Sábado, 17 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ARMAZéM LITERáRIO >

Um autor ressuscitado

Por Antonio Gonçalves Filho e Ariel Palácios em 24/08/2010 na edição 604

A curta vida do escritor e jornalista argentino Rodolfo Walsh (1927-1977), um dos milhares de desaparecidos na última ditadura argentina, não permitiu que ele tirasse partido do prestígio que tornou seus livros leitura obrigatória dentro e fora da Argentina. Dois deles serão lançados no Brasil no final de setembro, Operação Massacre (tradução de Hugo Mader), pela Companhia das Letras, e Essa Mulher e Outros Contos (traduzido por Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni), pela Editora 34. Ambos saem no País como parte do Programa Sur de Apoio à Tradução, do governo argentino. O primeiro, sua obra mais conhecida, lançada em 1957 – um ano após o histórico perfil que Truman Capote fez de Marlon Brando nos EUA – contribui para o advento do que depois seria conhecido como ‘new journalism’ (novo jornalismo), gênero que cruza a narrativa jornalística com a literária. O segundo, Essa Mulher, traz contos em sua maioria inéditos no Brasil e publicados em vida por Walsh, que teria sido assassinado numa emboscada preparada pelo regime do general Jorge Rafael Videla, segundo seus companheiros de militância.

Walsh integrou o grupo guerrilheiro Montoneros, usou vários codinomes e se engajou na resistência contra a ditadura militar, sendo acusado de ser o cérebro que arquitetou o atentado a uma cafeteria em Buenos Aires em julho de 1976, dois meses antes do assassinato de sua filha María Victoria, também montonera. Abalado, Walsh escreveu uma carta aos amigos, em que selou, de certa maneira, o próprio destino. Nela, o escritor dizia que o cemitério seria ‘nossa memória’, referindo-se à necrocracia que marca desde tempos imemoriais a vida política argentina, sempre exumando corpos de líderes e nunca livre dos fantasmas do passado. Evita, por exemplo.

A mãe dos descamisados abre o conto que dá título ao livro Essa Mulher sem ser ao menos mencionada uma única vez (leia texto na página ao lado). É como se Walsh soubesse que depois dela iriam surgir outras Evitas para ocupar o lugar da mãezinha morta da nação, que ronda a Casa Rosada como um espectro. Sua morte, portanto, é vista como uma imolação em nome da memória a que se referia o escritor na carta sobre o assassinato da filha. Se a Argentina tem facilidade para esquecer as atrocidades do passado, Walsh seria o homem que iria lembrar para sempre a matança decretada em 1956 por outra ditadura, a de Pedro Eugenio Aramburu (1955-1958). Ela foi o resultado trágico do levante contra Aramburu – ocorrido a 9 de junho de 1956, sob o comando dos generais Juan José Valle e Raul Tanco – reprimido com violência pelo regime, que executou de forma sumária 30 pessoas. É essa a história que Walsh conta em Operação Massacre.

No final de 1956, o escritor, então jornalista, estava jogando xadrez em um café na cidade de La Plata, capital da província de Buenos Aires. Lá se falava mais de enxadristas que de Aramburu ou do almirante Isaac Rojas, autores do golpe militar contra o presidente Juan Domingo Perón um ano antes, em setembro de 1955. Inesperadamente, quando todos estavam concentrados nas jogadas, alguém disparou uma informação lacônica: ‘Há um fuzilado que está vivo.’ O vivo era uma das pessoas marcadas para morrer justamente em junho daquele ano no lixão de León Suárez, na Grande Buenos Aires. Ali, militares e civis peronistas liderados por Valle foram massacrados, antes mesmo de ser decretada a lei marcial. No entanto, alguns deles, gravemente feridos, sobreviveram e se esconderam.

Walsh deixou os peões e o rei de lado e saiu para investigar a chacina. Suas reportagens foram publicadas no jornal Mayoría. Na sequência, os textos foram compilados em formato de novela e publicados em Operação Massacre. Não é um simples livro-reportagem. Trata-se de um sofisticado exercício literário que exigiu de Walsh muita dedicação e atenção. Teve nada menos que três revisões depois da edição original (em 1964, 1969 e 1972). Especialistas examinaram todas as versões e concluíram que as transformações da escritura permitem rastrear as diferentes propostas de leitura sugeridas por seu autor. Mais uma vez, engana-se quem imaginar que Operação Massacre aborda apenas a chacina de anônimos civis pela ditadura de Aramburu. Walsh sugere novos pactos de leitura a cada edição. Não por acaso, seu livro tem sido classificado como uma peça literária de não-ficção, precursor da novela considerada pioneira no campo do new journalism, A Sangue Frio (1966), de Capote.

