Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ARMAZéM LITERáRIO > IMPRENSA, ANISTIA & CRIME

Um debate a caminho da chantagem

Por Luciano Martins Costa em 05/08/2008 na edição 497

Começa a derivar para um terreno perigoso o noticiário sobre a recente audiência pública convocada pelo ministro da Justiça Tarso Genro, para discutir o julgamento de agentes dos governos militares em episódios de tortura e morte de opositores ao regime de exceção. Pela primeira vez desde a redemocratização, representantes das Forças Armadas se organizam para uma ação política de confronto com os responsáveis pelo movimento que tenta responsabilizar torturadores pelos crimes cometidos durante a ditadura. E a imprensa parece torcer a favor dos militares indisciplinados.


A ação imediata dos militares descontentes com a possibilidade de exumação dos crimes comuns cometidos durante a ditadura foi, segundo os jornais, realizar um seminário para debater publicamente o passado de integrantes do atual governo.


A tentativa de chantagear o Executivo reside exatamente nesse detalhe: eles não pretendem fazer referência aos antigos militantes da luta armada que estiveram nos governos de José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco ou Fernando Henrique Cardoso. Ou àqueles que nunca tiveram cargos importantes em qualquer governo. O caráter de chantagem é claro: os ativistas militares ameaçam produzir uma crise que pode colocar sob risco a governabilidade, caso o Executivo prossiga com o propósito de levar a julgamento os torturadores e assassinos.


Herdeiros diretos


A natureza jurídica do processo aberto pela audiência pública pode produzir muita controvérsia, mas não se percebe na imprensa um esforço especial para explicar seus fundamentos. Tampouco se observa grande entusiasmo dos juristas em participar desse debate, eles que fizeram fila para entrar em discussões muito menos relevantes para o futuro da nossa democracia, como o fim da CPMF e o vazamento de informações sobre gastos de autoridades com cartões corporativos.


O propósito imediato dos militares engajados no processo de desestabilização do governo é isolar o ministro da Justiça e, se possível, levar ao seu afastamento. A forma encontrada, de fazer alarde sobre o passado de ministros e outros agentes públicos com ações violentas durante o período de resistência ao regime militar, estabelece um padrão primário para a análise da questão, que não deveria ser assumido pela imprensa.


Talvez o fato de que o movimento dos militares descontentes tenha a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, no centro da mira esteja fazendo com que a imprensa, ou parte dela, enxergue no processo uma oportunidade para bombardear a candidata preferida do presidente da República à sua sucessão. Não se pode deixar de lado o fato de que parte da imprensa tem se comportado como quem adoraria ver o circo pegar fogo.


O perigo é que, tolerando os incendiários de plantão, perca-se o controle da queimada e se coloque sob risco algo mais importante do que uma candidatura indigesta para setores poderosos do campo político. Dos militares engajados na campanha desestabilizadora não se pode esperar qualquer coisa que não seja a exploração de qualquer chance para colocar em dúvida os fundamentos da democracia. Eles são representantes ou herdeiros diretos do breviário que conduziu o país a um dos períodos mais tenebrosos da nossa História.


Biografias vendidas


A imprensa poderia contribuir para que a sociedade compreenda melhor a conveniência ou inconveniência de levar aos tribunais os acusados de torturas e assassinatos sob o manto do Estado autoritário. Um bom começo seria romper certos mitos do confronto entre militantes de partidos de esquerda e as forças da repressão. Assumir, por exemplo, que parte dos militantes de esquerda não lutava pela redemocratização do país, mas estavam engajados em projetos de poder que não conduziriam necessariamente ao aperfeiçoamento do regime.


É fato que alguns episódios do processo de restauração democrática, como as concessões de indenização por perdas causadas a opositores pela perseguição durante o regime militar, abriram espaço para a ação de oportunistas e aproveitadores que venderam suas biografias em troca de alentadas pensões – o que oferece argumentos aos inimigos da democracia. Mas a imprensa não pode perder de vista que uma coisa é tratar com oportunistas de esquerda ou esquerdistas de oportunidade, e outra coisa é tergiversar com torturadores e assassinos.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/08/2008 cid elias

    beatrice vargas? de novo? pra quem não sabe, trata-se de mais um comentarista-farsante. este, na verdade, é um calunista daquela revisteca marrom dos civita, um que usa chapéu, um que quebrou quando descobriram o desvio de verbas da nossacaixa2…

  2. Comentou em 08/08/2008 Marco Antônio Leite

    Caro Portal, você esta incluído no universo de homens comuns, não fique acreditando que você seja alguém no regime ‘democrático’ somente para RICOS?

