Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

ARMAZéM LITERáRIO > ENTREVISTA / JACÓ GUINSBURG

Um senhor editor

Por Diego Viana em 26/09/2011 na edição 661
Reproduzido do Valor Econômico, 23/9/2011; intertítulos do OI

“Para todas as perguntas, eu respondo com curvas. É que não tenho uma linha reta. A máxima euclidiana de que a menor distância entre dois pontos é a reta não se aplica a mim.” Jacó Guinsburg, editor e crítico, resume assim os caminhos da memória, enquanto relembra os episódios de uma vida que começou na Bessarábia em 20 de setembro de 1921. O fundador da editora Perspectiva, em 1965, faz questão de contar as histórias no maior detalhamento possível, citando datas e nomes com precisão. Aos 90 anos, mantém o senso de humor afiado e a disposição física invejável, mas não vê motivos para comemorar a longevidade. “Quem é que gosta de fazer 90 anos?”, pergunta, não sem um toque irônico.

Os episódios que vêm à memória de Guinsburg são inúmeros. Criado no bairro paulistano majoritariamente judaico do Bom Retiro, na década de 1930, foi o introdutor de grande parte da literatura iídiche e hebraica no Brasil. Sem experiência em teatro, tornou-se professor de crítica literária da Escola de Arte Dramática (EAD) da Universidade de São Paulo (USP) em substituição a Décio de Almeida Prado e por intermédio de Sábato Magaldi e Anatol Rosenfeld. Permaneceu na escola por mais de três décadas.

Sua editora é célebre como uma das maiores difusoras de obras de filosofia, ciências humanas e arte de vanguarda no Brasil. As coleções “Debates” e “Estudos”, respectivamente com 321 e 293 títulos publicados, mantêm desde o início uma identidade visual austera, inspirada nas grandes coleções de editoras francesas. Mas a orientação da Perspectiva, segundo o dono, é ser geral, não específica.

Jacó Guinsburg recebeu o Valor na editora, em São Paulo. Falou de sua proximidade com o poeta Haroldo de Campos, sua trajetória editorial, o futuro do livro e os novos projetos. Plenamente ativo, planeja o lançamento da obra completa do filósofo holandês (de origem portuguesa sefardita) Bento de Espinosa. Leia os principais trechos da entrevista.

“O livro tem permanência porque ocupa espaço”

As coleções da Perspectiva são conhecidas por uma imagem austera e fixa há mais de 40 anos. A permanência é intencional?

Jacó Guinsburg– Acho que o acaso é sempre intencional e a intenção é sempre casual. Projetei essas coleções antes de existir a Perspectiva, quando trabalhava na Difel [Difusão Europeia do Livro]. Estive na França com uma bolsa de estudos e conheci as grandes coleções que estavam surgindo e existem até hoje, inclusive as de bolso, a “Que Sais-Je?”, a da Minuit, a Garnier-Flammarion. Quis fazer algo assim, que se tornou a coleção “Debates”. A primeira diagramação da capa é de Alexandre Wollner. A partir dela, Moysés Baumstein e eu desenvolvemos a coleção. Já a “Estudos” é filhote da “Debates”.

Falando em coleções de bolso, esse foi um formato que demorou a pegar no Brasil.

J.G.– O livro de bolso é questão de tiragem. Tirar 500 exemplares ou mil era completamente diferente. Agora mudou, com o digital.

O digital muda o trabalho da Perspectiva?

J.G.– Vai mudar, sobretudo com os tablets. O que não significa que o livro vá sumir. Ele tem uma permanência, não obstante o poder de acumulação do digital, e uma individualidade, porque ocupa espaço. Não consigo estudar com um tablet. Ler, sim. Talvez as novas gerações consigam.

“Quem não aprendesse matemática levava régua na cabeça”

O senhor considera a possibilidade de lançar “e-books Debates”, por exemplo?

J.G.– Se puder, farei. Somos uma editora pequena, apesar dos muitos anos de existência e dos mais de mil livros editados. Seguimos nosso programa com fidelidade quase medieval, mas o mercado evolui.

O senhor chegou ao Brasil em 1924. Depois, manteve algum contato com a Bessarábia?

J.G.– Eu, não. Meu pai manteve até a Segunda Guerra. Depois, tudo estava liquidado. Os que não fugiram morreram. Não me lembro de nada disso, minha vida se passou aqui.

Nunca visitou seu local de nascimento?

J.G.– Estive na Europa, mas não fui lá. Ia para a União Soviética quando estourou Tchernobil. Minha mulher, que é física, logo viu que deveríamos ficar longe. É claro que tenho curiosidade. Talvez fosse até a cidade em que nasci, Rascani. Não sei. Não tenho nenhum vínculo, a não ser o que ouvi falar.

