Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > INTELECTUAIS E IMPRENSA

Uma relação complexa

Por Valentim Facioli em 06/07/2010 na edição 597

Este é um livro exemplar na atualização de um antigo e curioso debate: a contribuição da mídia escrita (jornais e revistas) para a formação e consolidação da cultura letrada no Brasil. Estamos falando do século 19, um mundo sem meios ou recursos eletrônicos de comunicação, onde e quando o debate cultural, político e literário se fazia pela escrita.

Num país com proporções alarmantes de população analfabeta e incapaz de ler (talvez algo como 90% a 95%) o suposto é de que o debate nos jornais e revistas só atingia um público mínimo, configurando assim uma ‘exclusão pré-histórica’ num abismo entre a camada letrada e o resto…

Parece que não era geral a consciência dessa anomalia, tanto que foi bem pequeno – e quase circunstancial – o empenho dos letrados em favor da expansão do aparelho escolar. As letras eram privilégio de classe, fundado na perversidade da herança colonial, da violência escravista e da hegemonia da fração terratenente. A mesma literatura brasileira formava-se no interior desse quadro e também nele corriam os debates sobre a situação do país, de seus dilemas e suas perspectivas de futuro.

Porém, desde a chegada de D. João VI, abre-se um horizonte progressista, cuja evidência profundamente deformada não oculta, contudo, um avanço extraordinário que vai, aos poucos e lentamente, ganhando consistência e acumulando discussões, ideias, propostas, alternativas, ampliando o horizonte do país atrasado e periférico (ainda que tal vocabulário seja de agora, apenas).

A exemplaridade deste livro é que os ensaios de diferentes professores que o constituem – resultado do IX Seminário de Estudos Literários da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, campus de Assis (SP) – fazem avançar um sólido conhecimento, através de pesquisas cuidadosas e originais, das fontes, origens e termos dos debates em que se empenhou a camada letrada do país, durante todo o 19 e parte do século 20.

Nesses ensaios estão perfil e substância do que fomos e, agora, século depois, mostram-se esclarecedores e esclarecidos para evidenciar os danos e os avanços da nossa formação, letrada principalmente, mas também do potencial que insemina matéria de futuro para o próprio país. A emancipação não se faz de um salto e este livro contribui para esse caminho longo e sinuoso.

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Professor da Universidade de São Paulo, autor de Um defunto estrambótico e Por uma arte revolucionária independente, entre outros

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