Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > REVISTO E ATUALIZADO

Um posfácio no lugar de prefácio

Por Alberto Dines em 08/12/2009 na edição 567

A questão, hoje, banalizou-se. A equação jornal-papel tornou-se comezinha, é a mais citada nas sessões de endeusamento das novas tecnologias da informação e geralmente classificada como modelo de arcaísmo.


No final de 1973, as mesmas palavras, jornal e papel, remetiam para a crise do petróleo deflagrada pela Guerra do Iom Quipur: o preço do barril pulou de três para US$ 30, fez disparar o custo do transporte e obrigou jornais e revistas brasileiras a racionalizar o consumo do papel de imprensa (quase todo importado).


Papel mais escasso, caro, agravou a preocupação pelo futuro do jornal impresso. O jornalismo de qualidade estava ameaçado pelos avanços do telejornalismo, sempre favorecido pela adoção de novas tecnologias (uso de satélites, transmissão a cores, equipamentos portáteis). Para sobreviver aos novos tempos e às novas pressões tornou-se imperioso reforçar os atributos de um veículo informativo cuja história remontava à Atas Diurnas (Actae Diurnae) de Roma imperial.


Ao contrário do que viria a acontecer nas décadas seguintes, a mídia não se discutia, não se expunha, sequer mirava-se no espelho. Transparência era um conceito desconhecido e a transparência aplicada ao negócio jornalístico, tabu. Ou quimera. O único veículo brasileiro onde seria possível desenvolver algo semelhante a um debate a respeito da crise do papel acabara de ser extinto. Os ‘Cadernos de Jornalismo e Comunicação’, editados desde 1965, foram liquidados no momento em que fui demitido ‘por indisciplina’ do cargo de editor-chefe do Jornal do Brasil, que ocupei ao longo de quase 12 anos [o período vai de 06/01/1962 a 06/12/1973, totalizando 11 anos e onze meses].


A edição de dezembro de 1973, pronta para rodar, foi desmanchada. Continha um artigo intitulado ‘O Jornal de papel e o papel do jornal’, onde eu pretendia conclamar o empresariado jornalístico – inclusive o do JB – a resistir à tentação de podar drasticamente o número de páginas e manter os compromissos como um serviço público essencial.


Avanços substantivos nas tecnologias de impressão seriam insuficientes para garantir um salto de qualidade, aumento de audiência ou do poder de influência da mídia impressa. Sua ‘vantagem competitiva’ resumia-se a uma palavra – qualidade.


O caso Watergate o comprovava, mas enquanto se desenrolava e produzia aquela formidável sucessão de manchetes, poucos prestaram atenção no fato de que não se tratava apenas de derrubar um presidente amoral. A cruzada do Washington Post contra Richard Nixon reaviva o conceito ‘romântico’ do jornalismo verdadeiramente investigativo, de rua, a serviço do cidadão. Watergate era, sobretudo, uma alternativa à mídia televisiva então depositária da infinita capacidade americana para inovações tecnológicas. [O caso Watergate foi um escândalo político ocorrido na década de 1970 nos Estados Unidos e que culminou com a renúncia do então presidente Richard Nixon, eleito pelo partido Republicano. Bob Woodward e Carl Bernstein, repórteres do Washington Post, investigaram o assalto à sede do Comitê Nacional Democrata, no Complexo Watergate, em Washington, e conseguiram estabelecer as ligações entre a Casa Branca e o assalto ao edifício. Eles foram informados por uma pessoa conhecida apenas por Garganta Profunda (Deep Throat) que revelou que o presidente sabia das operações ilegais. A identidade de ‘Garganta Profunda’ só veio a público em 31 de maio de 2005: era o ex-vice-presidente do FBI, W. Mark Felt. Bob Woodward e Carl Bernstein confirmaram o fato.]


Comentários inflamados


Não era uma quixotada, mas uma opção doutrinária e mercadológica: antes, em 1965, quando se anunciou o início das operações da TV Globo (então apoiada pelo grupo Time-Life), preparei um longo memorando interno dirigido aos editores do JB sugerindo a adoção de uma estratégia capaz de contrapor-se ao novo estágio do telejornalismo brasileiro que a TV Tupi e os Diários Associados de Assis Chateaubriand não conseguiram alcançar.


