Quarta-feira, 20 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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Separando o joio do trigo

Por Felipe A. P. L. Costa em 31/03/2009 na edição 531

O American Council of Learned Societies (ACLS) é uma associação norte-americana fundada em 1919 e que reúne hoje dezenas de organizações acadêmicas. Entre as obras que organizou ou promoveu, cabe citar o Dictionary of Scientific Biography (DSB), coleção em 16 volumes (o vol. 15 é o Suplemento I e o vol. 16 é o índice), publicada entre 1970 e 1980, contendo informações sobre o trabalho de cientistas de todo o mundo, da Antiguidade até o século 20.

O editor-geral do DSB foi Charles C. Gillispie, professor de história da ciência da Universidade de Princeton (Princeton, Estados Unidos). Centenas de colaboradores de vários países participaram do projeto, escrevendo notas biográficas e fazendo um balanço crítico das contribuições científicas de cada biografado. As entradas – muitas, ilustradas – vêm acompanhadas de uma pequena bibliografia. O critério inicial foi o de incluir apenas cientistas falecidos que tivessem contribuído de modo significativo para o desenvolvimento das ciências naturais ou da matemática.

A publicação foi um sucesso. Em 1981, apareceu uma versão concisa da coleção em um único volume. Em 1990, foi publicado o Suplemento II, em dois volumes (17 e 18), com biografias adicionais. Nesses dois volumes, cujo editor geral foi Frederic L. Holmes (1932-2003), então professor de história da medicina da Universidade de Yale (New Haven, Estados Unidos), foram incluídos, além de cientistas naturais e matemáticos, alguns nomes oriundos das ciências sociais e humanas – notadamente psicologia, antropologia, sociologia e economia. Em 2001, apareceu uma segunda edição da versão em volume único de 1981, contendo o material suplementar publicado em 1990.

O DSB poderia então ser descrito como uma coleção em 18 volumes, contendo notas biográficas e comentários sobre o trabalho de mais de cinco mil cientistas (notadamente cientistas naturais) e matemáticos, da Antiguidade até a década de 1980.

Ampliando e atualizando

Em dezembro de 2007, após um anúncio prévio divulgado com meses de antecedência, foi publicado o New Dictionary of Scientific Biography (NDSB), obra igualmente organizada pelo ACLS.

O NDSB é uma coleção em oito volumes (o volume 8 é o índice), contendo aproximadamente 800 entradas adicionais em relação aos 18 volumes do velho DSB. Dessas 800 entradas, cerca de 500 tratam de cientistas que morreram nas últimas décadas. Alguns, na verdade, faleceram muito recentemente, como foi o caso de Stanley L. Miller, pioneiro no estudo da Terra pré-biótica, falecido em maio de 2007. (A agilidade dos editores não foi suficiente para incluir Leslie E. Orgel, outro renomado estudioso da Terra pré-biótica, falecido em outubro de 2007.) Outras 75 entradas tratam de cientistas que faleceram há mais tempo, mas que foram ‘esquecidos’ e ficaram de fora do DSB. Esse foi o caso, por exemplo, de Wladimir P. Köppen (1846-1940), fundador da moderna climatologia, Alfred C. Kinsey (1894-1956), pioneiro no estudo da sexualidade humana, e Jean Piaget (1896-1980), criador da epistemologia genética. As duzentas e tantas entradas restantes são acréscimos, correções ou variações a respeito de cientistas que já haviam sido tratados antes. Juntas, as duas coleções (DSB e NDSB) somam agora 26 volumes e quase seis mil biografados.

A editora-geral do NDSB foi Noretta Koertge, então professora de filosofia da ciência da Universidade de Indiana (Bloomington, Estados Unidos). Dezenas de colaboradores de várias partes do mundo participaram do projeto, como a historiadora brasileira Christina Helena Barboza, do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Rio de Janeiro, RJ). Barboza é autora da entrada sobre o astrônomo francês Emmanuel-Bernardin Liais (1826-1900), que morou e trabalhou no Brasil durante vários anos.