  3. Comentou em 07/08/2008 Alexandre Carlos Aguiar

    Cid Elias, realmente o discurso é o mesmo. Acho até mais, que são fakes ensaboados do Olavo de Carvalho. Ou quem sabe do REInaldo Azevedo? Agora, preciso dizer que não me importo muito com a ideologia, pois numa democracia devemos conviver com o contraditório. Foi para isso, para garantir as tais liberdades civis, que lutamos contra a ditadura. Porém, o que me surpreende é a desfaçatez. Hoje, os verde-olivas e seus arautos trazem uma auréola sobre a careca. São inocentes, coitados. Defendiam o Brasil. Defendiam a mando de quem, caras-pálidas? Do General Walters? Enquanto nós, que nos impusemos contra àquilo, somos os terroristas. Sabíamos, desde o início, quais as conseqüências de nossos atos. E eles? Deram um golpe e quiseram ficar bonitinhos? Sei, sei. Assumam: ‘Fizemos uma guerra para defender os interesses do capital, dos ianques. Matamos e esfolamos quem era contrário ao golpe. Invadimos casas e locais de trabalho para prender e arrebentar quem nós desejássemos. Não pedimos licença e quem fosse contra morria.’ Assumam isso. Sejam homens, pelo menos agora.

  4. Comentou em 06/08/2008 Ramón Portal

    É de se perguntar ao Sr. Marco Leite – que se diz contra o ‘sistema capitalista’ -, qual outro sistema funcional econômico existe, que país sobrevive nele, e em que condições?…

  5. Comentou em 06/08/2008 Felipe Faria

    Bom, Marco Antonio, comunista mata criancinha, a mãe da criancinha, o pai da criancinha, o tio da criancinha, a tia da criancinha, a avó da criancinha e até o cachorro da criancinha…http://www.youtube.com/watch?v=gSVs1sQaw4Q

  6. Comentou em 06/08/2008 Ramón Portal

    Ninguém pode impedir que um governo eleito democraticamente – pela maioria, pois – use seu mandato para praticar atos desnonexos com a vontade de quem o elegeu. Outra questão é a de que as massas populares sempre são tidas como objeto de manobra pela cartilha comunista. Em inícios dos 60 s, Brizola e o títere Jango enchiam comícios com promessas douradas de ‘poder popular’, de ‘reforma agrária’ e o que hoje chamam de ‘novo-mundo-possível’, nitidamente caminhando por impor um regime aos moldes da ditadura cubana. Além de estúpida a idéia – em termos de geografia-política, em plena Guerra Fria – não se pode dizer que estavam a respeitar e que tivessem o apoio da maioria dos brasileiros…

  7. Comentou em 06/08/2008 Ramón Portal

    Ninguém pode impedir que um governo eleito democraticamente – pela maioria, pois – use seu mandato para praticar atos desnonexos com a vontade de quem o elegeu. Outra questão é a de que as massas populares sempre são tidas como objeto de manobra pela cartilha comunista. Em inícios dos 60 s, Brizola e o títere Jango enchiam comícios com promessas douradas de ‘poder popular’, de ‘reforma agrária’ e o que hoje chamam de ‘novo-mundo-possível’, nitidamente caminhando por impor um regime aos moldes da ditadura cubana. Além de estúpida a idéia – em termos de geografia-política, em plena Guerra Fria – não se pode dizer que estavam a respeitar e que tivessem o apoio da maioria dos brasileiros…

  8. Comentou em 05/08/2008 Felipe Faria

    Fabio, indignação não é desculpa para desonestidade. se você quer conhecer a história do período Goulart, a internet é farta em amterial.

  9. Comentou em 05/08/2008 Felipe Faria

    Fabio, indignação não é desculpa para desonestidade. se você quer conhecer a história do período Goulart, a internet é farta em amterial.

  10. Comentou em 05/08/2008 Fábio Carvalho

    Prezado Felipe Faria, uma pergunta: o senhor entende que os militares daquela época foram uma mãe de bondade a nos proteger dos stalinismo soviético? Esta foi, grossíssimo modo, a afirmação que Thiago Conceição fez e que ensejou questionamentos de Edmilson Fidelis. As questões, que o senhor reputa como desonestas, decorrem da natural indignação contra quem se pauta pelo Ternuma nos dias de hoje. Tive o desprazer de acessar o Ternuma, por indicação, quando ainda debatia (ou tentava debater) com o senhor Thiago Conceição. Ele é a quintessência do fanatismo perverso e autoritário de direita. Temos antagonismos à esquerda que rivalizam por entre outros comentadores do OI, com destaque para o o senhor Marco Antônio Leite (com quem eu nunca nem tentei debater, talvez por puro preconceito meu). Não existe, ressalvados os limites da legalidade, manual para a gente reagir ao que é efetivamente ofensivo num debate. Isso difere da torcida organizada: esta, à revelia dos fatos que se apresentam, compõem claque. E os fatos foram muito apropriadamente tratados pelo autor do artigo, que mereceu inacreditável glosa do senhor Thiago. Daí, a reação do Edmilson. Por fim, eu e o senhor já divergimos por aqui. E, se debato com o senhor, é porque identifico honestidade em seus argumentos, ainda que tenhamos opiniões divergentes.