Com o apoio da direção da empresa, tentei mobilizar a redação para a produção de matérias analíticas, ‘redondas’ e contextualizadas. Contratamos mais repórteres especiais com dedicação integral, reforçamos o orçamento do Departamento de Pesquisa, tornamos rotineiros os seus excelentes textos de apoio e obtivemos da direção da empresa um substancial aumento no espaço dedicado ao noticiário e não apenas no primeiro caderno, também no ‘Caderno B’, destinado à cultura e espetáculos. O investimento em papel e em qualidade foi altamente compensador: o jornal ganhou em audiência e influência justamente no momento em que surgia no espectro midiático um concorrente de peso.


A crise do petróleo-papel, no caso brasileiro, não se resumia à esfera econômica, o seu contrapeso político era considerável: o regime militar instalado há quase uma década montara um eficiente aparelho repressor com base na censura e, principalmente, na autocensura. Aos militares não interessava a criação de uma nova consciência profissional, ao contrário, quanto piores fossem os jornais, menos confiáveis e mais descartáveis seriam. Por isso, a resposta ao controle político da imprensa – além da resistência e da persistência – incluía o esmero profissional e um incansável aprimoramento da qualidade jornalística. Jornais melhores, iluministas, poderiam ser a melhor resposta ao obscurantismo.


Porém, com menos papel, como? Com orçamentos drasticamente reduzidos para compensar o aumento astronômico do preço do papel, como investir em qualidade editorial? Embora naquela época as empresas jornalísticas brasileiras não mantivessem qualquer vínculo ou comunicação entre elas, suas estratégias eram assemelhadas – comprar novas máquinas e construir imóveis suntuosos para abrigá-las. A qualidade do produto seria mera decorrência da modernização industrial.


Eu propunha aumentar o preço do exemplar para manter a qualidade, confiava na fidelidade do leitor qualificado, acreditava que anunciantes e agências de publicidade estariam dispostas a participar da qualificação da sociedade, processo do qual seriam os maiores beneficiários.


Descobri, naquele momento, que os empresários têm amor às suas empresas e não necessariamente aos produtos que manufaturam. Eventualmente fascinam-se com o poder de decidir questões tão relevantes, porém se cansam com extrema facilidade diante da complexidade da operação cotidiana. Embora ainda não formulada, a expressão ‘modelo de negócios’ já era uma realidade: os publishers de jornais e revistas, com raríssimas exceções, não estavam interessados em articular um projeto de longo prazo.


Procuravam saídas imediatas. Não se importavam em endividar-se – o então ministro da Fazenda Antonio Delfim Netto era muito generoso em empréstimos em moeda estrangeira por meio da ‘Operação 63’. Para um governo autoritário, era conveniente ter os grandes jornais com pires na mão – seriam menos exigentes nas cobranças e pressões.


A ‘indisciplina’ pela qual fui punido abrangia diferentes situações (parcialmente reveladas no livro de depoimentos Eles mudaram a imprensa, organização de Alzira Abreu, Fernando Lattman-Weltman e Dora Rocha, FGV Editora, 2003). Eu representava problemas em outra esfera: o grupo JB empenhava-se em ingressar na era televisiva graças às duas concessões de TV recebidas ainda no governo Médici e que deveriam ser preservadas a todo custo no mandato do sucessor, Ernesto Geisel, ainda não empossado. Preocupado em preservar a profissão, não me dei conta de que certas jogadas políticas do jornal haviam irritado o presidente-eleito.


O único jornal que ousou acompanhar a reviravolta no JB foi a Tribuna da Imprensa, em candentes comentários de Hélio Fernandes e Paulo Francis. O Globo, por determinação do seu então presidente Roberto Marinho, publicou uma galante nota redigida por Evandro Carlos de Andrade para reparar o perverso laconismo do JB ao comunicar o meu afastamento.


