Domingo, 18 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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ARMAZéM LITERáRIO >

Um crime contra a sociedade

Por Thaís Cordeiro Leite em 25/08/2009 na edição 552

Com a derrubada da Lei de Imprensa e a não obrigatoriedade do diploma, o jornalismo atual começa a sofrer uma mudança no processo de produção de notícias, na sua relação com a sociedade e com as fontes de informações. Estes fatos podem ajudar, através da lei, a legitimar o poder e o controle social que está nas mãos da elite brasileira.

O controle de informação, juntamente com os interesses políticos, ideológicos e econômicos, tem sido protagonista da pouca credibilidade das informações ‘consumidas’, dia-a-dia por toda a população. No entanto, neste processo de reconhecer quais são as causas para se ter um jornalismo de qualidade e de ética, a autocensura talvez seja a principal delas e se torne omissa entre os próprios estudantes e profissionais da categoria.

Segundo Bernardo Kucinski, a autocensura é definida como uma supressão intencional da informação ou parte dela pelo jornalista ou empresa jornalística, de forma a iludir o leitor ou privá-lo de dados relevantes. E, para ele, trata-se de uma importante forma de fraude porque é uma mentira ativa, oriunda não de uma reação instintiva, mas de intenção de esconder a verdade.

Por este motivo, o medo ainda impera. E em todo o tempo o profissional de jornalismo entra em conflito porque vivemos em um mundo caótico que só tem duas opções: seguir as normas da empresa – mesmo que para isso tenha que omitir certas informações – ou assumir de fato seu papel social arriscando o seu emprego.

Sustentando coronéis

Muitos ainda procuram uma solução para intermediar as duas coisas. Considerando que a maioria dos meios de comunicação está nas mãos de políticos, essa missão se torna mais difícil. Uma das soluções é incentivar o nascimento de indivíduos conscientes.

Autocensura é crime intelectual com autoria! Segundo o artigo 5, do Código de Ética do jornalista brasileiro, a obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação e aplicação de censura ou autocensura é um delito contra a sociedade.

Se, no Brasil, o cotidiano parece ter ficado estático por causa da gripe suína ou pelo caos de uma paralisação dos bancos ou transporte coletivo, tente imaginar, um dia de greve sem informação. O objetivo aqui não é enaltecer a categoria – que, sabemos, tem altos e baixos – mas mostrar a importância desta como uma forma parcial de conhecimento da realidade, da responsabilidade social e da autocensura, que tem sustentado muitos coronéis no poder.

Instrumento de mobilização social

Além de informar, o jornalismo pode ser uma forma de conhecimento da realidade. O jornalista, ou comunicador, ao lidar com as informações deve estar atento, pois a comunicação constrói a imagem das pessoas. A partir da idéia de que a comunicação constrói a realidade, Pedrinho Guareschi acredita que os detentores dessa realidade possuem o poder sobre a existência das coisas, da difusão de idéias e sobre a criação da opinião pública, que hoje não reflete a pluralidade de opiniões.

Um dos problemas do jornalismo, enquanto conhecimento, é o monopólio e a centralização de informações. Onde a verdade passa a ser parcial e consolidada em interesses partidários e classistas. Hoje, é impossível acreditar numa verdade absoluta, e nisso podemos observar, como consequência, uma informação ou um conhecimento de expressão desta relação de poder, a manipulação.

Essa maneira de reproduzir o conhecimento de outras instituições sociais é o que o diferencia do método científico. Há algum tempo, o jornalismo é criticado por alguns teóricos devido à falta de profundidade de análise, pela sua velocidade de produção e transparência. Porém, ao mesmo tempo, tem sido o jornalismo um instrumento de mobilização social para a comunidade, que tem pouca voz e vez no território brasileiro.

Informações de qualidade

Eduardo Meditsch expõe algumas características importantes que fazem do jornalismo uma forma de conhecimento. A primeira é o imediatismo. Criticado porque opera na linha do senso comum e algumas vezes não é crítico. Hoje, acaba sendo um produto consumido por determinada classe social a quem atende a demanda de interesses. Outra característica é a velocidade de informações, que limita a profundidade de apuração da notícia e as novas tecnologias, que podem ajudar na especularização persuadindo o público, principalmente em meios de comunicação tele e audiovisuais.

Os princípios do jornalismo não devem nunca sair de pauta. A importância do jornalismo enquanto o papel social, de cognição, pode moldar comportamentos, expandir o preconceito e aumentar cada vez mais as desigualdades existentes. Com os conglomerados de meios de comunicação, a informação tem sido usada como arma para manipular as massas em favor do lucro e do consumismo. Entretanto, por estar inserido num contexto social, o jornalismo deve ser usado a favor da democracia e do bem-estar de toda a população.

Não por moedas de barganhas e sensacionalismo, mas pela defesa e transformação para um mundo melhor. O mundo clama por informações de qualidade. Profissionais de comunicação, nós somos o filtro, nós somos os autores e somos o que publicamos e pela forma como divulgamos.

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Estudante de Jornalismo, Londrina, PR

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