Como obras de referências, o DSB e o NDSB podem ser muito úteis ao leitor interessado em conhecer o trabalho de um amplo e variado leque de cientistas. Como ocorre com toda enciclopédia, porém, ambas enfrentam um dilema: achar um meio-termo entre o número de biografados e a profundidade com que se pode tratar de cada um deles. Não é difícil perceber, por exemplo, que nomes importantes continuam sendo ‘esquecidos’ – como foi o caso de Georgii F. Gause (1910-1986), fomulador do princípio da exclusão competitiva; John Maynard Smith (1920-2004), um dos gigantes da biologia evolutiva do século 20; Clair Cameron Patterson (1922-1995), autor da estimativa atual para a idade da Terra e pioneiro na luta contra o uso de metais pesados; e Cesare [César] Lattes (1924-2005), descobridor do méson pi. Em todo caso, assim como o NDSB veio complementar o DSB, é provável que em futuro próximo surjam suplementos adicionais que façam a mesma coisa em relação ao NDSB.

A versão brasileira

Mais ou menos na mesma época em que o NDSB foi lançado nos Estados Unidos, a editora brasileira Contraponto lançava aqui o Dicionário de Biografias Científicas, versão do DSB em português condensada em três volumes. [No início de 2008, os três volumes do Dicionário de biografias científicas podiam ser adquiridos a um preço promocional de R$ 360,00 (contra os R$ 600 do preço de catálogo) – a rigor, ainda é possível comprar a obra por esse preço no sítio eletrônico da editora. Na mesma época, era possível adquirir os oito volumes do NDSB (há um representante da Gale no país) por aproximadamente R$ 1.600,00 (US$ 1 a R$ 1,7)]. Houve algum barulho na imprensa; de modo geral, no entanto, os comentários mais enalteciam do que ponderavam sobre a obra. [Ver, por exemplo, o artigo um tanto confuso de Fernando Reinach, ‘Verbetes para ler como um romance‘, publicado no jornal Estado de S. Paulo, em 13/4/2008. Este Observatório, em sua edição 468 (15/1/2008), reproduziu na íntegra e sem qualquer ponderação a Apresentação (p. 31-35) da versão brasileira, assinada pelo economista César Benjamin. (Acessos em março de 2009.)]. Não chegou a ser dito, por exemplo, que o Dicionário de Biografias Científicas, a despeito de ser um empreendimento editorial louvável, representa uma versão desatualizada, parcial e tendenciosa em relação à obra original.

Desatualizada porque há um lapso considerável de tempo entre o material de onde foram retiradas as notas para a versão em português e o material hoje disponível. Na edição da Contraponto, por exemplo, a entrada mais recente diz respeito a um cientista que faleceu em 1984. (O editor se equivoca ao afirmar, na Apresentação, p. 31, que o biografado mais recente faleceu em 1981.) Além disso, nos casos de cientistas que aparecem tanto no DSB como no NDSB, o Dicionário de Biografias Científicas usa tão-somente a versão do primeiro.

Problemas não são insuperáveis

Parcial porque os 329 nomes escolhidos para a edição brasileira equivalem a uma amostra diminuta em relação ao material original: algo entre 5 e 7%, dependendo do acervo usado para comparação (DSB e NDSB ou apenas DSB). Em todo caso, um percentual bem inferior ao que o leitor é levado a imaginar ao ler o seguinte trecho da Apresentação (p. 31):

‘Para oferecer o Dicionário ao leitor brasileiro, a Contraponto teve que realizar uma adaptação: selecionamos os 329 ensaios que consideramos mais importantes e os apresentamos na íntegra. Nossa edição, com aproximadamente 8.250 laudas de texto, corresponde a cerca de 25% da edição original, em tamanho, mas nenhum ensaio sofreu mutilação.’

O editor está falando em percentual de laudas, uma informação meio descabida para os leitores; seria mais apropriado precisar o tamanho relativo da obra em percentual de entradas.

Por fim, é tendenciosa porque quase metade dos 329 nomes escolhidos é composta por matemáticos (101 nomes) ou filósofos (52). Distorção semelhante ocorre entre os cientistas naturais: são 56 físicos e 21 astrônomos, por exemplo, contra 17 químicos, sete geocientistas e apenas 34 biólogos (nenhum ecólogo!). Não é o caso de listar aqui os nomes que lamentavelmente ficaram de fora, mas cabe registrar que entre eles estão cientistas que viveram e trabalharam no país, como Fritz Müller (1821-1897) e Eugen Warming (1841-1924).

Nenhum desses problemas, porém, parece insuperável. Fica aqui, portanto, a expectativa de que os editores do Dicionário de Biografias Científicas continuem trabalhando duro e possam, em futuro próximo, oferecer ao leitor brasileiro material suplementar que venha reparar algumas das distorções encontradas nesses três primeiros volumes.

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Biólogo, autor de Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003) e A curva de Keeling e outros processos invisíveis que afetam a vida na Terra (2006)

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