Pode-se usar a ficção para narrar o horror? Essa é a pergunta que se fez o escritor argentino Ricardo Piglia ao escrever um texto antológico sobre o colega, Rodolfo Walsh y El Lugar de La Verdad. A resposta estava numa declaração do próprio Walsh, feita em 1970. Ele defendia que a denúncia política elevada à categoria de novela se tornava inofensiva, ou seja, sacralizava-se como arte. Por outro lado, o documento, o testemunho, abriria imensas possibilidades artísticas. Foi o caminho que ele escolheu. Operação Massacre, diz Piglia, ‘é uma resposta ao velho debate sobre o compromisso do escritor e a eficácia da literatura’. Walsh opta pelo relato documental para fazer boa ficção, retomando, segundo Piglia, uma tradição que remonta a Facundo, o clássico de Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888).

O escritor, continua Piglia em sua análise, é um ‘historiador do presente, que fala em nome da verdade’, um autor que denuncia os meandros do poder. Sua Carta Aberta à Junta Militar, enviada pouco antes de seu desaparecimento é, segundo o autor de Dinheiro Queimado (Plata Quemada), ‘o exemplo mais alto de sua escritura política’. Para Walsh, afirma Piglia, a ficção seria a arte da elipse, o que explica sua escritura de caráter alusivo e sua construção visceralmente contrária às simplificações do realismo social. O jornalismo, conclui o ficcionista, seria sobretudo uma forma de fazer circular a verdade, mas sua literatura, segundo Piglia, faria uso de duas poéticas, a do testemunho pessoal e a do panfleto – o que inclui o citado Sarmiento e nacionalistas como o cético Martínez Estrada.

O estilo preciso de Walsh fica claro nesse derradeiro texto-testamento, Carta Aberta à Junta Militar, declarou ao Estado o jornalista Carlos Ulanowsky, autor de diversos livros sobre a história do jornalismo argentino. A ‘carta aberta’ inclui uma longa lista dos crimes contra a Humanidade cometidos pela ditadura militar em seu primeiro ano. ‘Não é panfletário. É um texto de uma densidade informativa impressionante’, afirma Ulanowsky. ‘A todos nós, jornalistas, nos ensinaram que era preciso trabalhar com a verdade, que esse era o capital principal do jornalismo’, continua. ‘No entanto, Walsh, em diversas investigações, disfarçava-se, tal como o alemão Günter Wallraff, que escreveu Cabeça de Turco’, compara. ‘Ele não vacilava em ser outro para buscar a verdade.’ Contam que, ao ser encontrado pelos militares que o teriam assassinado, ele estava vestido como um ancião, alguém 25 anos mais velho.

Walsh, na carta, acusava o governo de banir os partidos políticos, amordaçar a imprensa, perseguir e aprisionar milhares de pessoas, torturar militantes e criar campos clandestinos para executar advogados, juízes, jornalistas e analistas internacionais. O escritor colombiano Gabriel García Márquez, Nobel de literatura de 1982, considera a carta ‘uma joia da literatura universal’. Eles se conheceram em 1959, quando Walsh foi para Cuba, onde havia triunfado a revolução de Fidel Castro. Ambos criaram a agência de notícias Prensa Latina.

Rogelio García Lupo, jornalista, companheiro de militância política na juventude e colega de trabalho de Walsh em Cuba e na Argentina, afirmou ao Estado que seu falecido amigo se destaca mais de três décadas após sua morte ‘pela qualidade do texto, sua marca de autor’. García Lupo e Walsh divergiam sobre a implementação da revolução à moda cubana na Argentina. ‘A analogia com nosso país foi um erro grave’, argumenta García Lupo. ‘Isso foi um suicídio, o que ficou demonstrado’, constata. ‘Enfim, foram decisões pessoais.’ O jornalista conta que perdeu contato com Walsh meses antes de sua morte. ‘Ele o fez por motivos de segurança, pensando em mim, já que eu não estava envolvido com a guerrilha dos montoneros.’ Ocasionalmente, García Lupo recebia alguma mensagem de Walsh. ‘Só fiquei sabendo de seu assassinato dias ou semanas depois.’

