Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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ARMAZéM LITERáRIO >

Simonal, quanta hipocrisia

Por Guilherme Cardoso em 19/05/2009 na edição 538

A imprensa está querendo recuperar a memória de Wilson Simonal. Quanta hipocrisia! Logo ela, a imprensa, a grande imprensa, responsável maior por dar crédito às acusações de dedo-durismo do cantor e, como vingança, colocar na ‘geladeira’ aquele ‘crioulo seboso, metido a besta’, como a ele se referia o ‘consagrado’ cartunista Henfil, nos anos 1960 e 70 do regime militar.

Eu vivi essa época, acompanhei os noticiários e era seguido de perto pelo regime militar. Não fui preso e nem me enchia de amores pelo Simonal. Mas recordo bem das notícias publicadas sobre ele. A maioria, discriminatória.

Não se esqueçam que nesta história tinha gente da Globo no meio (vide artigos de Mário Prata, em 1995, e Dênis de Moraes, em 1996), e foi no jornal O Pasquim e nas tirinhas das charges do cartunista Henfil que tudo começou. Divulgaram, sem apuração, igual ao que ainda fazem hoje, que o Simonal era um colaborador do regime militar, que havia usado agentes do Dops daquela época para surrar um sujeito, seu contador, que teria lhe dado um desfalque financeiro. Formou-se o corporativismo, veio o ‘gelo’ artístico e todas as portas se fecharam para ele.

Ostracismo completo

Foram mais de 30 anos de exílio no Brasil – e Simonal em completo ostracismo. Não fazia shows, não cantava em auditórios, suas músicas não tocavam nas rádios. A classe artística virou as costas para ele. Os amigos, se os tinha, sumiram. Em 2000, voltou à mídia. Morto, pobre, esquecido, desiludido, alcoólatra e traidor. Sem nenhuma prova concreta contra ele.

Não lhe deram anistia, como a muitos, nem as glórias e o dinheiro, como tantos receberam. Inclusive os do Pasquim. Agora, consciência pesada, a grande imprensa quer passar borracha nos fatos, esquecer o passado, tirar proveito da memória fraca do povo brasileiro e ganhar as primeiras páginas tecendo elogios à figura e ao talento do Simonal.

Até Chico Anísio, coitado, virou garoto-propaganda no Fantástico, menino de recado, constrangido, sem graça, doando alguns minutos, marketing do filme, querendo resgatar as ‘virtudes’ que nunca viram no Simonal. Que venham nos próximos domingos, o Ziraldo, o Jaguar e o Sérgio Cabral, o pai. Quanta cara de pau!

Se todos eram tão amigos do ‘crioulo’ Simonal, por que não o defenderam durante os longos anos que passou jogado às ‘feras’, no completo ostracismo? Coisas do ser humano. Hipocrisia! Entenda e aceite quem quiser!

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Jornalista, Belo Horizonte, MG

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