Quinta-feira, 21 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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ARMAZéM LITERáRIO >

Um repórter na Amazônia

Por Lúcio Flávio Pinto em 03/02/2009

Quantos jornalistas brasileiros já estiveram mais de 30 vezes na Amazônia? Quantos conseguem somar um ano inteiro de presença na região com todas essas viagens? E entre os profissionais nascidos na Amazônia ou que nela fixaram domicílio, quantos a percorreram por inteiro? O número é muito pequeno, escandalosamente pequeno para a prioridade que o resto do Brasil costuma atribuir – em geral da boca para fora – à região que abrange 60% do território nacional.


O americano Larry Rohter, de 59 anos, faz parte desse círculo restrito. Em 1972 ele começou a viajar para o Brasil, país que passou a interessá-lo quando ainda morava nos Estados Unidos. Em 1977, sua cobertura brasileira se tornou jornalística. No ano seguinte, ainda como correspondente do jornal Washington Post e da revista Newsweek, desceu pela primeira vez na Amazônia. Essas visitas se amiudaram a partir de 1990, quando assumiu o cargo de correspondente do New York Times, o mais influente jornal do mundo. Em nenhum dos anos até 2007, quando largou a função e regressou aos EUA, deixou de fazer o circuito amazônico pelo menos uma vez.


Uma seleção do que ele produziu a partir dessas excursões ocupa 10% das 416 páginas do seu livro, Deu no New York Times, lançado no ano passado pela Editora Objetiva, do Rio de Janeiro, sede do escritório do jornal nova-iorquino, que enfrenta a maior crise da sua história (e ameaçado de sucumbir a ela). O valor e a utilidade do que Larry Rohter diz sobre a Amazônia (como, de resto, sobre o Brasil) decorre de sua qualificação pessoal e profissional (ao mesmo tempo como jornalista e acadêmico) e dos meios que teve à sua disposição, graças à clarividente diretriz editorial que orientou o NYT ao longo dos anos recentes, para obter informações e checá-las nos próprios lugares onde os fatos ocorriam.


Teste de consistência


Não se trata de um intelectual de laboratório nem de um pesquisador que passou mais tempo lidando com informações secundárias e fontes indiretas. Larry pôde ir às fontes primárias e até acompanhar os assuntos quando sua consumação estava em curso, um privilégio conferido com mais freqüência aos jornalistas do que a qualquer outro profissional, mas somente aos jornalistas de linha de frente, aos autênticos repórteres. O capítulo amazônico do livro abriga apenas sete das numerosas reportagens que ele escreveu, algumas seguidas de comentários enriquecedores, todas com alguma contribuição documental.


O mais importante, porém, é a apresentação dessas matérias, a parte inédita. É quando o acadêmico, formado em HHHh istória e especializado na China Moderna na Universidade Columbia, se debruça sobre as anotações de campo para entender-lhes o sentido e captar suas sugestões. O tema central dessas reflexões é a relação da Amazônia com o mundo, mediada pelo Brasil. A Amazônia sempre esteve sujeita a uma razão categórica: a afirmação da soberania nacional em seu vasto e pouco ocupado território, um vazio demográfico, um anecúmeno.


A sujeição decorre da convicção, no topo da sociedade brasileira e na cúpula do governo nacional, da existência de uma sempiterna cobiça internacional sobre a região. Esse desejo de apropriação se valeria das condições naturais da região, coberta de floresta, que dificulta sua ocupação e integração, e da sua carência de densidade humana. Para contrapor-se a esse cenário tendente à usurpação por estrangeiros, o governo desencadeou um processo de ocupação intensiva, integrando a Amazônia para não entregá-la, substituindo o espaço vazio pela plenitude da presença nacional.


Quanto há de verdade nessa ameaça? Quantos dos inimigos projetados sobre o cenário geopolítico não passam de moinhos de vento, combatidos não por um cavaleiro sem mácula, mas por pessoas e entidades que criam fantasmas ao meio-dia em proveito próprio? Não será justapondo fantasmagorias sobre fantasmagorias ou mitos sobre mitos que se chegará às respostas necessárias. Será revelando as informações a partir dos fatos e submetendo-as ao teste de consistência, através do qual as interpretações se tornarão sólidas e fecundas, não mais garatujas sofisticadas ou elucubração metafísica.


