Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > O PAPEL DO JORNAL

Um livro, 201 anos depois

Por Deonisio da Silva em 09/12/2009 na edição 567

Ano passado, a mídia lembrou os duzentos anos da vinda de Dom João VI para o Brasil, mas omitiu uma celebração importantíssima: os dois séculos de existência da imprensa brasileira, cujo marco inicial é a fundação do Correio Braziliense, mensário editado em Londres por Hipólito da Costa.


O editor de O papel do jornal (Summus Editorial, 191 páginas, 9ª edição), de Alberto Dines, faz muito bem em juntar dois acontecimentos relevantes – um de 2008, outro de 2009 – na quarta capa do livro:




‘O silêncio converteu-se em eloquente monumento a uma instituição mais antiga e mais poderosa do que a imprensa: a censura religiosa’ […] ‘ao considerar inconstitucional a exigência do diploma para o exercício do jornalismo, a maioria esmagadora dos ministros do Supremo Tribunal Federal aprovou o relatório do presidente da corte, Gilmar Mendes, que ainda foi mais longe: desconsiderou a especificidade da profissão de jornalista. Em apenas dois anos, nosso jornalismo foi espoliado da sua história e de sua função.’


O Papel do Jornal é livro indispensável, não apenas à área de Comunicação Social, mas a todos os cursos superiores, dado o olhar pan-óptico que a mídia exerce atualmente sobre todas as coisas, ainda que continue a privilegiar não a política, como organização da sociedade, mas os políticos.


Denuncia-os e exara sentenças como se Judiciário fosse e estende sobre elas a pá de cal que impede qualquer recurso do indivíduo, tratado como réu ainda antes de abertos os inquéritos. Travestidas de laudos elaborados por redatores que ignoram comezinhos princípios democráticos, as denúncias confinam o indivíduo a um degredo muito mais eficiente do que os antigos desterros e banimentos dos tempos monárquicos.


Basta lembrar que, no rádio, na televisão, na internet e, o que é pior, em revistas e jornais, é frequente que sejamos informados de que o denunciado, às vezes um espertalhão e ladravaz contumaz, mas de todo modo sempre com direito à defesa, e outras vezes apenas um pobre coitado, ambos premidos por ataques diversos, vindos quase sempre de instâncias que querem tudo, menos justiça, promete requisito que a lei não pode exigir de ninguém: provar a sua inocência.


Quem o denunciou, que prove que é culpado. Não na imprensa, mas no Judiciário, onde terá direito de defesa assegurado de acordo com a Constituição, e não na mídia, onde o editor do veículo, quase sempre jejuno em Direito, exerce o poder absolutista de dar ou negar espaço a quem quiser.


Erro crasso


Lançado em 1974, O papel do jornal vem agora revisto, atualizado e ampliado, como, infelizmente, não é de praxe ocorrer em reedições. O autor não esconde sua admiração por Hipólito da Costa, mas não deixa de, crítico, apontar seus enganos, como o de dar como precursor da imprensa em Portugal o Boletim, em 1649, de um dos filhos de Peeter van Craesbeeck, o patriarca de uma família de impressores belgas que se estabeleceu em Portugal em 1597, fugindo de lutas religiosas. Segundo Dines, a honra coube à Gazeta, em 1641.


Hipólito José da Costa morreu jovem e no exílio, aos 49 anos, e tinha, entre tantas singularidades, a de fixar outra data para a independência do Brasil, que para ele foi junho e não setembro: ele sequer reconhece o Grito do Ipiranga.


Retomando o velho provérbio latino verba volant, scripta manent (cujo sentido é ‘palavras ditas voam, as escritas permanecem’), foi o jornal Washington Post o principal responsável por desmascarar o governo corrupto e mentiroso de Richard Nixon, não a hegemônica mídia televisiva e seu formidável aparato tecnológico. O jornal passou a sacudir os EUA e o mundo com reportagens que começaram em 18 de junho de 1972, revelando que o presidente sabia, sim, de todas as ilegalidades, mas ocultou a identidade da fonte que lhe garantiu e provou isso. O autor lembra o episódio em rodapé, logo à pág. 18.


O Watergate tornou-se emblemático e quando o presidente Fernando Collor foi apeado do poder, duas décadas depois, a imprensa brasileira criou o esdrúxulo neologismo Collorgate. Foi um desses crassos erros, não apenas de percepção, mas de língua portuguesa, na qual, aliás, supõe-se que os jornais sejam escritos.


Ícone das letras


Conhecida apenas como Deep Throat, Garganta Profunda, que serviu de título a um dos precursores dos filmes pornôs, a fonte era ninguém menos do que o ex-vice-presidente do FBI, W. Mark Felt, mas somente veio a ser revelada três décadas depois, em 31 de março de 2005. Os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, estrelas daquele escândalo, confirmaram a informação.


