletânea sobre as metamorfoses jornalísticas. Um dos temas mais discutidos nesse contexto refere-se ao impacto das redes sociais na internet. No capítulo de sua autoria, Raquel Recuero não apenas apresenta uma excelente introdução aos principais conceitos e questões, como também discute como as redes sociais podem contribuir com o fenômeno jornalístico. A partir da análise de como informações são trabalhadas on-line, Recuero encontra três relações básicas das redes na internet: produtoras, filtros e espaços de reverberação de informações.

Produção colaborativa e descentralizada

Dentre as interações na Web, certamente aquelas que mais têm despertado o interesse da academia e da própria imprensa ocorrem na chamada blogosfera. O tema não é fácil e tem sido alvo de insistentes polêmicas. Blogs são um novo meio de comunicação cuja compreensão escapa aos limites impostos por metáforas fáceis e definições essencialistas. Essas publicações on-line já foram vistas como ameaça ao bom jornalismo e embates entre jornalistas e blogueiros já foram, inclusive, capa da revista Imprensa. Com o tempo, pode-se testemunhar a multiplicação de blogs nos próprios sites jornalísticos, onde articulistas ganham um novo espaço para análise e opinião; desta vez, contudo, acompanhados por comentários de seus leitores. Ou seja, a própria oposição entre blogs e sites jornalísticos e entre blogueiros e jornalistas perde sentido, já que blogs são um meio utilizado por jornalistas e não-jornalistas. Diante da riqueza de questões acerca do tema, Cláudio Cardoso de Paiva dedica seu texto justamente ao estado da arte desse estudo. Além de um mapeamento dos principais trabalhos sobre blogs, dando destaque às pesquisas nacionais, Paiva busca em autores pós-estruturalistas a fundamentação para suas reflexões sobre as narrativas do ciberespaço.

Outra ‘ferramenta’ muito utilizada na internet para a produção e circulação de informações é a plataforma wiki. Seu uso mais conhecido é a Wikipédia, a enciclopédia livre, escrita e atualizada por qualquer interessado. Mas pode a escrita coletiva on-line ser utilizada para a redação e edição jornalísticas? E mais, existe um ‘wiki-jornalismo’? Essas são questões atuais enfrentadas por Carlos d´Andréa. Enquanto na teoria do jornalismo o fenômeno de gatekeeping ocupa uma posição central, o autor busca compreender como a prática do gatewatching (conceito desenvolvido por Bruns) pode ser encontrada no que ele chama de ‘wikificação’ do jornalismo. Ao observar a produção de notícias ocorrendo de forma colaborativa e descentralizada na rede, que em muito se diferencia das tradicionais rotinas de produção das redações, o autor entende que se trata de uma oportunidade de ampliação do engajamento dos cidadãos na produção jornalística.

Reconfiguração do fotojornalismo

Já Fernando Firmino da Silva foca como a utilização de aparatos portáteis, como celulares e câmeras digitais, faz emergir o que se pode chamar de jornalismo móvel (ou ‘de bolso’, ‘de mochila’). Tal impacto transformador pode ser observado tanto na instância da produção quanto da recepção. Não apenas essa modalidade facilita a captura e transmissão do fato em seu instante único como também o acesso a essas informações pode se dar em qualquer lugar. A mobilidade digital veio trazer imagens e novas formas de interação à cobertura jornalística instantânea (antes característica do meio rádio).

O terceiro grande tema deste livro, que na verdade perpassa todos os capítulos, refere-se às grandes transformações sofridas pelo jornalismo nos últimos anos. A primeira e mais notória é a transição da tecnologia analógica para a digital. Este, certamente, não é um mero problema de engenharia, tendo em vista que condiciona as próprias rotinas jornalísticas. Neste livro, dois capítulos buscam compreender como o digital transforma a produção de telejornais. Fabiana Piccinin acompanha justamente este período de transição, onde o novo e o tradicional ainda convivem e as práticas jornalísticas vão se acomodando às novas demandas. Águeda Miranda Cabral, por sua vez, empreende um estudo aplicado, baseado em observações e entrevistas das primeiras transmissões do sinal digital na TV Cabo Branco, da Paraíba. Diante desses dados, a autora identifica a emergência de um novo profissional, que não apenas conhece o aparato digital, mas que se mostra apto a trabalhar com a edição de texto, imagem e arte.

