Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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11/08/2009 na edição 550

TELEVISÃO

Marcelo Marthe

A estrela no escuro

‘Desde que ganhou projeção nacional como Anita, a cega sonhadora da novela Caras & Bocas, a paranaense Danieli Haloten tem sido assediada por ONGs. Elas reivindicam que sua personagem abrace com mais ênfase as causas dos deficientes visuais. ‘Nem respondo mais a esses e-mails. Não é por ser cega que tenho de levantar bandeiras’, diz ela.. Primeira cega a atuar num folhetim da Globo, Danieli, de fato, já conquistou o que interessa: o público. Uma pesquisa com espectadoras revelou que Anita é um dos acertos da trama das 7 – que, aliás, é o maior sucesso do horário nos últimos tempos.

A personagem está no centro de um romance açucarado: a cena em que seu namorado, Anselmo (Wagner Santisteban), revelou que não era rico como alardeava foi pico de audiência. Além disso, é admirada por sua luta para provar que está apta para o trabalho – contrariando a superproteção condescendente do irmão, Gabriel (Malvino Salvador). No começo, Anita vendia flores num restaurante (alusão à florista de Luzes da Cidade, filme de Charles Chaplin dos anos 30). Na semana passada, conseguiu emprego como recepcionista. ‘Quero mostrar que a deficiência não impede a pessoa de se realizar.. Só que nada vem sem esforço’, diz o autor Walcyr Carrasco.

Filha de um caminhoneiro e de uma dona de casa, Danieli, hoje com 29 anos, perdeu a visão aos 17, em razão de um glaucoma. Cursou artes cênicas e jornalismo e logo se embrenhou na TV, como apresentadora de um programa local em Curitiba. ‘Desde pequena, eu sabia que meu negócio era trabalhar com teatro e televisão’, afirma. Sua primeira grande chance veio em 2006, quando participou do Profissão Repórter (então um quadro do Fantástico). A conquista do papel em Caras & Bocas mostra o desembaraço da moça. Ela teve a sorte de receber um spam no qual constavam os e-mails de autores e diretores da Globo – e não teve pudor em utilizá-los: ‘Sempre que algum deles preparava um novo trabalho, eu disparava uma mensagem me oferecendo para o elenco’. Uma dessas ofertas bateu na caixa-postal de Carrasco, que cogitava incluir uma personagem cega em Caras & Bocas – e não queria uma atriz que enxergasse simulando a defi-ciência. ‘Buscava alguém com a fragilidade natural de quem se locomove com bengala e cão-guia’, diz.

Danieli decora os roteiros com a ajuda de um programa de computador que os lê com um simulador de voz. Antes das gravações, faz um reconhecimento do cenário e memoriza seus passos. Os atores com quem contracena também precisaram se adaptar – pois a famigerada ‘química’ da interpretação não é obtida pelo olhar, obviamente, e sim pelo tom de voz. Depois de se converter numa das mocinhas da novela, Danieli se mudou para o Rio de Janeiro com sua irmã mais nova, para quem arranjou um emprego de figurante em Caras & Bocas. Trouxe também o labrador Higgans. Recentemente, ela protagonizou um bate-boca num restaurante carioca. O dono tentou proibir a entrada do bicho – ao que a moça bateu o pé. ‘A Lei do Cão-Guia me dá esse direito’, afirma. Mais adiante, na novela, Anita também vai ganhar seu cão-guia.’

 

***

Bela, a estranha

‘As novelas da Record sempre foram meio sisudas. Embora algumas até exibam núcleos cômicos, o tom geral é de excesso dramático – e tome tiroteios, iluminação sombria, temas musicais dilacerantes. Humor, mesmo, só o involuntário, como o da recém-finada saga dos mutantes. Nesse universo, Bela, a Feia é um corpo estranho. O folhetim é a versão brasileira para o sucesso surgido na Colômbia há dez anos e exportado para vinte países. Todas as regravações obedecem à mesma fórmula: uma fábula sobre uma mocinha horrenda que conquista o patrão playboy. Mas há nuances. O original colombiano tem uma pitada a mais de romantismo: culmina com a transformação da personagem num cisne que fisga o coração do chefe. Na americana Ugly Betty, uma série cômica, tudo indica que a personagem continuará feia mesmo – e não vai se envolver com o patrão. Embora sua fonte oficial seja a versão da rede mexicana Televisa, a novela da Record bebe despudoradamente da similar americana. Trata-se de uma comédia rasgada, cujo cenário moderninho é idêntico ao americano, ainda que o ambiente seja uma agência de publicidade (Ugly Betty se passa na redação de uma revista de moda). Mesmo assim, o folhetim tem um pé na tradição dos melodramas nacionais: a protagonista (que aqui se chama Bela, e não Betty) vive num meio de sambistas cariocas que é a cara dos núcleos popularescos de Glória Perez. Em sua semana de estreia, esse coquetel tropical não disse a que veio: na quarta-feira, a novela amargou míseros 9 pontos de ibope em São Paulo (a Record esperava 20).

