Domingo, 17 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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ARMAZéM LITERáRIO >

Uma utopia a ser perseguida

Por Paulo Lima em 15/08/2006 na edição 272

A jornalista e tradutora Leneide Duarte-Plon ouviu três gerações de mulheres acerca de seus relacionamentos amorosos. No centro da discussão, um tabu: a infidelidade feminina. Ao todo, 12 mulheres confidenciaram as razões que as levaram a ser mais, ou menos, fiéis a seus pares amorosos. O resultado está publicado no livro Por que as mulheres são (in)fiéis, recém-lançado no Brasil pela Ediouro.


A autora, que vive desde 2002 em Paris e já trabalhou para diversos veículos, como Folha de S.Paulo, O Globo, Veja e Jornal do Brasil, examina na primeira parte de seu ensaio a condição da mulher tomando como ponto de partida o célebre relacionamento de Jean Paul-Sartre e Simone de Beauvoir, inspirador de muitas experiências libertárias em torno do casamento. Dialogando com inteligência com fontes da psicanálise, da literatura e da filosofia, a jornalista oferece uma boa síntese da submissão da mulher ao longo da história.


É na segunda parte do livro, porém, que o desafio da fidelidade se materializa nas ricas experiências de brasileiras e francesas. Conquistas e frustrações se alternam nos caminhos perseguidos para atingir a felicidade amorosa. E são muitas as vivências. Para a brasileira Cecília, de 54 anos, a fidelidade é um ‘conceito histórico’. Conforme Priscilla, 49 anos, também brasileira, a fidelidade é ‘uma coisa muito subjetiva’. Já para a francesa Claude, 48 anos, existem ‘diversas formas de infidelidade’. Considerado o conjunto dos depoimentos, foram ‘as mulheres mais jovens que mais defenderam a fidelidade como um valor a preservar dentro de uma relação amorosa’, disse Leneide Duarte-Plon nesta entrevista concedida por e-mail.




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As mulheres que você ouviu pertencem a três gerações diferentes. Com relação à infidelidade, como uma geração se diferencia da outra?


Leneide Duarte-Plon – Ouvi mulheres que começaram a vida sexual pouco antes do lançamento da pílula anticoncepcional. Ouvi outras que começaram a vida amorosa e sexual pós-pílula e que, conseqüentemente, tinham uma postura mais livre e mais desenvolta quanto ao amor e ao sexo, pois já se beneficiaram das conquistas do movimento feminista. E, finalmente, a geração de mulheres que começaram a vida sexual pós-Aids e tiveram que se submeter ao teste anti-HIV a cada nova relação amorosa. Essas três gerações têm necessariamente uma visão um pouco diferente da fidelidade. Como não ouvi mais que 12 mulheres, não posso tirar conclusões apressadas, seria irresponsável e pouco rigoroso do ponto de vista científico. Mas pude constatar que as mais jovens são as que mais defenderam a fidelidade como um valor a preservar dentro de uma relação amorosa.


Em sua exploração do tema, você percebeu alguma diferença fundamental entre brasileiras e francesas?


L. D. P. – Tanto as francesas quanto as brasileiras querem amar e ser amadas. Talvez as francesas que ouvi se sentiam mais livres dentro de uma relação durável, tinham mais liberdade de ação. Essa posição é uma realidade entre os intelectuais, influenciados pelo ideal de casal representado por Sartre e Simone de Beauvoir. Como ouvi mulheres que passaram pela universidade e foram influenciadas pelas idéias libertárias do feminismo, elas não são representativas de todas as camadas da população francesa. Não vi diferenças fundamentais entre as brasileiras e as francesas que ouvi, pois em ambos os grupos as mulheres pertenciam à classe média urbana, de nível universitário, com amplo acesso à informação e às conquistas do feminismo.


Qual depoimento mais a impressionou? Por quê?


L. D. P. – Todos os depoimentos são ricos, intensos e representam fatias de vidas, retratos de mulheres que se confiaram em toda liberdade, graças ao recurso do depoimento anônimo. Mas fiquei particularmente impressionada por descobrir uma mulher que juntamente com seu companheiro atual se entrega a jogos amorosos a três, sempre com uma outra companhia feminina. Acho esse comportamento bastante fora do comum, um tanto perverso, e confesso que não vejo nele um modelo a ser seguido pelos casais que querem construir uma relação amorosa fértil e profunda.


Com base em fontes variadas, você faz uma espécie de arqueologia da submissão da mulher em várias culturas. No século 21, essa submissão poderá ser atenuada?


