Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Um nó no jornalismo econômico

Por Renato Delmanto em 28/10/2008 na edição 509

Para um país que conviveu décadas com a inflação – e alguns anos com a hiperinflação – a atual crise mundial assusta, mas ainda não gera pânico. Essa postura transparece, também, nas mensagens passadas por alguns jornalistas econômicos. Na sexta-feira 24/10, a colunista Miriam Leitão comentou na rádio CBN que, apesar de todo o pessimismo do mercado, as pessoas não deviam se deixar desanimar com a situação de seu dinheiro aplicado e recomendou que relaxassem e curtissem o fim de semana.

De fato, para a maioria das pessoas – aquela turba ignara que passa ao largo das notícias sobre o subprime americano ou sobre a quebra do Lehman Brothers –, a cobertura jornalística da crise pouco interessa. É por isso que casos como o seqüestro em Santo André ou o casamento de Juliana Paes chamam mais a atenção do que a cobertura da crise.

Na prática, a instabilidade dos mercados, mantendo a crise nas manchetes durante semanas seguidas, recoloca para o jornalismo econômico um desafio recorrente: como traduzir e explicar para o leitor ou telespectador comum a complexidade de operações como as que foram feitas no mercado americano e como justificar a importância desse assunto para alguém que jamais teve dinheiro investido em ações.

A ‘ação’ do governo

Mais que criatividade, o didatismo parece ser a melhor (ou a única) saída para o jornalismo econômico. Aqui se encaixa a sugestão de Miriam Leitão: já que esse assunto (crise) não vai passar tão logo, aproveite seu fim de semana – beba uma cerveja ou um vinho, vá ao cinema, saia para namorar…

O que chama a atenção na forma como a imprensa, especialmente a especializada, vem reagindo à crise é a falta de perspectivas editoriais. Não se trata apenas de falta de criatividade. Mas de não saber lidar com incertezas ou com a falta de convicção diante do significado das informações que se colocam à frente dos jornalistas.

É de se estranhar quando um jornal econômico dá como manchete, em pleno turbilhão de dólar disparando e Bolsa despencando, uma notícia como a estampada na capa do Valor Econômico em 22/10: ‘Crise se agrava e governo age’. A matéria suportada pela manchete ocupou três páginas do jornal e foi produzida pelas equipes em Brasília e São Paulo, envolvendo pelo menos sete jornalistas (a quem foram dados os créditos), incluindo dois editores e uma colunista.

A tal notícia – a ‘ação’ do governo – era, na prática, a edição de uma medida provisória que autorizava os bancos oficiais a comprarem participações em bancos privados em dificuldades. Havia também a proposta de isenção de IOF para entrada de capital estrangeiro no mercado nacional, mas que ainda seria encaminhada pela equipe econômica ao presidente Lula.

Sucateamento das redações

Criar bons títulos, no jornalismo, é quase uma arte. Quanto menor o espaço disponível para o título, mais o talento do profissional titulador é percebido. Todo mundo que já passou por uma redação conhece histórias saborosas de grandes tituladores. Eles normalmente despontam inspirados pela natureza de alguns veículos (como era o caso do memorável Notícias Populares), ou desafiados por espaços pouco ou nada generosos para a explanação de uma idéia. Uma boa equipe de primeira página começa por um bom titulador.

Quando se fala sobre economia, a situação fica ainda mais complicada, pois o tema em si – e toda a sua complexidade – corrobora para dificultar a produção de títulos. Se houvesse um hall da fama no jornalismo econômico brasileiro, alguns profissionais teriam lugar garantido nele, por terem conseguido inspirar colegas e traduzir em linguagem digerível pelo público leigo as muitas vezes difíceis explicações do que se convencionou chamar de ‘economês’. O falecido Aloysio Biondi seguramente seria um desses jornalistas – mas há muitos outros, vários deles ainda em atividade, que deveriam constar dessa lista.

O que merece uma reflexão são quais desafios estão sendo impostos pela atual conjuntura econômica (o mundo vive um momento tão incomum e grave) ao fazer jornalístico, especialmente ao jornalismo econômico. Não deve ser o foco dessa reflexão a redução das equipes e a ‘juniorização’ das redações – embora sejam aspectos que influenciam (e muito) a qualidade final do produto jornalístico. Mas quando tratamos de um jornal especializado, com a melhor equipe de jornalistas de economia do mercado, com grande credibilidade e que desloca para uma cobertura como essa alguns de seus melhores profissionais, a questão do sucateamento das redações fica em segundo plano.

Apocalipse financeiro

Essa crise parece mesmo estar dando um nó nos melhores repórteres, articulistas e editores, com tantos elementos intrínsecos a ela que vêm sendo revelados dia após dia. Um sinal emblemático de que o atual cenário é inédito para os jornalistas de economia foi um infográfico com a variação da Bolsa de Valores publicado naquele mesmo dia 22/10 pela Gazeta Mercantil. Na tabela, que trazia as 10 maiores altas e as 10 maiores baixas entre as ações negociadas no pregão do dia anterior, a coluna da esquerda estava completamente em branco!

Por mais que a colunista Miriam Leitão recomende ao público para relaxar e melhorar seu astral, as notícias dão a impressão de que o mundo vai acabar. E a cobertura jornalística não tem conseguido traduzir ou explicar como será esse apocalipse financeiro.

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Jornalista e professor da Faculdade Cásper Líbero, São Paulo, SP

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