O senhor não gostava de estudar, mas gostava de ler. Como foi o contato com as vanguardas?

J.G.– Eu me lembro de ver Mário de Andrade cercado de discípulos. Oswald de Andrade, conheci aos 19 anos na livraria Elo, de Guido e José del Picchia. Para quem se interessava por alguma coisa, a revolução modernista foi um marco. Sobretudo para quem tinha contato com o que vinha antes, a cultura clássica, cujo lado positivo era que quem aprendia a escrever sabia escrever. Sabia português porque tinha de saber latim. O ensino era rigoroso. Quem não aprendesse matemática levava régua na cabeça. Só fui bem em uma matéria: história. Tive um excelente professor: Cesarino Jr., um dos pais do Direito trabalhista no Brasil. Como tantos outros grandes nomes, foi esquecido, mas era um homem negro, que veio de extração muito pobre e teve uma carreira intelectual brilhante.

“Foi puro acaso; faltava um professor de crítica”

O senhor levou régua na cabeça?

J.G.– Só no interior. Mas o professor vinha bater com a régua e nós enfiávamos a cabeça debaixo da carteira [risos].

Depois do modernismo, o senhor foi muito próximo dos concretistas.

J.G.– Conheci Haroldo de Campos quando trabalhava na Difel. A poesia concreta era uma novidade. É claro que nós, jovens, estávamos interessados. A presença deles na mídia era constante. Conversávamos esporadicamente sobre uma coleção que se pareceria com a “Debates”. Quando fundei a editora, convidei-o para o conselho dessa coleção. Depois veio a coleção “Signos”, que aborda a arte de vanguarda. Chegaram a nos atacar por isso. “Editora concretista”, diziam. Escreveram que Haroldo estava “vendido à sinagoga paulista”…

Ou seja, tinha uma vertente antissemita na imprensa…

J.G.– Tinha e tem. A dor de cotovelo não tem nome, só inimigos.

O senhor disse, certa vez, que o formalismo de Haroldo de Campos era o invólucro de um grande humanismo.

J.G.– Sua preocupação ética era tão grande quanto a formal. Quem se interessa por Fausto só pela forma da poesia, sem uma grande preocupação ética? Ou [Stéphane] Mallarmé? Era o caçador da arca perdida das palavras. Recorrendo a [Walter] Benjamin: era o poeta em busca da linguagem adâmica. Encontrou na poesia concreta um ponto de desenvolvimento, mas conjugava a disciplina intelectual com a busca universal de valores. Não se pode enquadrar um homem desses como “formalista”.

Da literatura e da edição, o senhor se tornou crítico teatral e professor universitário.

J.G.– Foi um puro acaso, intermediado por Décio de Almeida Prado e Sábato Magaldi, homens por quem eu nutria um grande respeito. Décio estava saindo da EAD e faltava um professor de crítica. Eu havia publicado alguns trabalhos sobre teatro, então Anatol Rosenfeld e Sábato Magaldi me indicaram a Alfredo Mesquita para substituí-lo.

“É claro que [doutor] massageou meu ego”

O senhor publicava críticas de teatro?

J.G.– Não regularmente. Era responsável, no “Suplemento Literário”“ de O Estado de S. Paulo, pela seção de letras judaicas. Anatol Rosenfeld cuidava das germânicas. Sábato Magaldi escrevia críticas de teatro. Eu escrevia sobre literatura e nunca pensei em ser professor. Até hoje, se me chamam de “professor Guinsburg”, eu me pergunto: é comigo? [Risos.]

E o doutorado? O senhor teve prazer em fazê-lo, com toda a disciplina acadêmica?

J.G.– Não tive prazer nenhum. Com a reforma da USP, no início dos anos 1970, incluíram uma cláusula em que quem tinha uma carreira podia solicitar doutoramento direto. Otto Maria Carpeaux estava fazendo uma enciclopédia e me convidou para escrever dois verbetes: sobre a literatura hebraica e sobre a iídiche. Fiz um apanhado histórico bastante completo, então mostrei a Antonio Candido e ele me tomou como orientando. Na livre-docência, trabalhei Stanislavski.

Quando alguém diz “doutor Guinsburg”, o senhor se reconhece?

J.G.– Não… Tenho um modo de ser muito mais desleixado. Não é que o título não faça bem. Faz muito bem. É claro que, pelo trabalho, queremos alguma resposta, sob forma simbólica ou outras. Mas meu impulso era o interesse pelo próprio assunto. É claro que massageou meu ego. Mas e daí?

***

[Diego Viana, da Redação de Valor Econômico]

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