Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > VENEZUELA CONFLAGRADA

Um clássico sobre Chávez

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 02/01/2006 na edição 362

O livro-reportagem escrito por Pablo Uchoa é dividido em duas partes e a obra tem tudo para se tornar um clássico. Sua descrição dos eventos que levaram e mantiveram Hugo Chávez no poder é precisa e, na grande maioria das vezes, isenta.

É interessante notar como o abismo social na Venezuela é muito parecido com o que existe no Brasil. A Venezuela tem uma paz ‘social mantida em banho-maria, assentada na alienação rotineira das tensões sociais.’ A tentativa de golpe de 11 de abril de 2002 provocou ‘uma sociedade dividida, agora não só pela brutal desigualdade na distribuição de renda, mas também segundo a posição política de cada indivíduo’.

A mídia local apoiou o golpe de maneira que ‘a população oferece – e pede – ajuda à imprensa estrangeira, desconfia da mídia local e não hesita em intimidar seus profissionais’. Essa divisão perdurou mesmo depois da tentativa de deposição de Chávez, porque ‘conforme ela é contada por chavistas ou antichavistas’, a história assume contornos absolutamente diferentes. O golpe foi um ‘período em que a verdade não passou de um conceito facilmente manipulável segundo as conveniências políticas’.

As suspeitas de envolvimento da CIA são grandes porque um dos conspiradores contra Chávez, Issac Peres Recao, é ‘conhecido na Venezuela como o Rambo nacional, por ter recebido, nos Estados Unidos, treinamento especializado em combate pessoal, inteligência militar, uso de armas e preparação de explosivos.’ Além disto, o único país a apoiar o golpe foi os EUA, que em pronunciamento do Departamento de Estado afirmou que ‘as ações antidemocráticas cometidas ou alentadas pela administração Chávez provocaram a crise’.

É interessante notar que quando ‘Chávez foi eleito em 1998, todas as instituiçõees estavam em crise: governo central, Poder Legislativo, Judiciário e partidos políticos. O presidente era um oásis em meio a um deserto de instituições fracassadas’. Mas na época os EUA estavam perfeitamente satisfeitos com aquele país, notadamente porque os interesses americanos em solo venezuelano não sofriam qualquer oposição ou questionamento. Mesmo sendo o ‘centro da política venezuelana desde que se elegeu’ Chávez não puniu os golpistas. A crise de 11 de abril de 2002 parece ter abalado os alicerces do chavismo obrigando o comandante a repensar suas relações com a oposição.

A propósito, segundo o autor ‘o atrito que Hugo Chávez mantém permanentemente com seus opositores se deve ao fato de ser, ele próprio, o único interlocutor de seu governo. A administração Chávez sofre de um personalismo crônico que, se por um lado concentra poderes nas mãos do presidente, por outro lhe imputa todos os males da República’. Chávez sofre as conseqüências de seu absolutismo num Estado que não é absoluto mas que em razão de ‘um vácuo institucional, onde os líderes não correspondem às aspirações’ populares, tendendo a se tornar absoluto.

‘Braço armado’

Mas não são só os pobres que adoram Hugo Chávez. O autor afirma que presenciou empresários poderosos, engravatados e analistas pretensamente imparciais se desmancharem em reverências ao ‘El Comandante’. As informações fornecidas pelo livro nos permitem traçar um paralelo entre Chávez e Hitler. São notáveis as semelhanças entre ambos. Os dois foram militares e tentaram chegar ao poder através de um golpe de estado, cumpriram pena e adoram a via eleitoral para realizar seus projetos políticos. Hitler hostilizou a França e a Inglaterra, potências de sua época. Chávez não perde uma oportunidade de hostilizar o governo dos EUA. Ambos conseguiram uma maioria esmagadora no parlamento, reformaram as constituições e desenvolveram audaciosos programas de rearmamento das forças armadas de seus países.

Como Chávez, Hitler também conseguiu o apoio em todas as camadas da sociedade alemã. O nacionalismo acentuado foi importante na construção do ideário político do nazismo e do chavismo. As ambições territoriais de Chávez na Guiana podem ser comparadas ao expansionismo programático de Hitler. A única diferença aparente entre as doutrinas nazista e chavista é a questão racial.

Na segunda parte o autor nos dá um panorama bastante detalhado da história recente da Venezuela. Não é à toa que Chávez sempre associa sua imagem a de Simon Bolívar. Segundo Uchoa ‘cultuar a figura do Libertador é uma tradição muito importante na Venezuela, e suas raízes históricas estão profundamente arraigadas na cultura local.’

Se as semelhanças sociais entre a Venezuela e o Brasil são muitas, segundo o autor as diferenças militares são imensas, pois na ‘Venezuela, ao contrário do que acontece nas Forças Armadas do Brasil, Chile, Argentina, México e Colômbia, onde o setor militar é encarado apenas como abrigo de idéias reacionárias e braço armado do poder constituído, os oficiais de menor patente se mostram sensíveis ao discurso social, e não era raro, que famílias de classe pobre tivessem um filho no Exército e outro no Partido Comunista’.

Não concordamos com esta avaliação, pois em 1935 e 1964 o PCB tinha penetração no Exército. O próprio Luís Carlos Prestes foi militar antes de ser aliciado pelos comunistas.

História conturbada

Para compreender a ascensão de Hugo Chávez ao poder é preciso conhecer a história do fracasso econômico da Venezuela. Na década de 70 o petróleo ‘bancou seu crescimento. Os recursos externos ajudaram o governo a manter artificialmente gastos muito acima dos ingressos, e o produto interno bruto avançou 7% em 1977, desacelerando para 3,5% em 1978. A contrapartida foi o aumento da dívida externa, que atingiu US$ 27 bilhões em 1984’. Na década seguinte ‘o PIB recuou 6,5%, com o desemprego chegando a 11%. O salário real depreciou 39% e a inflação saiu de 12% para 135%’.

Por razões diferentes, os venezuelanos empobreceram tanto quanto os brasileiros. O resultado da miséria e do sofrimento da população foi o Caracaço, revolta espontânea que sacudiu Caracas em 27/02/1989. Naquela oportunidade ‘ônibus eram apedrejados e queimados em todo o país, e lojas, supermercados, shopping centers, pequenos comércios, nada escaparia aos saques de uma turba em que já não se podia discernir o que eram trabalhadores em protesto ou simples miseráveis famintos. Gangues urbanas se juntaram à confusão para promover vandalismo, roubos e invasões de estabelecimentos’.

O Caracaço ajuda a entender a tentativa de golpe em 1992. Tudo o que ocorreu depois, da eleição de Chávez às crises políticas durante seu mandato, está de certa maneira ligado ao Caracaço. A revolta popular desorganizada que degenerou em vandalismo foi apenas o sintoma de uma sociedade gravemente doente em que ‘os 10% mais pobres da população detém apenas 1,6% da renda nacional, e os 10% mais ricos, 32%. A pobreza alcança 85% da população, enquanto as classes A e B, somadas representam somente 3,5% do total’. Ninguém deve estranhar se uma guerra civil ocorrer na Venezuela com ou sem Hugo Chávez.

O livro cobre, ainda, o período que vai da reeleição do ‘El Comandante’ até a greve deflagrada pela oposição que paralisou o país. Os detalhes da política econômica e externa de Chávez são revelados. Os da atuação brasileira durante a greve também.

Quem quiser conhecer um pouco da conturbada história recente da Venezuela deve recorrer a Pablo Uchoa, cujo trabalho merece respeito e admiração.

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Advogado, Osasco (SP)

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