Em menor escala, quem sacudiu o Senado há alguns meses e, por isso mesmo, continua sob censura, foi uma série de reportagens de O Estado de S. Paulo e não reportagens de rádio, televisão ou páginas especializadas na internet.


No posfácio, Alberto Dines faz uma afirmação melancólica, a propósito de sua saída do Jornal do Brasil, do qual foi demitido ‘por indisciplina’ em 6 de dezembro de 1973, depois de ali ter trabalhado ininterruptamente desde 6 de janeiro de 1962: ‘Descobri, naquele momento, que os empresários têm amor às suas empresas e não necessariamente aos produtos que manufaturavam’.


Há outras curiosidades rondando este livro. Foi publicado pela primeira vez pela Artenova, onde pontificava como editor e proprietário o poeta piauiense Álvaro Pacheco, que fez o lançamento nacional de meu livro de estreia, Exposição de Motivos. Lá cheguei pelas mão de Rubem Fonseca, de quem ele lançara O Caso Morel, O homem de fevereiro ou março (antologia de contos, de bolso) e Feliz Ano Novo, que se tornaria caso-símbolo da censura, pois que, proibido em 1975, só seria liberado em 1989, depois de rumoroso processo judicial.


Álvaro Pacheco lançara o livro de Alberto Dines e também vários de uma jornalista que foi demitida do Jornal do Brasil e que se tornaria um ícone da literatura brasileira, Clarice Lispector. Lembro-me de um diálogo memorável, ocorrido na sala do editor. Clarice ligou pedindo direitos autorais e foi informada de que seus livros vendiam muito pouco e que logo seriam pagos os direitos, mas não eram nem de longe a quantia que ela precisava. Ao desligar, Álvaro me disse: ‘Clarice não vende nada e quer direitos autorais’. Deixei sua sala, voltei à Universidade de Ijuí (RS), onde lecionava, e consegui adotar A Imitação da Rosa, antologia de seus contos, que a Artenova lançara em formato de bolso, a preço baixíssimo. Foram vendidos cerca de 600 exemplares.


Muitos professores universitários que hoje não se cansam de louvar Clarice Lispector e fazer dela a referência solar de tudo, erigindo-a como ícone de nossas letras, estavam estudando ou ensinando Letras e não deram o devido reconhecimento quando a escritora estava viva e precisava desta referência. Desde 1977 ela não precisa mais disso, e é nosso dever reconhecê-la como uma das maiores escritoras que o Brasil já teve.


O grande poder


Os dois momentos decisivos de um livro para um leitor comum são a abertura e o fechamento, o primeiro e o último capítulo. Neste livro, é preciso tomar o cuidado de ler todos os prefácios que antecedem o verdadeiro começo do livro, que é ‘Parar as rotativas?’, que começa na página 51.


Tendo escrito a primeira edição em plena crise do petróleo, o autor não deixa de tomar a efeméride como contexto que presidia a tudo o que dizia respeito ao jornal – do papel ao transporte – e recomenda já neste primeiro capítulo: ‘A crise que não provocamos, mas que estamos enfrentando, só poderá ser superada com disposição renovada’; acrescentando: ‘Nos sistemas humanos, nada ocorre isolada ou gratuitamente, tudo tem retorno e consequências’.


No último capítulo, constituído de artigos publicados em 2009 pelo Observatório da Imprensa, Dines faz, entre outras, severas restrições a duas decisões do STF: a derrubada da Lei da Imprensa e o fim, não apenas da exigência do diploma de jornalista, mas da peculiaridade da profissão. A prática está provando que o vácuo nascido da abolição da Lei de Imprensa está ensejando que nosso país continue a exercer a censura como norma, sempre que uma questão delicada a qualquer poderoso seja tangida pela imprensa com a independência que o caso requer.


A imprensa brasileira deve muito a escritores e estes a ela, mas infelizmente as vozes das duas instâncias não têm mais o tom uníssono dos tempos da ditadura militar, quando, irmanados, jornalistas e escritores combatiam a censura. Hoje, de que é exemplo a censura imposta a O Estado de S.Paulo, a questão é tratada como se fosse um caso daquele jornal, não do jornal como veículo, acompanhado da inegável função social que desempenha. Talvez isso ocorra porque o inimigo trocou de lugar e tornou-se difuso. Se todos os poderes já censuram tanto, por que razão o grande poder, o Estado e seu formidável aparato tecnológico, teria que vir em socorro dos censurados?


E quem são os censurados? Como outrora ocorreu a Hipólito da Costa, o censurado não é apenas o jornalista – é o público, é a sociedade.

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenador de Letras e de teleaulas de Língua Portuguesa; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século)

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