Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > ÉTICA & JORNALISMO

Um produto em extinção

Por Samira Moratti em 20/01/2009 na edição 521

‘O que interessa ao público é o resultado final, e não o processamento da notícia.’

A afirmação de Niceto Blázquez, em seu livro Ética e meios de comunicação, faz sentido não só no que tange ao universo noticioso elaborado diariamente pelos diversos veículos de comunicação, como também em relação a mais uma matéria sobre os bastidores da notícia. O site Consultor Jurídico publicou segunda-feira (12/01) a informação de que o delegado Protógenes Queiroz privilegiou contatos e informações confidenciais da Operação Satiagraha para profissionais da TV Globo. Na reportagem ‘Para PF, Protógenes vazou informações da Satiagraha’, de Daniel Roncaglia, o produtor da TV Globo Robinson Cerântula obteve informações exclusivas sobre as prisões de Daniel Dantas, Celso Pitta e Naji Nahas. Cerântula trabalha com César Tralli, o qual era responsável por cobrir a operação para a emissora.

Não é a primeira vez que foram confirmadas ligações entre o delegado Protógenes e Cerântula. Ainda de acordo com a reportagem de Roncaglia, Cerântula também teve acesso a informações exclusivas de outras operações que a PF fez, como a prisão de Law Kin Chong e de Paulo Maluf. Inclusive, esta última, ganhando novamente repercussão em veículos especializados em cobrir os bastidores da imprensa, uma vez que, à época, Tralli foi acusado de ter obtido exclusividade na cobertura da prisão do ex-prefeito usando de ilicitude.

Onde há fumaça, há fogo?

Em 16 de setembro de 2005, Tralli publicou artigo no portal da revista Imprensa intitulado ‘Anatomia de um furo’, no qual defende a legitimidade e congruência do trabalho feito durante a cobertura da prisão de Paulo e Flávio Maluf. À época, outros veículos de comunicação que não conseguiram fazer o ‘furo’ veicularam imagens e informações sobre a forma como o repórter da Rede Globo conseguiu estar infiltrado entre os policiais. Usando boné e colete, Tralli passaria despercebido em meio aos policiais que realizavam a prisão dos Maluf. Já no artigo, ele se defende:

‘Em nenhum momento me disfarcei de policial. Usava uma camiseta branca e uma jaqueta bege, uma indumentária muito longe de um uniforme policial. Sim, usava um boné. Sempre uso um boné quando estou na rua, em reportagens desse tipo. Sempre gravo depois as `passagens´, as cenas em que o repórter aparece, já usando terno e gravata. Essa é uma das poucas desvantagens de um repórter de TV: ter um rosto conhecido e, por isso, ser abordado por pessoas em busca de autógrafos, o que, todos hão de concordar, dificulta muito o trabalho numa reportagem investigativa. Isso se tornou um hábito. Flávio Maluf e seu advogado, porém, reconheceram-me na hora, e me cumprimentaram.’

No final do texto, Tralli enfatiza que ‘esse furo é meu. Esse, ninguém me tira’. De fato, nenhum jornalista tirou vantagem dele. A acusação foi percebida por alguns que habitualmente lêem os jornais e revistas especializados em imprensa e nada mais. Pouco se pode afirmar se, em meio a escassas notícias sobre o envolvimento do repórter na cobertura, alguém que não seja da imprensa tenha se interessado pelo fato. Tal qual na frase de Blázquez, geralmente o público se interessa muito mais pelo resultado final da notícia do que por sua elaboração. Porém, novamente mais uma acusação de que o mesmo repórter e sua equipe tenham conseguido a exclusividade na cobertura de forma nada ética. Assim sendo, pergunta-se: coincidências apenas, ou onde há fumaça, há fogo?

Vale tudo

Em outra passagem de seu livro, Blázquez diz:

‘… quanto mais pessoas lêem jornais e acompanham os diversos canais atuais de informação, menos elas acreditam na honestidade profissional dos profissionais de comunicação. Mas, ao mesmo tempo, uma vez que a isso já se acostumaram, não podem mais passar sem eles’ (BLÁZQUEZ, 1999, p. 33).

Mesmo que esta nova acusação contra os funcionários da Rede Globo venha a ‘vazar’ também na dita grande imprensa, possivelmente poucos serão os que darão importância ao fato. Possivelmente, ainda, poderão esquecer-se rapidamente, da mesma forma como também se esquecem das notícias que recebem diariamente. No entanto, como é que fica a posição? É ético o que foi feito, obter informações de uma fonte que, a própria, escondia informações privilegiadas para repassá-las aos referidos profissionais da imprensa, conforme também foi mencionado na reportagem de Roncaglia? E este furo, novamente será legitimado?

Na busca desenfreada pelo furo, pela exclusividade da notícia, muitos são os jornalistas que se deixam levar e acabam por esquecer certos valores que aprendemos com poucos reais profissionais, ou ainda nas poucas aulas recebidas nas academias de jornalismo. Muito se falou, mas nada se concretiza, quanto ao uso de câmeras escondidas, grampos telefônicos, fontes compradas ou que anseiam por algo em troca. Um verdadeiro lobby informativo. Não que o uso da câmera escondida, por exemplo, seja errado. Mas não pode virar regra para toda e qualquer notícia. Assim como jornalistas usarem de artifícios como falsas indumentárias ou mesmo alteração de identidade, por exemplo, para obter uma informação.

Os jornalistas que assim praticam se valem das mais variadas respostas para o uso desses ‘artifícios’ jornalísticos. Desde ‘obter a verdade para o público’ até respostas como a de Tralli. Vale de tudo.

Nadar e morrer na praia

Para Blázquez, nada mais do que manipulação:

‘A manipulação mediante o uso sistemático à mentira é levada a cabo através de sinais e ações, ou, o que dá na mesma, mentindo com as palavras e imagens, com personagens, objetos e ações falsos e documentos falsificados’ (BLÁZQUEZ, 1997, p. 63).

O ano de 2008 deu o que falar no quesito ‘desrespeito’ à confiança pública e à verdade: a Globonews, seguida de outros jornais, cobrindo o que seria mais um acidente aéreo, quando na verdade não passava de um incêndio em uma loja de colchões; o sensacionalismo de um programa da Rede TV!, que nem jornalístico é, durante o cativeiro da jovem Eloá, no ABC paulista; e, mais recentemente, o uso de informações de uma matéria antiga por um repórter do Jornal da Tarde, em uma matéria atual, sem informar ao público… parece que a ética na imprensa virou utopia, quimera, ou qualquer outro ser dos contos da Carochinha. Definitivamente, a ética está virando produto escasso, em extinção, poder-se-ia afirmar.

Enquanto a sociedade estiver interessada apenas na notícia, no produto final de todo o trabalho jornalístico, os ditos profissionais poderão continuar usando de artifícios para obter furos e exclusivas, bem como reportagens padrão, matérias e afins. E nada será feito. Para a ética será como nadar e morrer na praia.

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Estudante de Jornalismo, Estácio de Sá, Florianópolis, SC

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