Juvenilização das redações


Num passe de mágica, fecharam-se as portas do mercado de trabalho. Restou-me uma opção: continuar jornalista por outros meios. Escrever um livro, compartilhar com os estudantes, jovens ou veteranos profissionais, e mesmo com executivos de empresas jornalísticas, o saldo da esplêndida experiência vivida no JB. Era imperioso quebrar o gelo, iniciar um debate ou, pelo menos, oferecer uma argumentação capaz de impedir o haraquiri coletivo caso se consumasse a política de cortar papel e abdicar da qualidade.


Álvaro Pacheco, poeta, ex-copidesque do JB, convertido em próspero editor de livros, embora ligado ao grupo que assumiu o comando do jornal, ofereceu-se para editar o livro desde que fosse uma obra ‘técnica’, profissional, sem intenção ou entonação política. [O piauiense Álvaro Pacheco (1933) exerceu o jornalismo no Maranhão e Rio de Janeiro, poeta prolífico editou sete livros em 10 anos. No inicio da década de 70 montou a Editora Artenova, que possuía entre os seus contratados nomes expressivos como Clarice Lispector (também demitida do JB no mesmo episódio da minha saída). Suplente do senador Hugo Napoleão, o editor Pacheco exerceu o mandato em duas ocasiões. Muito ligado a José Sarney, foi seu Assessor Especial quando exerceu a Presidência da República. No final da década de 80, a Artenova foi transformada em empresa cinematográfica.]


Publicado em março de 1974 (dois meses depois do meu afastamento do JB), foi reeditado dois meses depois. [Na primeira edição está consignada a data de publicação, na segunda faltou o registro, mas foi certamente publicada antes de agosto de 1974, quando fui contratado pela Universidade Columbia (Nova York) como professor-visitante na sua escola de jornalismo.] Além do subtítulo da capa (‘Tendências da comunicação e do jornalismo no mundo em crise’), nove destaques na contracapa:


** As rotativas não podem parar: a crise do papel de imprensa pode tornar nossos jornais e revistas cada vez melhores.


** Quem vai ganhar a disputa: jornal ou TV?


** Jornalismo renovado é melhor do que um novo jornalismo


** Jornal apertado ou jornal de melhor qualidade?


** O dilema jornal contra empresa não existe.


** A revolta dos redatores da Europa


** Um pequeno jornal pode ser um grande jornal


** O que é um jornalista?


** As relações governo e imprensa: como foram e como podem ser.


Não escrevi o livro político que tanto preocupava o editor, mas ali estava um manifesto em defesa do jornalismo impresso e dos compromissos embutidos em sua longa história.


Dois anos depois, o livro renascia em outro formato: terminado o contrato como professor-visitante da Universidade Columbia (Nova York), fui convidado pelo grande Cláudio Abramo, em nome do publisher da Folha de S.Paulo Octávio Frias de Oliveira, para assumir a chefia da sucursal no Rio de Janeiro, assinar uma coluna diária de comentários políticos e ajudá-los no desafio de fazer da Folha um jornal de opinião.


Abramo já aceitara meu oferecimento para escrever uma coluna semanal sobre media-criticism (crítica à imprensa, que começou a florescer nos EUA em função do caso Watergate). Frias, mais prudente, tentou dissuadir-me (‘você só vai arranjar inimigos’), insisti, ele concordou. Assim nasceu o Jornal dos Jornais, publicado aos domingos ao longo de dois anos (1975-1977) e substituído em 1980 pelo Jornal da Cesta no Pasquim.


Depois da 3ª edição, considerei encerrada a vida de O Papel do Jornal. O professor José Marques de Mello convenceu-me a reeditá-lo. O pretexto surgiu em 1985, quando começou a cruzada patrocinada pelo empresariado para acabar com a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão.


O ensino do jornalismo nas universidades brasileiras era efetivamente precário, tanto que a Editora Abril encarregou-me de organizar o primeiro programa de aperfeiçoamento voltado para os recém-formados. Mas a intensa campanha promovida pelo empresariado escancarava uma orquestração suspeita. Não era correto que empresas de comunicação utilizassem em seu benefício os poderes conferidos pela Constituição contra os interesses dos jornalistas, teoricamente habilitados aos mesmos privilégios.


