Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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ARMAZéM LITERáRIO >

Sem destino, na internet

Por David Brooks em 11/05/2010 na edição 589

Em 2001, Cass R. Sunstein escreveu um ensaio no Boston Review chamado ‘The Daily We: Is the internet really a blessing for democracy?’ (algo como ‘Nosso cotidiano: a internet é realmente uma bênção para a democracia?’). Sunstein, um professor da Universidade de Chicago que agora trabalha no governo Obama, levantou a possibilidade de a internet prejudicar o interesse público.

Em meados do século 20, os americanos eram informados principalmente por algumas grandes redes de notícias e revistas de grande circulação. O público era forçado a se acomodar a pontos de vista políticos diferentes dos seus. Além do mais, a mídia de massa dava aos americanos experiências compartilhadas. No caso de encontrar estranhos numa barbearia, por exemplo, com certeza você teria sobre o que conversar; afinal, viam os mesmos programas na TV.

Sunstein se perguntou se a internet estava mudando isso. A nova mídia, ele notou, permite personalizar a informação de forma que o leitor só receba as reportagens sobre assuntos que já lhe interessavam. Ou recorra apenas a sites na internet que confirmem seus preconceitos. Assim, poderíamos acabar numa coleção de casulos de informação. Sunstein ficou preocupado com isso porque vinha há tempos estudando as inclinações cognitivas do público.

Uma metáfora geográfica

Gostamos de ouvir relatos que confirmem nossas suposições. Filtramos e jogamos fora evidências que as contradigam. Além do mais, temos uma inclinação natural por opiniões polarizadas. As pessoas tendem a se juntar em grupos que pensam de forma semelhante. Uma vez nele, um membro leva o outro a extremos. Em seu recente livro Going to Extremes (Chegando a extremos, numa tradução livre), Sunstein mostra que juízes liberais se tornam mais liberais quando em conjunto com outros liberais. O mesmo vale para juízes conservadores.

O medo de Sunstein é que a internet levasse a um eleitorado mais polarizado, isolado em guetos. Esse temor se sustentava em outros estudos e eles certamente condizem com minha própria experiência. Todo dia pareço me defrontar com pessoas que vivem em guetos, ignorando o que se passa do outro lado.

Mas novas pesquisas complicaram o panorama. Matthew Gentzkow e Jesse M. Shapiro, ambos da Faculdade de Administração da Universidade de Chicago, mediram a segregação ideológica na internet. Valeram-se de metodologias usadas para identificar segregação racial e monitoraram como pessoas de visões políticas diferentes se movem na internet. A metodologia é complicada, mas pode ser resumida numa metáfora geográfica. Pense no site da Fox News como Casper, cidade no Wyoming. Se você fosse lá e apertasse a mão de pessoas que estivessem visitando o site, muito provavelmente estaria cumprimentando conservadores. O site do New York Times, sugerem Gentzkow e Shapiro, é como Manhattan. Se você apertasse a mão de alguém ali, estaria provavelmente cumprimentando liberais.

Um comportamento sem rédeas

O estudo focaliza as pessoas que visitam sites, não o conteúdo deles. Segundo o estudo, alguém que visite apenas o site da Fox News terá mais identificação com conservadores do que 99% dos usuários da internet. Em relação ao Times, a percentagem seria 95% em relação aos liberais. Mas a principal conclusão é que a maioria dos usuários da internet não se limita a suas comunidades. A maior parte passa muito tempo em alguns sites gigantes, com audiências politicamente integradas, como o Yahoo News.

Mas quando deixam esses sites, frequentemente vão para áreas em que a maioria dos visitantes é diferente deles. Pessoas que passam muito tempo no site do radialista conservador Glenn Beck, por exemplo, têm maior probabilidade de visitar o site do New York Times do que a média dos usuários da internet. Outros que frequentam os sites mais liberais vão mais ao foxnews.com que a média dos usuários. Mesmo supremacistas brancos e neonazistas viajam amplamente na internet.

É tão fácil dar um clique para outro site que as pessoas vão longe. E, na maior parte do tempo, elas não estão seguindo links, mas seus próprios padrões de navegação. Gentzkow e Shapiro descobriram que a internet é mais ideologicamente integrada do que antigas formas de associação face a face – como encontrar as pessoas no trabalho, na igreja ou em grupos comunitários. É mais provável que você trate com adversários políticos on-line do que em sua vizinhança.

Este estudo sugere que usuários de internet são um bando de Jack Kerouacs. Eles não se entocam em ninhos confortáveis, mas vão longe em busca de aventura, informação, luta e excitação. Isto não significa que não sejam polarizados. Estar num site nada diz sobre como você o processa ou que tipo de atenção você lhe dedica. É provável que as pessoas passem muito tempo em seus sites preferidos e depois deem incertas em busca de coisas que odeiem.

Se o estudo estiver correto, a internet não produzirá um efeito casulo, mas um comportamento sem rédeas e de múltiplas camadas do tipo Mad Max. O estudo também sugere que, se existe aumento da polarização (e há), provavelmente não é a internet que a está causando.

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Jornalista, The New York Times

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