Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Seis escritores se recusam a participar de prêmio ao jornal

Por Jennifer Schuessler em 05/05/2015 na edição 849

A decisão do PEN American Center de agraciar o jornal satírico francês “Charlie Hebdo” com o seu prêmio anual que reconhece a coragem na defesa da liberdade de expressão levou seis escritores a se retirarem como anfitriões da cerimônia de premiação, no dia 5 de maio, e reabriu o debate se a publicação é ou não uma mártir pela liberdade de expressão.

Os romancistas Peter Carey, Michael Ondaatje, Francine Prose, Teju Cole, Rachel Kushner e Taiye Selasi desistiram de participar da festa. Gerard Biard, editor-chefe do “Charlie Hebdo”, e Jean-Baptiste Thoret, que chegou atrasado para o trabalho em 7 de janeiro e se salvou do ataque de extremistas islâmicos que matou 12 pessoas, são esperados na premiação.

Em um e-mail para o comando do PEN americano na sexta-feira, Rachel Kushner manifestou seu desconforto com o que chamou “intolerância cultural” do jornal e sua promoção “de uma certa visão secular forçada”, opiniões compartilhadas pelos outros escritores que se retiraram do evento.

Peter Carey, em entrevista por e-mail no sábado, disse que o prêmio foi além do seu papel tradicional proteger a liberdade de expressão contra a opressão do governo.

– Um crime hediondo foi cometido, mas era uma questão de liberdade de expressão para o PEN ser hipócrita sobre?”, disse Carey. – Tudo isso é complicado pela aparente cegueira do PEN para a arrogância cultural da nação francesa, que não reconhece a sua obrigação moral com um grande segmento de sua população.

Andrew Solomon, presidente do PEN American Center, disse ontem que os seis escritores foram os únicos que reconsideraram a participação na cerimônia entre dezenas de convidados. Solomon disse que sabia que o prêmio dado ao “Charlie Hebdo” poderia ser controverso, mas que ficou menos surpreso pela crítica do que pela veemência de alguns deles, assim como pelo tempo – menos de duas semanas antes da festa, um dos principais eventos de arrecadação de fundos da associação e que atrai mais de 800 escritores, editores e simpatizantes.

– Todos nós sabíamos que essa era, de certa forma, uma escolha controversa – disse ele. – Mas eu não sentia que isso poderia gerar preocupações específicas destes autores.

As ausências anunciadas refletem o debate sobre “Charlie Hebdo” que irrompeu imediatamente após o ataque, com alguns questionando se alçar as vítimas ao posto de heróis da liberdade de expressão não seria ignorar o que muitos veem como uma predileção da publicação em criticar a minoria muçulmana francesa.

Em um ensaio para o site da revista “The New Yorker”, logo após o ataque, Teju Cole observou que o jornal afirmou ofender todas as partes, mas, na verdade, nos últimos anos, “se voltou especificamente para provocações racistas e de islamofobia”. Procurado, Cole não quis se pronunciar.

Este mês, o cartunista Garry Trudeau atraiu muitas críticas por dizer em um discurso que “ao atacar uma minoria impotente e desprivilegiada com desenhos vulgares e cruéis mais próximos do grafite do que do cartum, Charlie entrou na esfera do discurso do ódio .”

Em carta ao conselho do PEN enviada ontem, Solomon e a diretora-executiva Suzanne Nossel disseram que não era necessário concordar com a publicação francesa para “afirmar os princípios” que o jornal defende.

“Há coragem em se recusar a própria ideia de declarações proibidas, um brilho urgente em dizer o que lhe foi dito para não dizer, a fim de torná-lo dizível”, diz a carta.

Solomon afirmou que a liderança do PEN tinha ouvido poucas reações negativas de seus membros desde que o prêmio foi anunciado, em 17 de março. Ele confirmou que foi procurado por Carey, que manifestou sua preocupação.

– Tivemos uma conversa agradável e pensei que tudo tinha sido resolvido – disse ele, que ressaltou a onda de adesões à associação após a declaração de apoio ao “Charlie Hebdo” após os ataques. – Ouvimos de muitas pessoas que aquela tomada de posição foi significativa para que elas se juntassem ao PEN, algo que já pensavam antes. A tragédia foi um catalisador.

Por e-mail, Carey informou que primeiro procurou Peter Godwin, ex-presidente do PEN, em meados de março, e, na sexta-feira, escreveu para Solomon e comunicou que não participaria do evento.

– Eu escrevi para Andrew para dizer que não queria ter o meu nome publicamente ligado a uma posição política que eu não concordava sem o meu conhecimento ou aprovação prévia – afirmou.

Alguns membros do PEN que não serão anfitriões na cerimônia concordaram com a atitude dos colegas. Por e-mail, a contista Deborah Eisenberg disse que escreveu para Suzanne Nossel em março para criticar a iniciativa.

– O que eu questiono é qual mensagem o PEN espera passar ao premiar uma revista que ficou famosa pelo horrível assassinato de seus colaboradores por extremistas muçulmanos e os seus desenhos denegrindo muçulmanos. Não está claro o significado simbólico do “Charlie Hebdo”.

Já Salman Rushdie, ex-presidente do PEN que viveu na clandestinidade durante anos após ser condenado à morte no Irã pelo seu romance “Versos satânicos”, disse que não há dúvidas sobre o significado do prêmio. Na sua opinião, Ondaatje e Carey, de quem é amigo, estão “terrivelmente errados”.

– Se o PEN, como uma organização em defesa da liberdade de expressão, não pode defender e celebrar pessoas assassinadas por seus desenhos, então, francamente, não é uma organização digna do nome – afirmou Rushdie. – O que eu diria tanto para Peter e Michael quanto para os outros é: espero que ninguém nunca venha atrás de vocês.

***

Jennifer Schessler, do New York Times

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