A fracassada greve dos jornalistas em 1979 acionou uma série de ações internas e externas (entre elas a criação da ANJ, a Associação Nacional dos Jornais) destinadas a depurar as redações do espírito pré-1964. Os profissionais mais velhos foram gradualmente dispensados, estimulou-se a juvenilização das redações enquanto badalavam-se novos paradigmas de modernidade personificados no USA Today, depauperada combinação de TV em cores com jornalismo raso.


Carga persuasiva


As démarches para discutir o projeto da nova Carta Magna acenderam a luz verde para a ofensiva contra o diploma. Com o artificioso pretexto da desregulamentação integral da atividade jornalística e a justificativa de prepará-la para a plena redemocratização, entregaram-se todos à tarefa de liquidar com o inimigo Nº 1 da liberdade de expressão: o diploma. A liberdade de expressão fora pisoteada ao longo de 21 anos consecutivos sem que tivesse sido esboçada qualquer resposta coletiva.


Onze anos antes, na crise do petróleo, pretendeu-se podar os jornais ao invés de energizá-lo para enfrentar os ilimitados recursos pirotécnicos da TV. Em 1985, antes mesmo da escolha da Assembléia Constituinte, armava-se um rolo compressor para convencer a sociedade de que jornalismo não era uma profissão, era um emprego e a imprensa, apenas um negócio.


A 4ª edição de O Papel do Jornal (1986) foi apresentada como uma releitura e acrescida de uma apresentação de Marques de Melo, novo prefácio, rodapés atualizadores e um apêndice sobre a questão do diploma. A 5ª edição (1988) nada alterou.


Diante da inevitabilidade da 6ª edição (1996) e do lapso de 22 anos transcorrido desde o seu lançamento, sugeri ao editor Raul Wasserman a interrupção da publicação. A veloz alteração das circunstâncias tanto tecnológicas como sociais e políticas exigiam um novo livro, este parecia datado. A resposta do engenheiro-editor foi curta: ‘quem decide o fim de um livro não é o autor nem o editor, é o leitor. Enquanto houver gente interessada em comprar uma obra, é nossa obrigação mantê-la no catálogo’.


A resposta serviu-me de mote para um novo prefácio a respeito da relatividade do ponto final. Na condição de biógrafo, já concluíra que nenhuma biografia é definitiva, todas são obras em construção, sempre inacabadas. No caso deste livro, como num sítio arqueológico, as diferentes camadas atualizadoras, superpostas, funcionariam como a tomografia de um processo histórico.


A inevitabilidade desta nona edição impõe uma versão revisada, ampliada e consolidada. Os 35 anos de vida deste texto ganham alguma relevância porque a eles somaram-se a alguns dramáticos desfechos do processo do qual foi testemunha involuntária.


A decisão do Supremo Tribunal Federal de extinguir a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo e a surpreendente constatação de que não se trata de uma profissão específica e regulamentável interrompeu o debate na esfera judicial, mas não o encerra. Ao contrário, só o exacerba diante das injustiças e da flagrante leviandade contidas no relatório aprovado pela maioria dos ministros. [O julgamento, realizado no dia 17 de junho de 2009, terminou com uma votação de 8 a 1 a favor do fim da obrigatoriedade do diploma específico para o exercício do jornalismo. O voto discordante foi do ministro Marco Aurélio Mello. Estavam ausentes os ministros Joaquim Barbosa e Carlos Alberto Direito. falecido pouco tempo depois. O relator do processo foi o ministro Gilmar Mendes, na presidência do STF, que opinou pelo fim da obrigatoriedade do diploma e ironicamente comparou a profissão de jornalista à de chefe de cozinha.]


O primeiro registro a respeito de uma profissão semelhante ao jornalismo foi consignado há cerca de dois mil anos no Senado romano e designava como diurnalii (diaristas, jornaleiros), os redatores das Actae Diurnae – o primeiro veículo noticioso regular de que se tem notícia [Jorge Pedro Souza, ‘Uma Breve Historia do Jornalismo no Ocidente’ in Jornalismo: Historia, Teoria e Metodologia, pp 34-44, Edições Universidade Fernando Pessoa, Porto, 2008)]. Em 1690, o médico-teólogo alemão Tobias Paucer teve aprovada na Universidade de Leipzig sua tese de doutoramento, De relationibus novellis, sobre os relatos jornalísticos, na realidade o primeiro esboço para uma teoria do jornalismo [Caio Túlio Costa, Ética, jornalismo e nova mídia, uma moral provisória, Zahar, Rio de Janeiro, 2009, pp.41-42].