Foi em 1970 que Walsh começou sua atividade política de resistência aos governos militares junto à organização nacionalista Montoneros. Seu nome de guerra tinha um toque irônico, professor Neurus, referência ao desenho animado de mesmo nome sobre um cientista maluco que usava óculos de grossas lentes como ele. Com o início da última ditadura, em 1976, Walsh criou uma rede de informação que operava de forma secreta, a Agência de Notícias Clandestina (Ancla). No dia 25 de março de 1977, Walsh colocou nas caixas de correio localizadas nas imediações do Congresso Nacional os envelopes que continham sua carta à Junta Militar, também enviada às principais redações do país.

Walsh estava na esquina das avenidas San Juan e Entre Ríos quando um grupo de militares da Escola de Mecânica da Armada (Esma), o maior centro de torturas da capital argentina, controlado pela Marinha, o encontrou. Um dos oficiais disse posteriormente que ele tentou se defender com uma pistola. Outros relatos indicam que Walsh – à beira da morte, sangrando abundantemente, com o tórax quase partido pelos tiros – teria sido colocado dentro da viatura militar e levado à Esma. Seu corpo nunca foi encontrado.

‘Ele me disse, pouco antes de morrer, que se orgulhava de ser combatente’, declarou há poucos anos a filha do jornalista, Patricia Walsh, ex-deputada de esquerda. Em outubro de 2006, 12 militares acusados de envolvimento na morte de Walsh foram detidos. Os oficiais estão atualmente sendo julgados pelo assassinato do jornalista.

Descendente de irlandeses, Rodolfo Walsh nasceu no vilarejo de Lamarque, próximo à cidade de Choele-Choel, que fica na província de Río Negro. Cursou o ensino fundamental numa escola irlandesa católica. A experiência de ter um sobrenome com aquela origem não foi das mais agradáveis para o garoto. Vítima de bullying escolar – a mesma prática ameaçadora disseminada hoje entre os estudantes, especialmente pela internet –, o menino Walsh guardaria na memória as perseguições da molecada, recontando mais tarde essa experiência em seus contos. Sérgio Molina, cotradutor do livro Essa Mulher e Outros Contos, observa que essas lembranças da infância fazem Walsh trabalhar num registro quase bíblico, marcado por uma linguagem violenta. ‘Histórias como Um Quilo de Ouro são exemplos de uma literatura que combina lances autobiográficos com ficção.’

Outro conto que relembra os anos de escola é Irlandeses Atrás de Um Gato, sobre um garoto de 12 anos com cara de ‘limão verde’, fraco e com um modo inumano de se mover. Walsh se vê solitário, indefeso, em meio a uma autêntica massa disforme de garotos perversos. Ricardo Piglia, na entrevista que acompanha a edição brasileira de Essa Mulher, fala sobre a textura desses contos, definindo-a também como uma escritura bíblica e de alguma forma relacionada ao irlandês James Joyce e ao americano William Faulkner. Walsh concordava com ele, especialmente quando falavam de Joyce, por causa de algumas histórias suas ambientadas em colégios de padres, mas se sentia mais próximo de Lord Dunsany (1878-1957), precursor da literatura fantástica e também campeão de xadrez.

Rodolfo Walsh acreditava que era preciso ‘dessacralizar’ a literatura. Naquela mesma entrevista a Ricardo Piglia, ele defende que ‘o Ocidente fez do escritor uma imagem tão monstruosa como da atriz: a da puta do bairro’. Borges, segundo Walsh, foi exceção: ‘Ele preservou sua literatura confessando-se de direita.’ Nenhum escritor de direita, argumenta, se questiona se em vez de fazer literatura não seria melhor entrar para a Legião Cívica. Para ele, não bastava ser de esquerda para escrever bem. Era preciso suar. E ler José Hernández tanto como a Leopoldo Marechal, Roberto Arlt e Juan José Saer. Essa é a grande Argentina que sobrevive aos ditadores, à barbárie, aos vendavais assassinos da ignorância.

