Segunda-feira, 09 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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Tecnologia e o futuro dos livros

Por The Economist em 03/04/2007 na edição 427

Em locais secretos e utilizando métodos secretos, os seres humanos vêm copiando uma enorme quantidade de livros para o Google, a maior empresa mundial de busca na internet. Não há dúvida alguma sobre o envolvimento humano (é possível identificar marcas de dedos em muitas páginas no sítio www.books.google.com), embora esta não seja uma característica da empresa, conhecida por ter um fetiche pela tecnologia purista.

O Google não divulga números precisos, mas o principal engenheiro do projeto, Daniel Clancy, dá pistas para uma estimativa sensata: o contrato que o Google tem com uma única universidade, a de Berkeley, estipula que esta deve digitalizar 3 mil livros por dia. O mínimo estipulado para as outras 12 universidades envolvidas no projeto pode ser inferior, mas o número de editoras também envolvidas é superior. Portanto, uma estimativa discreta sugeriria que o Google digitalizaria pelo menos 10 milhões de livros por ano. O número total de livros existentes é calculado em 65 milhões.

O que é um livro?

E o projeto do Google não é o único desse tipo. O Internet Archive, por exemplo, é uma organização sem fins lucrativos fundada em 1996 por Brewster Kahle, um idealista de São Francisco que pretende recriar uma moderna Biblioteca de Alexandria com todos os textos e vídeos existentes de domínio público. Também a Amazon vem copiando livros, assim como a Microsoft e o Yahoo!, os dois principais rivais do Google em ferramentas de busca na internet, e da mesma forma inúmeras bibliotecas pelo mundo afora. Para não serem barradas do baile, as editoras também o vêm fazendo. Mas o esforço do Google, em termos de escala e ambição, não tem precedentes.

À medida que os livros se tornam eletrônicos, surgem novas perguntas, tanto filosóficas quanto comerciais. Como irão as pessoas ler, fisicamente, livros no futuro? Irá a tecnologia ‘desatar’ livros, tal como o fez com outros tipos de mídia, como álbuns de música? E, conseqüentemente, mudarão os hábitos de leitura? O que acontecerá quando os livros tiverem links entre si? E, enfim, o que é, afinal, um livro?

Analogia óbvia

As mudanças serão menos prováveis no ambiente físico dos livros. É certo que existem livros eletrônicos; o site mais conhecido é o da Sony Reader, um engenhoso mecanismo do tamanho de um livro criado pela empresa de produtos eletrônicos do mesmo nome. Atualmente, a Sony dispõe de 12 mil livros, acessíveis para baixar pela internet, mas ‘nossa missão não é a de substituir o livro impresso’, diz Ron Hawkins, diretor de marketing da Sony Reader.

Existe uma analogia óbvia entre o que os iPods da Apple fizeram com os aparelhos de CD e o que os livros eletrônicos podem vir a fazer com a página impressa, mas é improvável que essa mudança seja tão abrangente. A diferença mais simples está no fato de que transferir CDs antigos de música para iPods é uma operação fácil, enquanto transferir seus velhos livros pessoais para um livro eletrônico é impossível.

Migração para a internet

Então, quem irá ler os milhões de páginas que o Google e seus colegas vêm digitalizando com tanto empenho? Algumas pessoas as lerão na tela, outras usarão o Google para avaliar o sabor de livros que depois comprarão, impressos, ou pegarão numa biblioteca, e muitas outras irão à página em busca de trechos específicos que as interessam.

As principais mudanças provavelmente ocorrerão com o próprio conceito de livro. E aqui, de fato, pode estar para alguns gêneros de livros como a Apple está para a música ou o YouTube (agora, também integrado ao Google) tem estado para o vídeo. Para os jovens ouvintes, os álbuns morreram. Foram substituídos por listas com canções individuais a serem compartilhadas com amigos.

No caso dos livros, isso já ocorreu com as enciclopédias. A Wikipedia – que é gratuita, aceita contribuições e é acessada pela internet – já vem abocanhando parte das vendas das alternativas impressas. Portanto, livros que tradicionalmente as pessoas não lêem na íntegra, ou que exijam atualização freqüente, irão possivelmente migrar para a internet e talvez mesmo deixar simplesmente de ser livros. Catálogos telefônicos e dicionários – e provavelmente livros de culinária e manuais – irão cair nessa categoria.