Armas do saber


Indiferente à suspeição que lhe foi aplicada em função de sua nacionalidade e da natureza do seu patrão, Rohter enfrentou com inteligência, bom humor e argúcia todas as armadilhas que pretendem reduzir os graves problemas a leis de um catecismo dogmático. Ele descobriu que os brasileiros falam muito sobre a Amazônia sem a conhecer, em muitos casos nem mesmo fisicamente. Outros já colocaram seus pés nessa terra úmida e incômoda, mas, como o torcedor que deduz o que vê de uma partida de futebol que se desenrola à sua vista pelo que seu ouvido capta da locução transmitida pelo aparelho de rádio colado ao seu ouvido, repetem como santa verdade informação que jamais se deram ao trabalho de checar. Num universo de coisas vãs, é vã a necessidade de saber o que se diz. De tão vasta, a Amazônia é como um papel em branco: aceita tudo que se lhe inscreva.


Como a existência de um livro de geografia adotado nas escolas americanas de ensino fundamental, por exemplo, com um mapa que secciona a Amazônia do resto do Brasil porque os brasileiros são um povo incapaz de administrá-la. Ou que a região perdeu a batalha da borracha porque um inglês contrabandeou sementes da seringueira para a Ásia, um crime até de lesa-majestade, por ser a hévea brasiliensis espécie nativa. Os brasileiros não se apercebem que se fosse verdade que uma árvore só dá bem onde surgiu, o Brasil não seria o país do café, arbusto exótico.


Qualquer país que abrigasse em seu território uma região como a Amazônia haveria de se empenhar em exercer nela a soberania nacional. É um desejo legítimo e inquestionável do Brasil submeter o interesse internacional aos seus desígnios e controle. O problema é que a soberania brasileira tem sido firmada à base da destruição da Amazônia. Em menos de meio século, um dos dois elementos definidores da região, a sua floresta (como a sua água), foi destruído como nunca em qualquer outro lugar e em qualquer fase da história humana. Sem ser sequer inventariada ou avaliada na sua esmagadora maioria, foi despojado de sua cobertura vegetal essencial um território que já equivale a quase três vezes o tamanho de São Paulo, a mais rica unidade da federação.


Para tentar minimizar o tamanho desse crime, alguns argumentam que, ainda assim, o desmatamento ‘só’ representa 20% do espaço amazônico, sem conseguir ter uma idéia real do que estas últimas quatro décadas representaram a partir de um ponto de partida em 1970, ano da Transamazônica, quando o desmatamento estava bem abaixo de 1%. Outros ainda mantêm as últimas esperanças de normalidade nessa brutalidade contra a natureza (e o próprio homem), dizendo que foi assim no passado e só porque foi assim as grandes nações de hoje se desenvolveram. Omitem, como lembra Rohter, que antes não existia a ecologia (ciência da segunda metade do século 20).


Mesmo se o cidadão do nosso tempo não se tivesse apercebido da dinâmica do planeta vivo, a grandeza quantitativa do drama não perderia em seus tons trágicos. Porque nunca o homo sapiens colocou abaixo tanta mata quanto o brasileiro colonizador da Amazônia. Agindo assim na suposição de que, ao substituir o espaço da natureza pelo espaço do homem, o país evita que a Amazônia seja internacionalizada, o Brasil, na verdade, acaba com a Amazônia. E assim se concilia de vez com a natureza do seu bandeirante de ontem, de hoje e de sempre, um fazedor de desertos, paulista ou não.


Pelo contrário, um modo de estabelecer a presença do homem em harmonia com uma natureza tão fecunda e desafiadora, seria estimular in situ um debate sem fronteiras, atraindo para a região todos aqueles que se declaram dispostos a partilhar seu conhecimento e dedicar seus esforços para evitar que ela seja mais um capítulo da pilhagem dos recursos naturais e de saque dos povos.