  11. Comentou em 05/08/2008 Felipe Faria

    …parte dos militantes de esquerda não lutava pela redemocratização do país, mas estavam engajados em projetos de poder que não conduziriam necessariamente ao aperfeiçoamento do regime…..
    Assim bem falou o autor. Luis Weiss e o filho do comunista poderiam bem nos dizer qual seria o plano desses terroristas descritos por Luciano martins Costa. . Um filminho educativo da Letônia::::http://www.youtube.com/watch?v=gSVs1sQaw4Q&feature=related

  12. Comentou em 05/08/2008 Alexandre Carlos Aguiar

    Primeiro, sou contrário a qualquer manifestação de guerra. Somos animais que usam a inteligência para gerir conflitos e não o fuzil. Agora, em havendo é preciso dizer que quem vai à guerra corre o risco de levar bala. Essa inteligentíssima conclusão serve tanto para a esquerda como para a direita no Brasil, que se bateram no período da ditadura. A meu juizo, não cabe indenizações para os que lutaram em lados opostos, pois o fizeram por escolhas. Ocorre que algumas pessoas tiveram seus lares e locais de trabalho invadidos por meliantes fardados, dos dois lados. Estes, sim, devem recorrer a quem dê direito para buscar suas perdas. Eu, de minha parte, lutei contra o regime, por achá-lo atentatório à liberdade, mas por decisão baseada em meus princípios. Por isso, não seria leviano e nem oportunista de regatear ao Estado uma indenização. E o que está acontecendo agora é uma situação mal resolvida, quando a anistia não puniu quem deveria, não impondo responsabilidades a quem a ela faltou. Tarso Genro, na verdade, está iludindo a opinião pública, uma vez que ficou mal na foto ao não enquadrar devidamente o sujeito Gilmar Mendes, como deveria. E Lula, o presidente que tem medo, sequer o acompanhará, pois foge da briga à menor cara feia. Mais dia, menos dia, Tarso será ‘convidado’ a sair, para não dar mais bandeira. Isso tudo é coisa pra vender jornais.

  13. Comentou em 05/08/2008 Ramón Portal

    A camarilha no poder devia mais é estar temerária de que suas biografias fossem passadas à limpo. A idéia desse ministro surge exatamente num momento em que as atenções deveriam estar voltadas à enquadrar aqueles – no governo – que deram e dão guarida à narco-terroristas que estão na ativa, contra o estado de direito na Colombia. Governo que dá emprego fantasma em ministérios inúteis, às expensas do povo que realmente trabalha. A sanha vingativa dessa gente, soma-se ao desejo de obscurecer os escandalos atuais. A natureza jurídica de uma ANISTIA, é justamente a de apagar responsabilidades, deixar de lado razões e contra-razões. Serve em ocasiões onde não seria possível seguir adiante, para que os esforços de um povo se dirijam ao futuro, à pedalada histórica, para evitar que ódios emperrem o progresso. Sumamente imoral pretender agora, depois de décadas – com a normalidade política instalada -, retomar o passado com intuito punitivo, e – absurdo ! – somente contra uma das partes envolvidas. Não bastava um Sr. Amorim, que considera como ‘preciso’ um ataque terrorista como o de 11/9, ainda temos que suportar esse stalinista redivivo, genro lá deles! Houvesse bom-senso entre a ordem petista que habita o poder, o mínimo a fazer seria encerrar esse tipo de discussão e reavaliar a vergonhosa indústria de pensões milionárias, inclusive aquela de que usufrui o supremo… mandatário.

  14. Comentou em 04/12/2007 Rosa Maria Moraes

    Assisto freqüentemente ao programa O.I. , admiro muito o trabalho do Sr. Dines e gostaria de parabenizar a todos pelo programa, que considero importante e esclarecdor.

    Gostaria de saber sobre a programação de hoje, (04 DEZ 2007) , pois nao está no site da TV Cultura (na grade de progrmação) e nem no site o O.I.

    Obrigada pela atenção
    Rosa Maria

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