Em junho de 1808, Hipólito da Costa, o patriarca da imprensa brasileira, no texto inicial da primeira edição do seu Correio Braziliense, menciona os redactores das folhas públicas como cidadãos que exercem destacadas tarefas junto a sociedade.


Nada disto foi levado em consideração: o Ministério Público Federal e o Sindicato das Empresas de Rádio e TV do Estado de São Paulo, que iniciaram a ação para a derrubada do diploma, assim como o presidente da suprema corte, ministro Gilmar Mendes, autor do relatório final, não estavam interessados na história da profissão, queriam apenas eliminá-la. Pior foi o desempenho dos meios de comunicação – patrocinadores efetivos da ação que liquidou o diploma – ao aceitar a infeliz combinação de injustiça e ligeireza.


O silêncio dos senhores da reverberação começou um ano antes, em 2008, quando as entidades que congregam as empresas de mídia resolveram tacitamente omitir e boicotar as comemorações relativas aos 200 anos da fundação de nossa imprensa. Pendência antiga, já ocorrera cem anos antes, em 1908, na véspera do primeiro centenário, quando muitos jornais e jornalistas recusaram-se a homenagear o maçom Hipólito da Costa, inimigo declarado da Inquisição e, portanto, da Santa Madre Igreja.


Em apenas um ano – de junho de 2008 a junho de 2009 –, com a ajuda de uma conspiração e uma manipulação judicial, acabou-se com uma profissão e com a sua história. Um déspota não o faria com tanta eficiência.


A estas arbitrariedades soma-se uma enorme irresponsabilidade que, embora alienígena, foi aqui intensamente utilizada: o anúncio do fim da Era Guttenberg.


O avassalador crescimento das novas tecnologias não poderia ser previsto em 1973 (1ª edição) nem em 1985 (4ª edição). Mas as apocalípticas previsões e as levianas apostas no fim iminente do jornalismo impresso constituem um fato novo que nos remete à inconseqüência e ao descaso com que alguns empresários e executivos aceitaram, no início dos anos 70, o enxugamento dos jornais e do jornalismo acionado pela crise do petróleo.


Ultimamente toda a carga persuasiva do jornalismo tem sido colocada a serviço de um postulado niilista-derrotista segundo o qual a era do papel chega ao fim. Em anexo, oferece-se a certeza de que a internet (e seus subprodutos, inclusive a telefonia celular) será o novo veículo de um jornalismo contínuo, não-periódico, fragmentado e ambiental. Para dourar a pílula, oferecem muita participação e interatividade total.


A grande vantagem


O futuro não é novidade, sempre fascinou e excitou a imaginação, mas desta vez a mídia fabricou uma paranóia futurista com hora marcada para consumar-se. Serviu-se da velha fascinação com os modismos, da delirante busca de novos comportamentos, da promiscuidade com consultorias especializadas na venda de crises e, sobretudo, aproveitou-se do desaparecimento nas redações das cabeças grisalhas aptas a discernir a diferença entre evolução e drásticas substituições.


As cassandras do apocalipse deveriam rever o clássico de Charlie Chaplin, Tempos Modernos, produzido oito anos depois da introdução do cinema sonoro, mas praticamente mudo. Foi a forma que o sublime mímico encontrou para protestar contra o ‘invencionismo’ desenfreado, a novidade pela novidade a serviço da regressão. Quando José Saramago afirmou que o Twitter era o derradeiro passo antes do grunhido, na realidade repetia Chaplin e tentava acordar os leitores inteligentes para o perigo do futurismo alucinado e desabrido. Convém relembrar que o poeta italiano Fillipe Marinetti criou a poesia futurista para libertar a Itália do peso do passado – foi um dos precursores da modernidade do fascismo.