A tensão entre o analógico e o digital é também abordada por José Afonso Jr. em seu capítulo sobre o fotojornalismo em redes digitais. O autor, contudo, quer ir além da definição simplista de que a fotografia digital é aquela que se faz sem filme. Crítico, o texto quer avaliar como os novos recursos, a portabilidade do equipamento e seu barateamento irão reconfigurar o fotojornalismo. Afonso Jr. recusa o simples argumento econômico (a redução de custos) e busca refletir sobre aperfeiçoamentos na apuração e visibilidade dos fatos, assim como a codificação da imagem como notícia. Por fim, o autor não deixa de discutir a interação entre os leitores e jornais, a atualização da profissão de fotojornalista e as demandas da formação para a área.

Elemento provocador de debates

Apoiada por recursos de hipertextualidade digital, a infografia mais uma vez transforma a narrativa jornalística. A produção infográfica na Web é estudada por Adriana Alves Rodrigues, que acompanha suas fases evolutivas e discute suas características. O capítulo foca-se na integração da infografia interativa com bases de dados, o que lhe proporciona dinamismo e atualidade. A partir de um cuidadoso levantamento, a autora oferece um quadro conclusivo onde delineia uma tipologia da evolução dos infográficos no jornalismo digital.

O radiojornalismo também vive transformações sucessivas, mesmo que as previsões de sua morte nunca tenham abandonado os discursos dos futurologistas. O surgimento da televisão, da internet e mais especificamente dos podcasts parecia mostrar que os avanços tecnológicos fariam desaparecer aquele meio ‘limitado’ aos sons. Localiza-se justamente aí a falha de tais argumentos – supor que rádio é tão somente transmissão de áudio! Apoiando-se em conceitos como mediamorfose e remediação, Nelia Del Bianco descreve como a tecnologia digital vem atualizando o radiojornalismo, em vez de minar sua existência. Se a constante atualização dos fatos foi sempre característica do rádio, a incorporação da internet no ciclo produtivo trouxe ainda maior agilidade. É o que mostra a pesquisadora no capítulo de sua autoria.

Este livro, que busca debater as metamorfoses do jornalismo nos mais diferentes suportes e contextos, não poderia deixar de discutir a produção documental cinematográfica. Com este intuito, Jair Giacomini recupera as lições de Dziga Vertov, principalmente seu conceito de cinema-olho, para o estudo dos documentários contemporâneos. Em seu trajeto argumentativo, o autor busca refletir sobre o processo de revelação da verdade através das lentes do cinema e até mesmo da televisão (Giacomini não se exime de comentar programas do tipo reality show). Com a popularização das câmeras de baixo custo, o autor reconhece que se ampliaram as formas de registro de nosso mundo. Mas avisa: não devemos simplesmente fetichizar os lançamentos recentes, sem refletir sobre o próprio processo imagético.

Como o leitor pode perceber neste breve panorama, a tarefa deste livro não é simples: enfrentar as principais questões que acompanham hoje o jornalismo, em seus aspectos produtivos, tecnológicos e conceituais. Ainda mais difícil é refletir e buscar conclusões sobre temas que estão em mutação no momento da análise. Sendo assim, este volume se mostra não apenas como um registro de um instante histórico fundamental, mas também como um elemento provocador de novos debates.

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Jornalista, publicitário, professor do PPGCOM/UFRGS, pesquisador de cibercultura com bolsa produtividade do CNPq, autor do livro Interação Mediada por Computador

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