Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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ARMAZéM LITERáRIO >

Salvador Allende, ato final

Por Lúcio Flávio Pinto em 27/06/2011 na edição 648

No dia 15 de abril o juiz Mario Carroza ordenou a exumação dos restos do ex-presidente do Chile, Salvador Allende. Queria esclarecer em definitivo se o líder socialista tinha mesmo se suicidado ou fora morto pelos militares que o derrubaram e impuseram a ditadura ao país, em 11 de setembro de 1973. A exumação fora solicitada pela família do ex-presidente para definir a posição jurídica sobre o fim de Allende.

A única novidade do exame foi a localização de duas e não apenas de uma bala no corpo do ex-presidente. Embora logo tenha aparecido quem interprete esse fato como uma reviravolta na versão oficial de suicídio, aceita pela própria família, nada indica que essa revisão venha a ocorrer. A reconstituição do suicídio do comandante da Unidade Popular (UP), que iniciou em 1970 uma experiência única, a tentativa de passagem pacífica do capitalismo para o socialismo, já é suficientemente detalhada para assegurar que os fatos aconteceram mais ou menos como os relatou o jornalista chileno Ignacio Gonzalez Camus.

Seu livro El dia em que murio Allende (Ediciones Chileamerica, 468 páginas), cuja primeira edição saiu em Santiago em 1998 (e a sétima em 2002), é um primoroso trabalho de restauração dos acontecimentos, sob várias perspectivas. É um trabalho jornalístico do nível de Dez dias que abalaram o mundo, de John Reed, ou Hiroxima, de John Hersey. É uma pena que até hoje não tenha sido traduzido em português e publicado no Brasil.

Momentos derradeiros

Camus é seguro na versão do suicídio de Allende, um dos acontecimentos mais traumáticos da história política da América do Sul (e mesmo do mundo), sobretudo para os que estiverem presentes ao final da saga da UP. Informar-se sobre essa tragédia pode servir a fecundas análises comparativas dos brasileiros. Nosso único presidente a se matar, Getúlio Vargas, cometeu esse ato extremo também na sede do governo, o Palácio do Catete. Os militares o cercavam, sedentos por sangue.

Depois de quatro décadas de participação intensa na vida política nacional, para isso extrapolando os limites da sua função constitucional e dos próprios regulamentos internos da corporação, as Forças Armadas estavam a um passo de tomar o poder. Bastava que o presidente renunciasse. Mas, cumprindo o que anunciara, Getúlio só saiu morto do Catete. Com seu suicídio, adiou por mais uma década a consumação do projeto político dos já antigos tenentes e demais jovens turcos das novas gerações de reformadores autoritários (ou nem isso).

Os militares chilenos que investiram contra Salvador Allende não ficaram esperando do lado de fora o desfecho do drama presidencial. Surpreendendo apenas os que tinham uma visão distorcida da história chilena, bombardearam o Palácio La Moneda, dando início a uma repressão violentíssima – e duradoura. Depois de tanto sangue derramado, promoveriam uma transição à democracia, nos parâmetros de uma sociedade capitalista avançada, mais bem sucedida do que o prospecto da Unidade Popular.

Com o fecho legal que se pretende dar à história pessoal de Allende, pode ser que as editoras brasileiras voltem a se interessar pelo tema. Para o leitor, traduzi o trecho do livro de Ignacio Camus que trata do suicídio da admirável pessoa e do respeitável político que foi Salvador Gossens Allende. São os minutos derradeiros no Palácio La Moneda, construção colonial espanhola num vasto quadrilátero no centro de Santiago, que foi arrasada pelos sucessores de Guernica.

***

Allende entrou no Salão Independência.

Todas as portas do corredor estavam fechadas. Guijón, quando se aproximava do local onde supunha que estava o equipamento antigás, observou o foco iluminado de uma porta quem, até poucos momentos antes, estava fechada.

O grupo que se encontrava em frente à porta acreditou ouvir um grito:

– Allende não se rende, milicos! – E o Presidente acrescentou um insulto.

Supuseram depois que ele o fizera olhando pela janela na direção de Morandé.

Guijón se assustou.

Foi até Allende. Escutou as detonações. Supôs que o Presidente se baleara no momento de sentar-se. Porém o que na realidade vira – pensou nisso depois – fora o deslocamento do corpo pelos projéteis.

Allende estava sem casaco. O crânio se fragmentou. Achava-se sentado frente à porta desde que Guijón passou a observá-lo.

O Presidente ficara sem o crânio acima das cãs. A massa encefálica estourara.

– Morreu o Presidente!

O grupo que estava do lado de fora se espantou olhando o cadáver. Enrique Huerta exclamou, com a voz estrangulada:

– Viva Allende!

Olhou para os detetives:

– Vamos ficar! Resistiremos aqui! – exclamou.

Mas não havia ninguém mais além deles. Os demais haviam descido. Parecia absurdo continuar ali.

Não o fizeram. Só conversaram sobre o que tinha acontecido.

Guijón permaneceu ao lado do cadáver, que conservava o fuzil-metralhadora entre as pernas.

Passaram os minutos. O médico estava sentado no chão. Afastou-se mais do cadáver, porque às suas costas havia uma janela e lá fora se escutavam as balas. Temia a entrada de balas perdidas.

Tinha o aspecto de um doente. Parecia estar velado o corpo de Allende.

Olhou para o escritório de Osvaldo Puccio. Suas duas portas estavam abertas, alinhadas, uma depois da outra. Uma delas se comunicava com as escadas.

Guijón pensou que se os militares entrassem, o fariam por essa direção. Se o observassem tão próximo da arma de Allende, disparariam ao menor movimento seu.

Pegou a arma e a pôs mais próxima da direita do cadáver do Presidente. Nem sequer pensou que podia estar imprimindo suas impressões digitais no fuzil-metralhadora.

***

[Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)]

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