L. D. P. – Nos países ocidentais essa submissão tende a ser atenuada, apesar do crescimento do fundamentalismo cristão nos Estados Unidos. Mas nos países muçulmanos, onde os fundamentalistas vêm ganhando espaço pelo voto ou através de regimes ditatoriais, a situação da mulher piora, elas são submetidas a leis medievais. Na maioria dos países muçulmanos, o status das mulheres é de um cidadão de segunda classe, tutelado pelo pai ou pelo marido. Elas não podem sair sozinhas sem o marido, pai ou irmão, não podem nem mesmo dirigir um automóvel, como na Arábia Saudita. E o voto ainda é um direito masculino em alguns países muçulmanos. E quando os fundamentalistas ganham influência, a situação das mulheres se torna catastrófica, como mostro no livro, quando falo da situação das mulheres no Afeganistão dominado pelos talibãs. A luta pela libertação da mulher ocidental avança na maioria dos países. Mas não podemos nos esquecer das que estão submetidas a preceitos religiosos retrógrados que as oprimem em nome do Alcorão, da Bíblia ou outros livros sagrados, escritos por homens, em todos preocupados em controlar o desejo feminino, o que na origem tinha por objetivo garantir a origem da progenitura. Mas não podemos nos esquecer das que estão submetidas a preceitos religiosos retrógrados, que as oprimem em nome do Alcorão, da Bíblia ou de outros livros sagrados, escritos por homens, preocupados em controlar o desejo feminino, para garantir a origem da progenitura nas sociedades patriarcais.


No livro, você cita o caso da militante francesa, filha de argelinos, Fadéla Amara, que tem levado adiante o movimento ni putes ni soumises (nem putas nem submissas), o qual defende a convivência de homens e mulheres. Você acha que essa é a marca do feminismo no século 21?


L. D. P. – Sim, acho que o feminismo, isto é, o movimento pela igualdade entre homens e mulheres, deve ser uma luta de ambos os sexos. Assim como qualquer movimento de defesa dos direitos humanos, o feminismo deve congregar todos os democratas que lutam pela igualdade de direitos e deveres em todos os campos da atividade humana. Por que dispensar o talento, a sensibilidade e a força criativa de metade da humanidade do sexo feminino? Não é um desperdício e uma insanidade deixar de contar com a força e o talento das mulheres na política e nas artes em geral ? Se o mundo fosse dirigido por mulheres e por homens, em proporções iguais, não poderia ser mais justo e menos violento?


Com a exacerbação da concorrência interpessoal imposta pelo mundo globalizado, a relação entre homens e mulheres não poderá sofrer mais tensão, e não o contrário?


L. D. P. – Isso ocorre quando a mulher é vista como uma concorrente e não como uma cidadã de pleno direito. O mundo globalizado desperta tensões necessariamente entre os países porque a lógica desse mundo é o lucro, num capitalismo triunfante que esmaga valores como solidariedade, igualdade e fraternidade. A lei do mais forte é o lema do mundo globalizado como prova a invasão americana no Iraque e a recente invasão israelense do Líbano, ignorando todas as resoluções da ONU e os protestos dos povos. A ‘comunidade internacional’, cada vez mais enfraquecida, assiste totalmente impotente a essa nova realidade de domínio da força sobre o Direito internacional. Diante dessa realidade brutal, isto é, a lei do mais forte que se impõe sobre o Direito internacional, as relações entre os sexos tendem se deteriorar, pois os valores que impuseram o ideal de igualdade são desprezados na busca do crescimento econômico e do lucro a qualquer preço.


As mulheres por você ouvidas revelam inúmeras razões para serem infiéis. Cecília, por exemplo, afirma: ‘Acho que a fidelidade é um conceito histórico’. Trata-se de um conceito histórico ou plenamente subjetivo?


L. D. P. – Acho que é um conceito subjetivo influenciado por diferentes realidades sociais e históricas. Houve sociedades em que a infidelidade foi praticada em classes privilegiadas, como na corte dos reis franceses, onde o soberano e os aristocratas tinham amantes (tanto os homens como as mulheres eram infiéis) abertamente. Em alguns casais modernos, a liberdade de corpos e de espíritos, como queriam os existencialistas, é uma premissa. Outros lançam as bases da relação sobre a fidelidade absoluta dos cônjuges. Cada casal deve encontrar a ética que lhe convém e construir uma vida em comum baseada em suas expectativas de felicidade.