Condenado à morte, agônico, o jornalismo impresso perdeu o resto de convicção que sobrara do seu namoro com o entretenimento e as mundanidades.


Se os jornais já anunciam o seu próximo óbito – raciocinam caudilhos e censores –, nada impede que sejam sangrados quando incomodam. A censura da imprensa deixou de ser o recurso dos regimes de exceção, tornou-se regra. Quanto mais esconderem a sua vocação republicana e mais apostarem na condição de indústria, mais vulneráveis ficarão os outrora imbatíveis jornais e seus venerandos ideais libertários. Com um agravante: foram agentes das diferentes bolhas e clientes do mesmo cassino que resultou na crise financeira global.


O crash de 2008, entre outras razões, foi motivado pelo desligamento dos alarmes. Mercados soltos, desregulamentados e desvairados, assistidos por uma imprensa desnorteada e desvirtuada, preocupada com a própria sobrevivência e entretida com a sua crise de identidade, produziram uma catástrofe sem precedentes.


Ao assumir a sua vulnerabilidade e a morte iminente, o jornalismo impresso – a imprensa – apresenta-se diante da sociedade moderna como uma entidade obsoleta, frágil. Portanto, inconfiável. Antes, funcionava como referência, balizamento, matriz de certezas. Agora, tateia a procura de um obscuro ‘modelo de negócios’ e, em função dele, sujeita-se a incríveis travestismos.


A idéia central de O Papel do Jornal em suas sucessivas versões sempre se apoiou na idéia da co-existência e co-habitação de tecnologias, funções, espécies e naturezas. A busca do conhecimento sobrepunha-se às eventuais colisões. Em 1973, nem o uso da cor nem as transmissões por satélite conseguiram induzir as redes de TV a acreditar na possibilidade de desbancar o jornal impresso da sua função referencial, elementar. Os deferentes formatos (‘frios’ ou ‘quentes’ na classificação de Marshall McLuhan) complementavam-se naturalmente na aldeia global.


A idéia de que o sistema deveria ser desestruturado para dar lugar a uma tecnologia a um tempo hegemônica e dissipadora não partiu de informadores ou produtores de conteúdo jornalístico, partiu dos vendedores de um produto chamado caos. Pretendiam ciclos tecnológicos mais curtos do que os quatro séculos de vida do jornal impresso ou os cem anos de cinema. Queriam obsolescências imediatas, reposições sucessivas de equipamentos e procedimentos. Rupturas e bolhas sempre foram um bom negócio.


A promessa de que a informação em tempo real produziria maior interatividade e participação ainda não se materializou. O saldo, por enquanto, confina-se ao âmbito da agitação. A internet, como ferramenta, é imbatível, mas dificilmente conseguirá oferecer ao leitor uma plataforma noticiosa organizada e um conjunto de narrativas como o oferecido pelos impressos. O fluxo – na verdade, o jorro – da internet é intenso e contínuo, esta a sua grande vantagem. É também a sua intrínseca desvantagem: impossível manter o mesmo padrão de contextualização de tantas informações ao longo de uma jornada. E, sem contextualização, desorganizado e fragmentado, o conhecimento pouco vale.


Brio e convicção


O ser humano sabe preservar suas conquistas, não abre mão dos avanços anteriores. Como todo organismo multicelular tem memória, sabe conservar e trocar informações, escolher as melhores rotinas para garantir a sua sobrevivência. Sem memória, teria que refazer continuamente o seu sistema de vida. A dinâmica evolucionista não prevê a eliminação de todas as espécies, processos e produtos menos aptos. Todos têm a sua utilidade e se encaixam num grande desenho.


Os imensos dinossauros desapareceram, porém espécies afins desenvolveram asas e sobreviveram como pássaros. Apesar da sua velocidade, aviões jamais desbancarão os trens de alta velocidade que em certas circunstâncias oferecem soluções mais rápidas.


Esta grande orquestração tem escapado aos apocalípticos e catastrofistas. Com um pouco menos de vanguardismo e um pouco mais de apego à história, teriam evitado tanto stress e desgaste.