Links para frases específicas

Com livros de não-ficção, a situação é mais sutil. Muitos livros de não-ficção exprimem uma idéia intelectual. Tradicionalmente, segundo Seth Godin, blogueiro e autor de oito livros sobre marketing, a única maneira de difundir essa idéia satisfatoriamente implica inseri-la num livro de 300 páginas. ‘Se você tem uma idéia de 50 páginas, ela não lhe dará lucro algum’, diz ele, acrescentando que por esse motivo muitos livros de não-ficção de 250 páginas acabam não sendo lidos. A independência desse tipo de inflexibilidades pode poupar muito tempo ao autor.

Os livros de não-ficção também se beneficiarão de outra mudança, que vem com a digitalização. Assim como as páginas da web, os livros digitalizados podem importar e exportar hyperlinks. Atualmente, no site www.books.google.com, só existem links para o livro inteiro. Mas futuramente, segundo o diretor Daniel Clancy, do Google, poderão ser feitos links com frases ou palavras específicas dentro dos livros. Notas de rodapé, citações e bibliografias terão, obviamente, links ao vivo.

Algoritmo de Page

Isto acarreta vários benefícios. Irá ajudar na pesquisa escolar, uma vez que torna as fontes fundamentais muito mais acessíveis. E reduzirá as tarefas dos leitores universitários – desde anotar a localização de um livro, fuçar pela biblioteca, puxar o livro da estante, até entrar na fila do xerox – para a esforço insignificante de clicar um mouse.

Esse tipo de link também tornará mais fácil a descoberta do livro, por meio de motores de busca. À medida que se desenvolvem estruturas de links em torno de livros, algoritmos de busca poderão contar os links recebidos como ‘votos’, dando um peso superior aos links recebidos de lugares muito citados e um peso inferior aos mais obscuros. A cultura de citações da literatura acadêmica já vem trabalhando, offline, dessa forma. Foi isso, na realidade, que deu a Larry Page, um dos co-fundadores do Google, a idéia original para seu algoritmo de busca que ele ironicamente chamou PageRank (graduação de Page, homônimo de página).

Leitor de ficção

E quanto a todos os outros gêneros de livros que preenchem diferentes necessidades humanas? Alguns tipos de ficção – contos, assim como novelas – irão migrar, com certeza, para a internet e deixarão de ser livros. Muitos fãs do fantástico, por exemplo, já deixaram os livros de lado e navegam por ‘mundos virtuais’, como World of Warcraft, no qual heróis e heroínas musculosos se unem para exterminar dragões e congêneres. Também a ficção científica poderá ir nessa direção e é sustentável que já venha sendo criada por ‘residentes’ de mundos eletrônicos, como Second Life.

A maioria dos contos, entretanto, nunca achará uma mídia melhor do que o livro impresso. É por esse motivo que os leitores, absortos no enredo do conto, não querem ser interrompidos de maneira alguma, enquanto em todo o tipo de mídia online abundam distrações (até um hyperlink é uma interrupção). As pessoas não lêem ficção para cumprir uma determinada tarefa, tal como o fazem com livros de referência ou manuais escolares. Dicionários e livros de receitas eletrônicos para consulta aleatória podem ser úteis; não é o caso de livros de contos para consulta aleatória.

‘Lembranças’ de quando líamos

E quanto a pequenos contos e poemas? Como são curtos, podem se adequar à nova mídia e dar certo na internet, sem a necessidade de serem impressos. Passageiros de ônibus indo para o trabalho poderiam receber seu haikai ou seu soneto diário por seus telefones celulares. Também poderia utilizar a nova mídia para se deleitar com poesia de uma maneira mais tradicional. ‘Os contos de histórias começaram como história oral’, diz Adam Smith, diretor do projeto de livros do Google, ‘e portanto, uma volta parcial a essa forma seria natural.’

Mas é improvável que mesmo as antologias de contos e poesia, assim como novelas, desapareçam. As pessoas querem ser conduzidas por outras. E também querem um tipo de mídia apropriado para ler sem pressa – na cama, na banheira ou na praia. Acima de tudo, querem o livro impresso na função do que lhes é revelado pela digitalização. Os livros não são, essencialmente, artefatos, nem necessariamente veículos para idéias. São, sim, como diz Seth Godin, ‘lembranças de como nos sentíamos’ quando líamos alguma coisa. E isso é o tipo de coisa que muito provavelmente as pessoas continuarão comprando.

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www.economist.com

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