O Brasil será o condutor desse diálogo (de idéias e de práxis) não só – nem principalmente – por ser o dono da Amazônia, mas por ser aquele que melhor a conhece. E por tão bem dominá-la, com as armas do saber e do conhecimento, à frente dos mecanismos de governo e das ações sociais, não pode ser iludido nem manipulado. Como define o jornalista, esse pode ‘acabar sendo o mais importante campo de batalha ambiental do século 21’.


Primal e seminal


Nem sempre Larry Rohter tira das suas informações, obtidas em contato direto com os fatos ou através dos seus interlocutores, as deduções coerentes ou as interpretações corretas. É verdade que os projetos de Henry Ford, de Daniel Ludwig e da Volkswagen não deram certo, mas não é verdade que ‘todos os grandes projetos comerciais estrangeiros de risco que foram executados na Amazônia fracassaram’. Deu muito certo o da Bethlehem Steel, na época a segunda maior siderúrgica do mundo, que em quatro décadas extraiu do Amapá milhões de toneladas do melhor de todos os minérios de manganês e, quando o teor caiu, foi-se embora sem cumprir suas responsabilidades, inclusive ambientais.


A Georgia Pacific, que também foi a maior madeireira dos Estados Unidos, extrai árvores selecionadas (sem precisar fazer corte raso) na foz do Amazonas há décadas, sempre alegando dificuldades (que existem mesmo), mas sem parar de embarcar as valiosas pranchas para o exterior. A japonesa Eidai acaba de falir, mas porque a mesma trajetória seguida pela americana, em três décadas, sofreu uma interrupção excepcional, por fatores que ainda é preciso avaliar em profundidade para definir sua ponderação.


Deu certo, sobretudo, a estratégia dessas corporações de deixar de lado o controle nominal do capital dos ‘grandes projetos’ e assumir o pleno domínio dos mecanismos de comercialização das matérias-primas. Exercem seu poder a partir de fora, mesmo quando esse poder não se traduz no percentual das ações das empresas que exploram os mais valiosos recursos naturais da região.


Mas é verdade que a causa principal do desmatamento na Amazônia não são as multinacionais ou as ONGs disfarçadas, mas brasileiros inescrupulosos que grilam terras, extraem madeiras de qualquer maneira, compram-nas sem fazer qualquer indagação sobre sua origem ou querem é que a mata desapareça para dar lugar aos pastos ou às extensas plantações de monoculturas, como a soja. A principal sede dessa destruição não é Nova York, mas São Paulo.


‘Sim, a Amazônia é do Brasil’, concorda Larry Rohter. ‘Mas o que os brasileiros vão fazer com ela? Essa é a pergunta realmente importante e ainda não há uma resposta para ela’, acrescenta o jornalista. E não há mesmo. O Brasil que modifica com dramaticidade a fisionomia, o modo de ser e o etos da Amazônia só pretende fazer esta pergunta, que devia ser ao mesmo tempo primal e seminal, quando a Amazônia for Brasil. Ou seja, quando deixar de ser o que ainda teima em ser, uma realidade estranha, diferente e desafiadora para os fazedores de desertos: Amazônia.


***


Brasil e China no novo ciclo da nossa pilhagem




Indo ou vindo do Brasil para a Amazônia, ou vice-versa, passando por Belém, Larry Rohter me avisava para que pudéssemos conversar. Nunca deixei de atender seus convites, mesmo que fosse para um contato rápido. Não tendo mais a mesma desenvoltura que o New York Times lhe dava, e que O Estado de S. Paulo me possibilitou durante quase duas décadas, aproveitava para me atualizar sobre o que acontecia nos locais que ele tinha percorrido. Ao mesmo tempo, verificava se minhas observações de província resistiam à confrontação com um observador cosmopolita.


Fiquei feliz ao receber um exemplar de Deu no New York Times com a seguinte dedicatória de Rohter, datada ainda do Rio de Janeiro, em novembro (o volume só me chegou há duas semanas, quando já o lera): ‘Durante 30 anos você tem sido meu professor de assuntos amazônicos. Quero agradecer todos os bate-papos lá em Belém, as dicas e os conselhos. Devo muito a você, e o capítulo sobre a Amazônia deve muito ao nosso diálogo permanente’.


