Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ARMAZéM LITERáRIO > REVOLTA NA BANLIEUE

Um livro para entender o incêndio

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 02/05/2006 na edição 317

A França assistiu impotente ao grande incêndio que consumiu automóveis em novembro do ano passado, na periferia de Paris. Os acontecimentos da banlieue, cobertos amplamente pela imprensa do mundo inteiro, revelaram uma realidade que a direita francesa prefere varrer para baixo do tapete. Jovens excluídos queimavam dezenas de carros diariamente, durante quase um mês, diante dos olhos da bem equipada polícia de um país do G-7.


Motivados pela revolta dos jovens da periferia, alguns jornalistas suíços do jornal L’Hebdo, de Lausanne, se instalaram durante três meses numa das cidades periféricas, Bondy, um bom observatório para compreender o que se passava. Criaram um blog onde pipocaram reportagens surpreendentes sobre racismo, desemprego, liberdade sexual e laicidade versus comunitarismo religioso. Pouco tempo depois, no início de março deste ano, cerca de dez jovens de 18 a 26 anos selecionados pelos jornalistas suíços foram levados a Lausanne, onde descobriram fascinados o métier de jornalista e puderam se expressar participando, eles mesmos, do blog.


Números ganham vida


As reportagens feitas durante os três meses em Bondy viraram livro – Bondy blog, des journalistes suisses dans le 9-3 (Bondy blog, jornalistas suíços no 9-3), organizado por Serge Michel, um dos jornalistas responsáveis pelo projeto. O 9-3 é o número do departamento francês em que Bondy está situada, chamado Seine-Saint Denis, a apenas alguns minutos de Paris pelo RER, sistema de trens que liga a capital à periferia, onde vivem em guetos grande parte dos excluídos da sociedade francesa.


Em Bondy, os jornalistas suíços preocupados em decodificar o mundo da periferia parisiense fizeram trabalho de campo digno de sociólogos, sem pretensão de substituírem os herdeiros de Pierre Bourdieu. Mas o trabalho de imersão, a cobertura in loco, permitiu-lhes descobrir a realidade dos Muhameds e Walids, muito diferente da glamorosa vida intramuros dos filhos da burguesia branca parisiense.


A barreira entre os dois mundos é o périphérique, o anel rodoviário que separa Paris das cidades que a rodeiam, que abrigam imigrantes e seus descendentes, as maiores vítimas de racismo, desemprego e até mesmo de uma nem sempre sutil violência policial.


As reportagens contam histórias de racismo e exclusão no país que se orgulha de ser o berço dos direitos humanos. Os frios números dos economistas ganham vida, estatísticas tomam forma de pessoas que sonham e lutam para sobreviver numa sociedade na qual se sentem cidadãos de segunda classe. No livro, a banlieue tem voz, expressa seu ressentimento pelos talentos desperdiçados, postos de lado, ignorados.


Mil palavras


Serge Michel compara a cidade partida que é Paris e sua periferia com Berlim Ocidental e Berlim Oriental antes da queda do muro. Aqui, o muro é o périphérique, a fronteira entre a inclusão e a exclusão. Esse marco simbólico, que todos podem atravessar com um bilhete de metrô ou de RER, é transponível fisicamente. Mas inamovível para quem navega num mundo de imigrantes, no qual a escola republicana é o último recurso para ultrapassar a barreira da exclusão. Mas mesmo os diplomados e bem formados, descendentes de imigrantes magrebinos ou da África negra, têm que enfrentar na seleção para o emprego ou na procura de imóveis para alugar uma batalha na qual o nome e a cor da pele podem ser um obstáculo.


Um dos jovens participantes do projeto, filho de imigrantes magrebinos, comenta numa das matérias que antes da revolta da periferia ele havia montado associações para cuidar de jovens, procurou partidos políticos em busca de ajuda a projetos sociais, fez mil e um contatos. O resultado era sempre desestimulante. ‘Tenho vontade de agradecer aos jovens que queimaram carros. Graças a eles, meus projetos passaram a interessar a prefeitos e políticos que procuro, que finalmente despertaram para a necessidade de se montar projetos sociais para os jovens excluídos.’


As reportagens de Bondy valem mais do que mil palavras de eruditos tratados de sociologia.

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Jornalista

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