O filósofo Bertrand Russel, cujas idéias sobre o casamento você examinou, acreditava que, numa sociedade civilizada, homens e mulheres são em geral polígamos. A fidelidade é uma utopia?


L. D. P. – Para alguns, a fidelidade é uma utopia a ser perseguida. Para outros, é um ideal inatingível. Cada relação é única e o casal deve construir sua própria ética que funciona de acordo com o universo intelectual e moral das duas pessoas que o formam.


Você observa que a emancipação da mulher tem sido um horizonte inspirador para as feministas, porém nenhum país do mundo atingiu essa igualdade. Esse é um ideal inalcançável?


L. D. P. – Não acho que seja um ideal inalcançável. Os países nórdicos repousam sobre sociedades nas quais as mulheres têm uma participação política e social praticamente igual à dos homens. O parlamento tem deputados e senadores de ambos os sexos em proporções quase iguais. A França, um país do ocidente bastante avançado nas lutas feministas, ainda está longe de atingir a participação ideal das mulheres na política. As mulheres ainda são menos de 10% no parlamento francês, mas, a menos de dez meses das eleições presidenciais, Ségolène Royal aparece como a preferida do eleitorado socialista para as eleições de abril do ano que vem. Os machistas já começaram a fazer piadas infames tentando minar sua candidatura, mas ela cresce a cada dia. Em novembro, quando os militantes socialistas deverão escolher seu candidato, é possível que a França tenha a primeira mulher candidata ao posto máximo. E a vitória de Ségolène Royal é uma possibilidade concreta, o que mostra que as mulheres francesas não querem ver a polícia como um domínio exclusivamente masculino. Hillary Clinton é freqüentemente citada como possível candidata dos democratas nas próximas eleições americanas. Michèle Bachelet no Chile pode ser o começo de uma maior participação feminina na política dos países da América Latina. No Brasil, a senadora Heloisa Helena traduz essa participação e sua campanha é importante para mostrar o papel positivo das mulheres na política nacional, apesar da fraca participação feminina no Parlamento.


Neste aspecto, você cita estatísticas curiosas sobre o Brasil. As mulheres são 43% da população economicamente ativa, mas somente 9% ocupam cargos de direção nas empresas. Esta é uma expressão típica do nosso machismo?


L. D. P. – A percentagem de nossa população feminina economicamente ativa, 43%, e a percentagem de mulheres no parlamento e nos cargos de direção das empresas, ambas abaixo de 10%, é uma prova de que temos ainda um longo caminho a percorrer até chegarmos à igualdade entre homens e mulheres no Brasil!


Para as novíssimas gerações, hoje prevalece o ‘ficar’, o estar com o máximo de namorados ou namoradas. No futuro, essa atitude poderá contribuir para uma nova idéia de fidelidade?


L. D. P. – O ‘ficar’ dessa nova geração talvez represente uma busca de novas referências nas relações amorosas. Não sei se é uma forma de se conhecer e de escolher o par definitivo (que seja eterno enquanto dure!) mais indicada do que a do antigo namoro, praticado nas gerações anteriores. Acho que o ‘ficar’ praticado hoje talvez seja um conhecimento mútuo feito de contato físico que substitui a antiga paquera, quando os olhares e a tímida troca de palavras eram capazes de gerar emoções e sensações avassaladoras. Hoje, os jovens são mais desinibidos e expressam com o corpo a atração sexual. Talvez haja menos espaço para o romantismo e a idealização do outro. O fato é que eles têm uma liberdade sexual impensável nas gerações que os antecederam.


Emilio Rodrigué, psicanalista argentino por você citado no livro, acredita, como Lacan, que a fantasia básica do homem é possuir todas as mulheres do mundo, enquanto a fantasia básica da mulher é ter o homem ideal para si. Estamos eternamente condenados à guerra dos sexos?


L. D. P. – Acho que a frase de Lacan citada por Emilio Rodrigué não expressa a guerra dos sexos, mas uma prova de que homens e mulheres têm fantasias diferentes em relação ao amor. Em geral, as mulheres querem o homem amado para si e procuram mantê-lo debaixo de suas asas. Já os homens, segundo essa assertiva de Lacan, têm a fantasia de possuir todas as mulheres do mundo, mesmo aqueles que não cedem ao impulso de correr atrás de todas as mulheres desejáveis que encontram. Na realidade, segundo Lacan, todo homem tem um Don Juan adormecido dentro de si.

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Jornalista, editor do Balaio de Notícias

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