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Evita, insepulta em um conto

Antonio Gonçalves Filho

A qualidade da literatura argentina sempre dependeu da qualidade de seus monstros, escreveu o crítico Carlos Gamerro. De Rodolfo Walsh, Gamerro disse numa entrevista que ele cumpriu o papel que todos esperam de um escritor nas ditaduras: que seja a garantia da palavra diante do silêncio e da verdade diante do ocultamento. Walsh foi além disso. Seus contos revelam uma atitude distinta de Operação Massacre. ‘Um uso político da literatura deve prescindir da ficção’, escreve Ricardo Piglia num ensaio sobre ele. ‘Esse é o grande ensinamento de Walsh’, conclui, defendendo que sua construção literária ‘é antagônica à estética urgente do compromisso’.

Piglia cita como exemplo um dos contos de Essa Mulher, intitulado Cartas. Nele, partindo de um povoado da província de Buenos Aires nos anos 1930/1940, Walsh, segundo Piglia, ‘constrói um pequeno universo joyciano, uma espécie de microscópico Ulisses rural’. De fato, a garota Estela, que começa o conto desenhando na paredes com os dedos, traduz de maneira trágica a amargura de alguém condenado a viver em meio a latifundiários e analfabetos.

Dois dos contos de Essa Mulher foram publicados anteriormente no Brasil, dentro de antologias temáticas organizadas por Flávio Moreira da Costa: o que dá título ao livro e Nota de Rodapé. O primeiro é uma paródia da necrocracia argentina. Começa com um coronel elogiando a pontualidade ‘germânica’ de um jornalista que vai entrevistar o militar sobre a exumação do cadáver de uma mulher (Evita, nunca mencionada). À medida que o repórter vai descobrindo falsas telas de Jongkind e Figari nas paredes do coronel, o leitor forma igualmente o retrato do patético oficial, que enterra Evita de pé, como Facundo, ‘porque era macho’. Em uma só frase, Walsh fala do passado remoto argentino, citando o caudilho Juan Facundo Quiroga, sepultado, de fato, em pé, associando-o ao corpo insepulto da mãe dos descamisados.

Os melhores contos do livro fazem parte dessa primeira parte, extraída de Os Ofícios Terrestres, publicado originalmente em 1965. Seguiram-se Um Quilo de Ouro (1967) e Um Escuro Dia de Justiça (1973). De todos, o mais tocante é Nota de Rodapé, sobre o suicídio de um tradutor. É dele a frase que ecoa pelo território argentino: ‘Ninguém pode viver com os mortos, temos de matá-los dentro de nós, reduzi-los a uma imagem inócua, para sempre segura na neutra memória.’

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Diário a salvo dos militares

Ubiratan Brasil

Uma ação entre amigos permitiu que os papéis pessoais de Rodolfo Walsh não se perdessem. Alguns dos documentos que foram pilhados do arquivo do jornalista e escritor na mesma noite de seu desaparecimento, a 25 de março de 1977, foram recuperados – alguns de maneira heroica, pois envolveram riscos – e, unidos, formaram o volume Ese Hombre y Otros Papeles Personales, lançado na Argentina em 1995 e reeditado em 2007, pela Ediciones de La Flor, com acréscimos e ajustes preciosos.

Trata-se da reunião de escritos produzidos entre 1957 e 1976. Walsh era um autor zeloso com datas, dono de uma caligrafia apurada e pouco afeito a rasuras. A essência do material preservado revela um criador preocupado com seu ofício – ‘um viciado em literatura’, conforme comentário de Ricardo Piglia.

O primeiro texto é uma pequena autobiografia. Ali, Walsh brinca com o próprio nome (‘Não serve para presidente da República’) e lembra com carinho do pai (‘Falava com os cavalos. Um o matou, em 1947’) e da mãe (‘Vivia em meio a coisas que não gostava: o campo, a pobreza’) e com desprezo do primeiro livro (‘Escrevi em um mês, sem pensar na literatura, apenas na diversão e no dinheiro’).

São os escritos finais, no entanto, os mais emocionantes. Em outubro de 1976, Walsh descobre uma filha – a mais velha, Victoria – entre os assassinados do dia pelo regime militar. ‘Não pude me despedir. Morremos perseguidos, na obscuridade. O verdadeiro cemitério é a memória.’ E arremata: ‘Gostaria de dormir e acordar em um ano’.

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