Domingo, 22 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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ARMAZéM LITERáRIO > MULHER NA MÍDIA

Um bom assunto desperdiçado

Por Ligia Martins de Almeida em 17/07/2008 na edição 494

A possibilidade de que mulheres solteiras grávidas possam pedir ‘pensão’ ao suporto pai da criança é o assunto da lei – aprovada no Senado – que foi noticiada ontem pelos jornais. Tanto o Estadão como a Folha de São Paulo fizeram questão de destacar o aspecto complicado da execução da lei, caso o projeto seja sancionado pelo presidente da república: De acordo com a proposta, se o homem negar a paternidade, deverá passar por exame pericial. Em caso de resultado negativo, a autora da ação responderá pelos danos materiais e morais causados ao réu. Ao requerer a pensão, a grávida deverá expor suas necessidades e apontar o suposto pai, sua qualificação, quanto recebe ou os recursos de que dispõe’ (O Estado de São Paulo, 17/07/2008).


Segundo a Folha de São Paulo: ‘A mulher pode pedir na Justiça que o suposto pai de seu filho contribua em despesas de alimentação, exames médicos, remédios e parto.
É preciso, porém, que a mãe reúna provas de que o indicado é pai da criança. Caso ele negue a paternidade, será preciso fazer ‘exame pericial pertinente’, o que pode ser lido como teste de DNA. O procedimento é desaconselhado por médicos’.


A imprensa, mais uma vez, ficou no superficial, limitando-se a ouvir médicos e juristas, que denunciaram a ineficiência da lei. Os médicos ouvidos pela Folha dizem que os exames de DNA não são recomendáveis durante a gravidez; os juristas, entrevistados pelo Estadão, afirmam que as mulheres que mais precisariam dos exames de DNA são as de baixa renda, que dependem do sistema de saúde público para conseguir tais exames. O que é demorado.


Mas o ponto central da questão não foi abordado por nenhum dos jornais: o atendimento que as mulheres grávidas de baixa renda recebem do Sistema Unificado de Saúde, o SUS. Se o SUS está fazendo seu papel e dando acompanhamento pré-natal às mulheres carentes, a nova lei não faz sentido. Se o SUS não faz o seu papel, é preciso que a imprensa mostre isso aos leitores e tente ouvir as autoridades competentes sobre o assunto.


Simplesmente noticiar a aprovação da lei, sem discutir seus fundamentos e seus possíveis efeitos é ir pouco além do press-release que deve ter sido enviado pelo autor do projeto, interessado em ter seu nome na mídia nesses tempos de campanha eleitoral. Se a descriminalização do aborto merece tanto destaque na mídia – talvez porque o assunto seja polêmico e gera debates – a assistência às gestantes também deveria ter, pelo menos, o mesmo espaço.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/07/2008 Paulo Pontes

    Eu estava num debate na faculdade quando me perguntaram o que eu achava do mundo atual. Respondi que parecia estar estagnado e sem avanços quaisquer. Uma das organizadoras me reprovou afirmando que a Ciência derrubava minha teoria, com os fantásticos avanços que a televisão mostrava. Depois disso, resolvi nuca mais voltar àquele lugar. Vai que o restante da isntituição defendesse a mesma bandeira da ilusão humana sobre essa máscara de humanismo que encontramos no sistema em que vivemos. Desde que a humanidade comprendeu bem que os direitos são para os capitalistas e os deveres para os descapitalizados, vemos sem vergonha alguma, os senhores do mercado apontando suas armas revestidas de preconceitos contra as classes desfavorecidas. Cansado estou de ver os jovens tentando se afirmar com ataques verbais contra aqueles que tem mais anos de vida do que eles. Os portadores de deficiência são jogados em instituições que existem apenas para que empresas do primeiro setor tenham deduções do IR. As pessoas não-brancas ainda são vistas como verdadeiros alienígenas neste planeta. E as mulheres….ah, as mulheres, recebem o tratamento parco como um dos comentaristas machista que se pronunciou antes de mim. O capitalismo é masculino, por representar competitividade, lei do mais forte, guerra de mercados e etc. Lugar de mulher é onde se possa usar o cérebro sem preconceitos infantis.

  2. Comentou em 17/07/2008 Paulo Pontes

    Eu estava num debate na faculdade quando me perguntaram o que eu achava do mundo atual. Respondi que parecia estar estagnado e sem avanços quaisquer. Uma das organizadoras me reprovou afirmando que a Ciência derrubava minha teoria, com os fantásticos avanços que a televisão mostrava. Depois disso, resolvi nuca mais voltar àquele lugar. Vai que o restante da isntituição defendesse a mesma bandeira da ilusão humana sobre essa máscara de humanismo que encontramos no sistema em que vivemos. Desde que a humanidade comprendeu bem que os direitos são para os capitalistas e os deveres para os descapitalizados, vemos sem vergonha alguma, os senhores do mercado apontando suas armas revestidas de preconceitos contra as classes desfavorecidas. Cansado estou de ver os jovens tentando se afirmar com ataques verbais contra aqueles que tem mais anos de vida do que eles. Os portadores de deficiência são jogados em instituições que existem apenas para que empresas do primeiro setor tenham deduções do IR. As pessoas não-brancas ainda são vistas como verdadeiros alienígenas neste planeta. E as mulheres….ah, as mulheres, recebem o tratamento parco como um dos comentaristas machista que se pronunciou antes de mim. O capitalismo é masculino, por representar competitividade, lei do mais forte, guerra de mercados e etc. Lugar de mulher é onde se possa usar o cérebro sem preconceitos infantis.

  3. Comentou em 17/07/2008 Henrique Dorneles

    Excelente artigo Ligia Martins de Almeida. Acredito que ele aborda o que, em meu entender, é o mais claro indicativo da manipulação perversa dos meios de comunicação de massa. A ladainha de lidar com fatos, sem abordar seus significados, como se isso representasse uma atuação midiática imparcial, na realidade, revela que os meios de comunicação comerciais não estão nem um pouco dispostos a esclarecer a população, mas sim, criar imensos públicos passivos, vulneráveis ao sensacionalismo. Porque nossos mais renomados professores universitários, como historiadores, sociólogos, filósofos, antropólogos, enfim, especialistas em humanidades, estão quase que permanentemente afastados das telas e dos rádios?

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