Terça-feira, 16 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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ARMAZéM LITERáRIO >

Um livro que é retrato do autor

Por Carlos Eduardo Lins da Silva em 10/11/2009 na edição 563

No seu indiscutivelmente melhor romance, O Livro Negro, Orhan Pamuk, prêmio Nobel de Literatura de 2006, assim relata a descrição de como o personagem Cêlal Salik, célebre colunista do jornal turco Milliyet, conseguiu seu grande sucesso:

‘Depois que tivemos a audácia de abrir nossa coluna para a discussão das coisas que realmente importam para os seres humanos de todas as categorias, de todas as classes e de todas as origens, recebemos uma verdadeira enchente de cartas. Vendo que as suas realidades podiam afinal se manifestar abertamente, alguns deles sequer tiveram a paciência de comunicá-las por escrito, e acorreram à nossa redação para nos fazer diretamente o relato pormenorizado de suas experiências.’

Este trecho de Pamuk me ocorreu em dois momentos da leitura dos originais deste pequeno e magnífico livro sobre jornalismo. Um quando, logo no início, seu autor discorre sobre seu mais recente e atual exercício do jornalismo, no canal ‘Pensata’, da Folha Online, e define o gênero jornalístico que Salik também exercia, a crônica, que consagrou, no Brasil, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Carlos Heitor Cony, Luiz Fernando Veríssimo e (acrescento eu) Ruy Castro, Marcelo Coelho, Matthew Shirts, Roberto DaMatta e muitos mais.

Um outro desafio

A crônica, quando bem feita, ao tratar dos temas que ‘realmente importam’ aos leitores (não o que lhes é externo e, embora os afetem – e por isso precisam saber delas – não os motivam de fato), é o jornalismo em sua essência mais pura.

Luiz Carlos Caversan, a quem tenho o prazer de conhecer há 25 anos e de cujo trabalho, sempre preciso e competente, tive a enorme vantagem de usufruir por oito deles seguidos, é a encarnação do jornalismo em sua essência mais pura.

Se dependesse apenas dele, os jornais seriam como as colunas de Salik e a sua própria, na edição eletrônica da Folha. Tratariam apenas das coisas com que os leitores, as pessoas comuns, realmente se preocupam. Não seriam chatos como são, a desperdiçar florestas de árvores e rios de tinta com picuinhas de políticos, empresários, artistas, esportistas, celebridades de toda espécie, que cinicamente aproveitam a boa-fé coletiva para se promover e a seus interesses egoístas de poder e fortuna.

Se o objetivo deste volume fosse outro, Caversan certamente teria muito a dizer sobre por que razões os jornais não são aquilo que ele e eu gostaríamos que fossem. E aqui fica uma proposta: agora que deu conta deste desafio, que se proponha a outro, o de investigar e descrever o processo autodestrutivo por que os jornais preferem se isolar do público em vez de se aproximar dele.

Sociopatia não interessa

O segundo momento na leitura deste livro em que Pamuk me veio à mente foi quando Caversan trata da possibilidade de o jornal desaparecer, por irrelevância, devido ao crescimento avassalador das ‘novas mídias’, a internet e seus blogs, à frente delas.

Se o jornalismo – impresso ou não, isto é o de menos – se dedicar aos interesses reais do leitor, não há nada que consiga acabar com ele porque ele será sempre imprescindível.

Não há nenhuma oposição necessária entre blog e jornalismo. Na verdade, aquele pode ser um gênero deste, se bem feito. A maioria dos autodenominados blogueiros nem sabe que a palavra se origina da junção de web, a rede, a designação da internet em inglês, e log, o diário de bordo do capitão dos navios, a caixa-preta naval, onde devem se registrar com fidedignidade os acontecimentos de cada viagem.

Muito menos sabem eles que log em inglês tem outro significado: pessoa estúpida, palerma, tola. Vários blogueiros se dedicam a juntar o segundo sentido de log ao de web, e fazem sucesso ao conjugar o seu exibicionismo ao voyeurismo de muitos, que se deleitam em observar os detalhes íntimos do comportamento, das idiossincrasias e da vida particular dos outros. Mas isso não é jornalismo, é sociopatia, e não nos interessa.

‘Ler, ler, ler’

Interessa é que para o jornalismo sobreviver – em qualquer de suas ‘plataformas’, impressa, televisada, irradiada, eletrônica – vai ter de tratar do que interessa aos seus consumidores, e é disso que Caversan, com sua inteligência pragmática e eficiente, trata aqui.

Este livro é a cara do seu autor. Não tem esnobismo, falsas pretensões, não banca o sabichão. É o relato direto de uma experiência de vida bem-sucedida numa atividade difícil, desgastante, desafiadora.

Particularmente didática é a seção em que descreve como a notícia vai do acontecimento até o consumo do leitor, ao acompanhar um dia banal e típico da vida de uma redação de grande jornal.

Mas também é muito elucidativa a narração de três grandes coberturas que o autor viveu (uma das quais, a do martírio e morte de Tancredo Neves, vivemos juntos, 40 dias passados praticamente inteiros na redação). Estes exemplos práticos são muito mais pedagógicos para quem deseja se tornar jornalista do que qualquer teoria, por mais sofisticada que seja.

