Quinta-feira, 20 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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ARMAZéM LITERáRIO >

Significados distorcidos, idéias retrógradas

Por Cynthia Semíramis Machado Vianna em 26/05/2009 na edição 539

A atriz e escritora Maria Mariana optou por afastar-se do trabalho por dez anos, dedicando-se aos cuidados com quatro filhos. Agora, retoma a carreira lançando um livro sobre seus pensamentos como mãe. Em entrevistas, tanto ela quanto entrevistadores falam que suas opiniões são polêmicas. E polêmica, aqui deve ser entendida com o sentido de controvérsia, de proposta ou questão sobre a qual muitos divergem (Houaiss). Mas será que se tratam realmente de idéias polêmicas?

Desde Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que abandonou nos Enfants-Trouvés todos os cinco filhos que teve com Thèrese Levasseur), a maternidade tornou-se a única realização possível para mulheres. Sofia, no livro V do Emílio, só se realiza na maternidade e nos cuidados com marido e família. Durante o século 19, cientistas e médicos negavam estudos às mulheres, pois o estímulo ao uso do cérebro poderia lhes atrofiar os ovários, impedindo a maternidade. A primeira metade do século 20 recorreu ao elogio à maternidade e incentivo à família nuclear para, em tempos de guerra, aumentar o número de soldados e, em tempos de paz, incrementar o mercado consumidor.

A ‘missão’ feminina

A única interrupção nesses elogios rasgados à maternidade ocorreu em meados do século 20, com o movimento feminista. Foram questionadas a maternidade obrigatória, a proibição da interrupção da gravidez por vontade da gestante, a necessidade de casamento para constituir família, as dificuldades para conciliar trabalho e maternidade, a falta de políticas públicas para mães solteiras, os limites e possibilidades da paternidade, a falta de individualidade e autonomia das mulheres, que eram apenas mães e esposas, e até se chegou a analisar se o tão falado sentimento maternal seria algo inato ou construído socialmente. Dentre vários trabalhos, acadêmicos ou ativistas, merece destaque o clássico escrito pela filósofa Elisabeth Badinter, que dissecou o tema para concluir que a maternidade é um aprendizado social. Tudo isso para pregar uma nova forma de sociedade, em que a liberdade de escolha da mulher é fundamental, com a sociedade e o Estado se organizando para facilitar essas opções, sejam elas a maternidade, o trabalho remunerado ou ambas as possibilidades.

No entanto, apesar de tantos estudos e críticas, a lógica de Rousseau permanece em nossa sociedade. O elogio à maternidade está presente em toda a publicidade de dia das mães, e os cadernos de saúde e femininos são enfáticos em sugerir e traçar estratégias para a melhor gravidez possível: desde tratamentos contra infertilidade, até idades adequadas para engravidar, bem como cuidados maternos para se ter crianças saudáveis e inteligentes. Nas novelas, a maternidade é sempre o sentimento mais forte e poderoso, quebrando barreiras e salvando pessoas da ruína. A interrupção voluntária da gravidez é tratada como tabu. No noticiário, homens bradam contra mulheres que ‘violaram’ seus instintos ‘naturais’ de mãe, abandonando ou maltratando suas crias, enquanto nada dizem sobre os homens que geraram e abandonaram aquelas crianças. Mulheres que têm trabalho remunerado, seja por satisfação pessoal ou pura necessidade econômica, são pressionadas a se sentirem culpadas por não se dedicarem integralmente às crianças. A todo momento, as mulheres são lembradas de que ‘só as mães são felizes’ e que fugir da maternidade em tempo integral significa estar fora de uma ‘missão’ feminina.

Discurso centenário e simplificador

Curiosamente, são essas opiniões tradicionalistas que são veiculadas na mídia como polêmicas e transgressoras. Jornalistas têm usado com freqüência o termo ‘polêmico’ para se referir a idéias antigas, do século 18. As idéias realmente polêmicas, que questionam esse padrão santificado e obrigatório de maternidade, não estão solidificadas na sociedade. Mas a mídia ignora isso, tratando-as como se fossem padrão e parte da sociedade clamasse por um retorno à tradição. De forma sutil, subvertem o dicionário para reforçar o conservadorismo.

É por causa dessa inversão de significados que temos Maria Mariana sendo chamada de polêmica por defender que ‘amamentação é para a mãe que merece’ e que ‘Há mulheres que passam nove meses no shopping, comprando roupinhas, aí depois marcam a cesárea e pronto. Acabou o processo. Aí sabe o que acontece? Elas têm depressão pós-parto’ (ambas são transcrições de entrevista para a revista Época).

Estas são afirmações dignas da tradição que afirma que a realização das mulheres só ocorre na maternidade. Em princípio, não há nada de polêmico aí, tanto que muitas pessoas, inclusive na área de saúde, repetem esse mesmo discurso centenário e simplificador, depreciando as mulheres que não seguem o que se espera delas como mães, ou mesmo acreditando que a doença é uma rejeição ao papel de mãe.

Polêmica legítima é libertadora

E, se há gente reclamando dessas afirmações (há muitas pessoas fazendo isso, inclusive eu), estão preferindo uma nova abordagem de maternidade, que, esta sim, é polêmica, pois questiona essa lógica antiga de maternidade necessária que torna as mulheres obrigatoriamente felizes, abrindo espaço para a diversidade e para o questionamento, trazendo conforto e apoio para milhares de mães que não se enquadram dessa lógica tradicional. Nota-se aqui a mudança de paradigma, mas é necessário reconhecer que somos poucas ainda: uma minoria em expansão, e bastante controversa, posto que destoa do status quo.

Repetir argumentos de 300 anos atrás como se fossem uma nova tendência comportamental não é polemizar, é fingir modernidade enquanto se mantém o padrão conservador. Se o objetivo é mesmo criar polêmica, que tal dar voz a pensamentos que questionam e abrem novas interpretações para significados antigos? Ainda há muito a ser discutido, libertando as pessoas de visões estereotipadas e preconcebidas e possibilitando que, no caso da maternidade, este não seja o único caminho aceitável na vida de uma mulher. E, caso a escolha seja pela maternidade, que lhe sejam proporcionadas condições (e não julgamentos) para que ela tenha a vida que escolheu, seja se dedicando a cuidar das crianças, seja também desenvolvendo atividade profissional paralela.

Portanto, fica a sugestão para profissionais da comunicação: querem falar de polêmica? Procurem idéias que fujam dos papéis sociais tradicionais e falem do potencial dessas idéias para estimular uma vida mais livre e feliz. Se querem credibilidade, não confundam as palavras, chamando conservador de polêmico. A polêmica legítima é libertadora e está bem longe de ser um modelo único para a vida de todas as pessoas.

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Professora do Curso de Comunicação Social da UFMG, mestre em Direito pela PUC-MG e bacharel em Direito pela UFMG, Belo Horizonte, MG

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