Guttenberg não inventou o livro nem a impressão. Apenas inventou o tipo móvel, capaz de ser reutilizado continuamente. O livro, tal como o conhecemos hoje, foi inventado pelo veneziano Aldo Manúcio, que jamais manifestou algum tipo de obsessão pelo ‘modelo de negócio’. [Aldus Manucius (1450-1515) pretendia resgatar as obras fundamentais da cultura grega que corriam o risco de desaparecer imprimindo-as em edições esmeradas e formatos, digamos, ‘amigável’. Na sua tipografia Aldine, imprimiu 33 obras numa fonte que ficou conhecida como itálico e inspirada na caligrafia de Petrarca. O seu modelo de negócios era claro: editar as melhores obras pelos melhores preços.] Pretendia acrescentar ao livro impresso dois elementos que considerava inovadores: a portabilidade e a renovação do conteúdo, convertendo-o no prolongamento de uma academia.


Ao desenvolverem o cinematógrafo, os irmãos Lumière estavam mais preocupados com o aprimoramento de suas produções. O ‘modelo de negócio’ veio depois.


A crise do petróleo-papel de 1973 não foi prevista, resultou de uma guerra no Oriente Médio. A crise do jornalismo impresso foi anunciada ao longo de quase duas décadas. Voluntária e voluntarista, foi adotada a partir da proclamação do ‘fim da História’, quando a derrubada do Muro de Berlim calou os céticos. Sem ceticismo tudo desanda, mas em primeiro lugar desanda a imprensa, usina das dúvidas, multiplicadora dos questionamentos.


A fragilização de jornais e semanários começou quando a imprensa – instituição necessariamente plural e diversificada – acomodou-se à unanimidade e à unissonância. Desfibrada, deixou-se fascinar e suplantar pela internet. Só começou a reagir quando a varinha mágica da virtualidade mostrou sua insuficiência como promotora de receitas e lucros. Quando os produtores de conteúdo da Internet anunciaram o fim da gratuidade e do acesso universal, deu-se o milagre: a mídia impressa de repente anunciou sua cura. O problema não era dos jornais, mas da mídia digital. Na pressa, os médicos não perceberam quem era o doente.


Mais convicção no jornalismo e mais brios na profissão de jornalista tornarão nítido o papel do jornal como o grande promotor de aproximações e convergências.


***


Coerente com opção adotada nas versões anteriores, esta edição de O Papel do Jornal pretende ser um registro dos registros. Flagrante de uma evolução. Para ser rigorosamente atualizada deveria ser totalmente refeita e neste caso perderia a sua condição de retrospectiva.


Cortes foram insignificantes, relativos a situações ou circunstâncias não essenciais, totalmente superadas. Foram mantidas e ampliadas as referências dos rodapés e acrescentados ao texto original os comentários e projeções indispensáveis a uma leitura contemporânea. Sempre identificados. A intenção é de recuperar uma história, percorrer a linha do tempo não para atender nostalgias e, sim, para recuperar uma evolução.


Foi mantido até mesmo o anexo sugerido pelo primeiro editor, Álvaro Pacheco, intitulado ‘Temas para desenvolver’, com vinhetas e epigramas que deveriam a atrair os estudantes de então. Funciona como uma máquina do tempo, amena recomposição do cotidiano das redações dos anos 70 e, em alguns casos, lembrete para a persistência de costumes.


Para atender as exigências dos relatos jornalísticos foi acrescentado um Adendo com textos publicados recentemente, engrenados para evitar repetições. Este volume na verdade começa nos ‘Cadernos de Jornalismo’ do Jornal do Brasil e chega ao Observatório da Imprensa – seu herdeiro direto – onde estão referidos os lamentáveis desfechos de algumas situações com as quais as próximas gerações de profissionais deverão conviver.


Este Adendo tem a desagradável missão de lembrar que, apesar da ditadura e dos Anos de Chumbo, a mensagem que emana da primeira edição é mais otimista do que a desta edição comemorativa tirada em pleno regime democrático.


A indispensável injeção de alento está no texto de Hipólito da Costa, o não-patriarca desta nossa não-profissão, publicado há 201 anos como introdução ao volume I do Correio Braziliense. [São Paulo, 7 de Setembro de 2009]


 


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