Dos seus conselhos aos aspirantes ao jornalismo, o que eu quero destacar com mais ênfase, é aquele em que recomenda a todos que desejem se arriscar nessa atividade fascinante: ‘Ler, ler, ler’. Quem lê muito o bem escrito não precisa de quase mais nada para ser bom jornalista.

‘O rascunho da história’

Mas ainda precisa de alguma coisa, que as escolas não têm oferecido, e que os veículos de comunicação têm obrigação de prover, que é um treinamento eficiente e bem direcionado à prática, da qual precisa fazer parte – como Caversan ressalta com ênfase – a necessidade de sair da redação para estar em contato direto com a fonte e os fatos.

Das ameaças ao jornalismo atual, uma das maiores é a de o repórter, o redator, o editor, o secretário de redação, o diretor, se enclausurar em seu ambiente de trabalho e lidar com o mundo lá fora apenas via telefone, televisão, rádio e internet. Isso será o fim do jornalismo, se ocorrer como prática generalizada.

Em respeito ao preceito essencial do bom jornalismo, que é ser crítico, e ao qual Caversan se refere – não por acaso – no primeiro parágrafo deste livro, vou fechar com uma discordância, e para expressá-la vou me valer de outro Nobel de Literatura, de 1998, José Saramago.

Caversan se refere várias vezes ao jornalismo como ‘o rascunho da história’. Ele está certo. Esta é uma das funções essenciais desta prática profissional. Mas há outra, que a competição do jornalismo impresso com o eletrônico exige daquele com urgência absoluta para que ele não desapareça: é a de – mais do que ser o registro provisório do que aconteceu – ele seja o instrumento que ajude a sociedade a impedir que fatos ruins se incorporem à história, em benefício de qualquer comunidade humana.

Energia, determinação e capacidade

Diz Saramago, no que é – mais discutivelmente do que no caso de Pamuk, mas em minha opinião sem nenhuma dúvida – o seu melhor romance, O Ano da Morte de Ricardo Reis:

‘…São assim os periódicos, só sabem falar do que aconteceu, quase sempre quando já é tarde demais para emendar os erros, os perigos e as faltas, bom jornal seria aquele que no dia um de janeiro de mil novecentos e catorze tivesse anunciado o rebentar da guerra para o dia vinte e quatro de julho, disporíamos então de quase sete meses para conjurar a ameaça…’

Mais do que rascunho da história, o jornalismo precisa ser preventivo. Se o jornalismo fosse vigorosamente assim, talvez se pudessem evitar mortes anunciadas, como as das vítimas de tantas inundações absolutamente previsíveis, como as do final de 2008 em Santa Catarina, e perdas pessoais como as de todos os anos desde pelo menos 1929 em enchentes em São Paulo e Rio de Janeiro, para não citar inúmeros outros exemplos.

O jornalismo é uma cachaça maravilhosa. Quem se viciou nele, como Caversan e eu, sabemos disso. Mas para que ele subsista, exige-se mais de quem o pratica do que se tem feito nos últimos dez anos.

Nunca as ameaças contra ele foram tão enormes. A censura dos anos 1970, quando nós dois começamos na profissão, não era nem fichinha perto da irrelevância social de que ele está ameaçado se insistir em apenas repetir no dia seguinte o que todo mundo já soube na véspera.

Para conseguir passar por esse obstáculo, vamos precisar fazer muito mais do rascunhar a história, embora isso já não seja nem fácil nem pouco. Vamos ter de influir na história e, para tanto, vão ser imprescindíveis energia, determinação, capacidade, qualidades que nunca faltaram a Luiz Carlos Caversan e que este livro, espero, ajudará a inculcar em seus sucessores.

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O autor

Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, Luiz Caversan iniciou sua carreira em 1976 em O Estado de S. Paulo, no qual atuou, ao longo de seis anos, como revisor, repórter, editor-assistente e editor. Consolidou sua atividade de jornalista na Folha de S.Paulo, jornal em que trabalhou durante 21 anos, exercendo as funções de repórter, redator, editor de Política, Economia, Cidades, Ilustrada, Esportes, suplementos, fotografia, foi secretário de redação, diretor da Agência Folha, diretor da sucursal do Rio de Janeiro e repórter especial. Foi responsável pela introdução e aplicação de programas de Didatismo da Folha, bem como atuou na formação de trainees selecionados pelo jornal. Foi também um dos autores do atual Manual da Redação da Folha.

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Títulos da Coleção Introdução ao Jornalismo

**Jornalismo esportivo – Relatos de uma paixão, de Celso Unzelte, 192pp.

** Técnicas de redação em jornalismo – O texto da notícia, de Patricia Ceolin Nascimento, 176 pp.

** Técnicas de reportagem e entrevista – Roteiro para uma boa apuração, de Cleide Floresta e Ligia Braslauskas, 192 pp.

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Jornalista, ombudsman da Folha de S.Paulo

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