Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ARMAZéM LITERáRIO > ANTONIO CANDIDO, 95

Um mito em franca atividade

Por Flávio Moura em 13/08/2013 na edição 759

Reproduzido do Valor Econômico, 9/8/2013; intertítulos do OI

Em plena forma, Antonio Candido completou 95 anos em julho. É como se Mário de Andrade acabasse de fazer anos e reunisse os amigos numa feijoada na rua Lopes Chaves. Como se Sérgio Buarque de Holanda seguisse entre nós, cantando samba e contando piadas em sua casa no Pacaembu. Como se Carlos Drummond de Andrade ainda circulasse pelo Rio, cumprimentando com timidez os amigos nas ruas de Copacabana. O professor tem a mesma estatura dessas e outras tantas figuras icônicas da cultura brasileira – e, a exemplo delas, também precisa lidar com as contradições de ser transformado em mito, ainda que em franca atividade.

Poucos intelectuais brasileiros receberam tantas (e justas) homenagens. Em livros comemorando seus 70, depois 80 anos. Em artigos acadêmicos, de jornal, e teses sobre seus trabalhos. Em premiações, convites, honrarias de todas as ordens e até cursos inteiros na pós-graduação dedicados à sua obra, reconhecimento que eu saiba jamais concedido a outro crítico literário em atividade.

Poucos prezam tanto a discrição e a humildade. Recebe os mais próximos em sua casa, mas há tempos restringe as aparições públicas e os textos a assuntos de exceção: fazer jus à memória de amigos, como Oswald de Andrade, Décio de Almeida Prado, Caio Prado e Paulo Emilio Salles Gomes. E a gestos ocasionais – mas significativos – de intervenção política.

O exame da literatura

Há mais de 60 anos ostenta a pecha de principal crítico literário do Brasil. Como iniciou a atuação num momento em que a literatura ainda ocupava o centro da vida cultural no país, traz de outro tempo um prestígio que hoje não se encontra mais associado às letras, ao menos não à ficção. Atualmente, suplementos literários são extintos a cada dia e tidos como jornalismo de perfumaria. Em sua época, os rodapés viviam o auge e a caça pelos “novos nomes” da literatura podia pinçar autores do calibre de João Cabral de Melo Neto ou Clarice Lispector.

Quando deu início à carreira universitária, primeiro armou-se teoricamente na sociologia e depois passou à crítica literária não apenas como um pesquisador de proa, mas como mentor institucional: participou da fundação de departamentos de estudos literários na USP e Unicamp, tendo criado uma agenda de pesquisa e orientado algumas gerações de professores que puderam dar continuidade a seu legado (e, em alguns casos, disputá-lo ferrenhamente, num arco disciplinar que envolve, além da literatura, a filosofia, a antropologia e a sociologia).

Sua contribuição teórica partilha ainda de um momento em que a vida intelectual comportava obras de síntese sobre o Brasil – no auge do nacional-desenvolvimentismo, a preocupação em dar lastro para o projeto de autonomia nacional estava por trás de seu trabalho mais importante, a Formação da Literatura Brasileira (1957). Seu livro significa para o exame da literatura o que a Formação Econômica do Brasil (1959), de Celso Furtado, representa para a economia.

Argumento de autoridade

Num registro temporal mais amplo, partilha com Gilberto Freyre, Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda uma largueza de escopo, aliando anseio por modernização e justiça social, densidade teórica e qualidade estética, que o pensamento social brasileiro jamais voltou a igualar. Partilha também, com Freyre e Sergio Buarque, o gosto pela forma do ensaio, incorporando o legado do modernismo numa escrita cristalina e de coloração mais clássica. Ao contrário deles, contudo, é o único que testemunha uma batalha a céu aberto por seu legado.

Um análogo na arquitetura seria Oscar Niemeyer. A língua portuguesa é uma barreira óbvia para a projeção internacional de um crítico de literatura em relação a um arquiteto, mas a sombra que Candido projeta sobre as gerações seguintes é semelhante. Com a vantagem de não ter incorrido em obras irregulares no fim da carreira. E de uma militância política mais consistente, avessa ao stalinismo e ao socialismo real. Contribui ainda para sua estatura a distância que consegue guardar do oficialismo. Passa longe de agremiações como a Academia Brasileira de Letras, ambígua na sua composição que acolhe intelectuais sérios e beletristas sem importância, e de cargos políticos e administrativos, já oferecidos à larga a ele por diversos governos do PT.

Candido convive hoje com a própria mitificação, que é uma maneira cruel de congelar a vitalidade de seu pensamento. Citar seu nome virou argumento de autoridade. Da breve resenha de jornal à apreciação mais fina da história da literatura, sua autoridade é invocada como tábua de salvação. Tive uma professora num curso de pós-graduação na USP que uma vez encerrou desta maneira uma discussão sobre Oswald de Andrade: “O Antonio Candido o considera um dos maiores, tá? O Antonio Candido!”, ela dizia, com o lábio trêmulo e a expressão triunfante.

“E não é que o velhinho leva jeito?”

Candido pautou boa parte dos temas ainda pesquisados na universidade e erigiu muitos de seus companheiros de geração em objeto de estudo, num movimento que contribuiu para a hegemonia de que o modernismo desfruta nos estudos literários, com consequências nem sempre frutíferas. Traçou os limites da leitura do ensaísmo sobre o Brasil elegendo os intérpretes legítimos – o que ficou dito sobre Freyre e Sérgio Buarque neste mesmo artigo tem origem no seu ponto de vista, impregnado de tal modo no debate a ponto de já ter se naturalizado.

Seriam bem-vindos interlocutores interessados em discutir de fato essas contingências de sua trajetória, para além da luta política travestida de defesa do barroco, como fizeram os poetas concretistas, ou de invectivas de críticos menos importantes, em textos que fazem mais atestar a centralidade de Candido do que discutir os pressupostos de seu trabalho. (Em geral, tentando diminuí-lo com a pecha de “sociológico”, como se o termo fosse pejorativo por si, e muitas vezes ignorando a precedência da dimensão estética de suas leituras.)

Talvez a definição mais arguta a seu respeito venha de um calouro da Unicamp, conforme história relatada pelo crítico Samuel Titan Jr., em texto para O Estado de S. Paulo. Alguns anos atrás, Candido fazia uma conferência na universidade. Animado com a namorada, o calouro, na primeira fileira, não desgrudava dela, em amassos dignos de seus 18 anos. De repente, o casal aprumou-se e, em pouco tempo, sorvia as palavras do palestrante de olhos arregalados. Terminada a fala, disse para a menina: “E não é que o velhinho leva jeito?” (Agradeço as valiosas sugestões de Lilia Schwarcz, Marcos Nobre, Samuel Titan Jr., Leandro Sarmatz e Otávio Marques da Costa).

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Flávio Moura é jornalista, editor de livros e doutor em sociologia pela USP

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