Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > LITERATURA E CATÁSTROFES

Terremoto no Chile

Por Margarete de Toledo Ressurreição em 09/03/2010 na edição 580

Terremoto no Chile (Das Erdbeben in Chili – 1807) é o título de um clássico conto da literatura alemã escrito por Heinrich Von Kleist (1777-1811).

Apesar do título, acredita-se que a fonte histórica para a narrativa de Kleist foram os relatos de Kant e de outras pessoas da época acerca do terremoto que devastou Lisboa e assombrou a Europa em 1755.

Kleist traz como tema para seu conto a estória de dois amantes, Jeronimo Rugera e Donna Josephe, que são condenados por cometerem o pecado do amor, desafiando os padrões morais da época. O autor denuncia neste conto a hipocrisia e a sociedade reacionária de seu tempo. O casal é milagrosamente salvo por um terremoto que atinge a cidade de Santiago e os liberta de seus cativeiros em meio ao tumulto e ao desespero.

As imagens do terremoto são descritas por Kleist de maneira cinematográfica e nos remetem às imagens impactantes dos terremotos que, atualmente, com toda a tecnologia da mídia, assistimos pela televisão e internet.

No conto de Kleist, após o terremoto, o sentimento de vulnerabilidade que atinge as pessoas faz com que elas esqueçam seus rancores passados, ajudando-se mutuamente e cometendo atos heróicos para se salvarem uns aos outros. Assim, Jeronimo e Josephe, libertos novamente, misturam-se à população.

Busca irracional por culpados

Posteriormente, o medo de que nova desgraça pudesse ocorrer leva a população a participar de uma missa coletiva na única igreja que continua em pé na cidade de Santiago. Durante o inflamado sermão na igreja, agradecendo a Deus por permitir que alguns ainda estejam vivos e em condições de estarem ali, atribui-se a culpa pelo terremoto aos dois amantes pecadores que se encontram presentes na cerimônia. Eles são reconhecidos e apontados na multidão e então os nobres sentimentos de solidariedade pós-terremoto desaparecem imediatamente.

As pessoas são acometidas por uma fúria irracional contra os amantes que se demonstra muito mais destruidora do que o próprio terremoto.

Quando do recente terremoto do Haiti, ao ouvir pela imprensa os comentários do cônsul haitiano no Brasil sobre o que ele considera maldição de seu povo, lembrei-me do conto de Kleist. O cônsul retratou-se, desculpou-se. Porém, no conto de Kleist, após o sermão na igreja, não há tempo para desculpas ou retratações.

O medo da morte e o desejo de controlar a natureza fazem com que as pessoas busquem culpados de maneira irracional. Culpa-se tudo: a fé, a falta de fé, o atraso, o progresso e até os animais – os gases das vacas pelo aquecimento global! Essa busca irracional é fruto da nossa consciência de que somos impotentes diante dos fatos naturais.

O dever do Estado

Demonstra ainda a incapacidade de lidar com questões concretas que acarretam mortes e sofrimento após as catástrofes: a falta de infraestrutura das cidades em caso de emergência, a ausência de hospitais e equipes de resgate, construções irregulares etc.

Para amenizar os efeitos dos desastres naturais que não podemos evitar, o Estado deve ser atuante fornecendo médicos, bombeiros, máquinas e todo o tipo de assistência necessária. Observamos nas imagens diárias que nos são transmitidas através da mídia que os erros e omissões do Estado antes e depois das catástrofes naturais são responsáveis por mais mortes e sofrimentos do que o próprio desastre natural.

Mais uma vez podemos fazer uma analogia com o conto de Kleist.

Se o Estado estiver sempre presente cumprindo o seu dever de fornecer apoio à população, colocando ao seu dispor os recursos possíveis da ciência e tecnologia, não precisaremos buscar explicações no sobrenatural ou culpar inocentes, já que estaremos mais ocupados tentando salvar vidas.

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Advogada e tradutora, São Paulo, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/03/2010 Ricardo Camargo

    É assombroso o conto de Kleist, um aristocrata prussiano, que fez, no particular, uma reflexão admirável sobre o modo como se podem detonar as espoletas da fúria multitudinária, em busca de culpados para as desgraças. Aliás, há dois jovens casais no conto, que são amigos: um, o de ‘pecadores’, o outro, composto de uma parelha casada, e ambos com bebês. E o homem casado tenta proteger tanto o casal de ‘pecadores’ – que acaba sendo linchado pela multidão enfurecida – quanto o próprio bebê destes, no que acaba sendo bem sucedido, porque, na fúria, a turba acaba por matar o bebê fruto do matrimônio legítimo.

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