De fato, muitas das idéias e informações que transmiti ao correspondente do NYT, sem qualquer reserva nem economia, estão por trás das conclusões que ele tirou ao submetê-las à sua própria apreciação. Fiquei ainda mais feliz porque ele me citou não no capítulo amazônico do livro, no qual sou presença anônima, ainda que bem detectável, mas quando trata de ciência e economia. É uma das partes mais relevantes da obra – e não por acaso. Larry Rohter se dedica há muito tempo à China. Até fala o mandarim.


Por isso, suas observações sobre a relação do Brasil – e em especial da Amazônia – com a China merecem uma atenção à parte. Infelizmente, nem os brasileiros em geral nem os amazônidas em particular têm dado à questão a relevância que ela tem. Como é uma importância real, ela vai produzir seus efeitos, ainda que não atentemos para a sua evolução rápida e profunda. Mais uma vez, alguém poderá alegar que Larry Rohter (como eu?) está fazendo o jogo dos Estados Unidos contra a China, tentando criar rivalidades, antagonismos e incompatibilidades exageradas ou inexistentes.


Mais de uma vez ouvi de interlocutores a sugestão de não procurá-lo. ‘Vai ver, é agente da CIA’. Se fosse, merecia uma medalha por tanto tempo de serviço em missão num país que um agente americano consideraria desinteressante, fora do eixo central do poder – e ainda por cima quente e úmido. Larry casou com uma brasileira e teve com ela dois filhos. Seu interesse pelo país é sincero e decidido. Seu livro é mais uma prova nesse sentido. Aconselha os adversários ou antagonistas a procurarem um motivo mais sólido para contraditá-lo.


Decidi transcrever esta parte da introdução que ele escreveu para o capítulo dedicado à ciência e à economia como um convite ao leitor para que atente com mais para esse novo momento da história da Amazônia e do Brasil. Diz Rohter (L.F.P.):


Mas uma pergunta ainda mais importante a ser feita é se a China vê o Brasil como um parceiro e aliado, e a resposta, acho, é não. A China vê o Brasil mais do que qualquer outra coisa como uma fonte de matérias-primas para suas fábricas, e secundariamente como um mercado para seus produtos acabados. Os riscos para o Brasil numa situação como essa são óbvios: se a atual situação não for controlada, a China vai se servir das enormes reservas brasileiras de ferro, alumínio, cobre e madeira, sem oferecer nenhum valor agregado e deixando para trás a poluição como sua única contribuição.


Discuti muitas vezes esse fenômeno crescente com meu amigo Lúcio Flávio Pinto, de Belém, que considero o analista brasileiro mais sensato de todas as coisas amazônicas, e concordo com sua tese. No século XVI, ele argumenta, o Brasil forneceu as matérias-primas que possibilitaram que as casas reais de Portugal e Espanha se tornassem enormemente ricas, mas teve ele próprio poucos benefícios. No século XIX, o Brasil forneceu muitas das matérias-primas essenciais que capacitaram a Grã-Bretanha e os Estados Unidos a se industrializarem rapidamente e se tornarem potências mundiais, mas só se beneficiou marginal e tardiamente por ter cumprido esse papel.


Agora estamos no século XXI, e desta vez é a China, observa Lúcio Flávio, que tem um apetite insaciável pelos recursos do Brasil e de outros países latino-americanos. Seria de pensar que os brasileiros tivessem aprendido a amarga lição de suas duas experiências anteriores como fornecedores de matérias-primas, mas talvez não tenham. O essencial é o seguinte: o Brasil não pode simplesmente se dar ao luxo de cometer o mesmo erro pela terceira vez. Para seu próprio bem, ele deve fazer uso do poder de barganha que ainda tem e insistir em que a China receba em seus portos não somente matérias-primas enviadas do Brasil, mas também produtos acabados feitos no Brasil, que propiciem empregos e lucros aos brasileiros.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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