Bela, a Feia também foge daquele tom solene de sermão dos bispos do Fala que Eu Te Escuto por abraçar outro aspecto da versão americana: é uma novela muito gay. Entre seus personagens, há um editor de moda negro cheio de trejeitos – que, ao que se sugere, tem um rolo com um personal trainer loiro – e o tio cabeleireiro de Bela, com seu assistente enrustido. O colorido GLS vigora também na caracterização do ‘mundinho fashion’ – e da própria Bela. O visual da atriz Giselle Itié foi desconstruído (veja o quadro) pelo amazonense Márcio Farache, que se define como ‘visagista’ (‘cuido da estética de forma holística’, explica). Só para chegar ao aparelho dentário ideal, ele garante ter visitado 27 clínicas odontológicas. ‘Não é um aparelho normal. É artístico’, diz. Giselle usa ainda um macacão de enchimentos que a faz saltar do manequim 38 para o 44. Ela enverga um sutiã que faz seus seios dobrar de volume. Essa moça é uma santa.’

 

INTERNET

Cíntia Borsato

O seu, o meu, o nosso conteúdo

‘A lei de propriedade intelectual significou um avanço inquestionável para as artes e a ciência. Quando surgiu, na Inglaterra do século XVIII, foi o que legitimou pela primeira vez uma ideia que viria a se tornar um dos alicerces do mundo moderno: a de que o autor é dono de sua obra e deve ser recompensado sempre que ela trouxer ganho financeiro a outra pessoa. Durante quase 300 anos, a lei permaneceu inabalada em sua essência, realizando uma dupla tarefa: garantir que por certo período artistas e inventores seriam remunerados e, ao mesmo tempo, permitir que cada criação fosse um elo numa cadeia de inovação que se estendia pelo futuro e assim beneficiava a sociedade. Isso até o aparecimento da internet. Com a rede, a amplitude e a velocidade das trocas de informação cresceram exponencialmente – o que resultou na situação atual: o velho conceito de propriedade intelectual está em xeque. Só de músicas passíveis de direitos autorais, mais de 35 milhões são baixadas todos os dias, sem que ninguém pague por elas. Um cenário que dificilmente vai mudar. Antes de tudo, por uma razão tecnológica. Se de um lado os avanços tornaram mais fácil acessar o conteúdo, de outro, passou a ser impossível exercer o mesmo controle de antes sobre ele. Ainda que fosse factível, contudo, restaria uma questão das mais controversas. Existe um consenso de que a cópia para venda configura pirataria e deve ser punida. A polêmica gira em torno da pena para quem faz o download para uso próprio – seja com fins de lazer, seja como inspiração para algum tipo de trabalho. Esse também é um infrator aos olhos da lei. Diz o especialista americano James Boyle, da Universidade Duke: ‘A percepção das pessoas sobre propriedade intelectual se transformou profundamente. Discute-se agora a mudança da lei – resta saber em qual direção’.

O debate tem dois campos claramente definidos. Uns acham que a legislação precisa se tornar mais dura, para conter os abusos. Outros defendem justamente o contrário. É o caso da estudante de economia Amelia Andersdotter, 21 anos e 6 000 músicas baixadas no PC (sem pagar). Ela se tornou uma das vozes de maior relevo entre os defensores da liberdade quase total para o uso das informações na rede. Filiada ao Partido Pirata sueco, que já inspirou o aparecimento de outros semelhantes em dezesseis países, e deputada recém-eleita para o Parlamento europeu, a moça agita a seguinte bandeira: dispensar os direitos autorais de todo o conteúdo baixado na internet sem propósito comercial e encurtar drasticamente o período de duração da propriedade intelectual na Europa – de setenta anos para dez. Pretende ainda brigar pelo direito de usar uma ideia já existente para criar um novo produto, mesmo que ele seja vendido depois. Basta que não seja uma cópia. ‘Precisamos derrubar os obstáculos à criatividade’, discursou a jovem política, ao telefone, fazendo coro com radicais como o americano Chris Anderson. Editor da revista Wired, Anderson ganhou certa projeção com seu recente livro Free, The Future of a Radical Price (‘Grátis, o Futuro dos Preços’, que sai em agosto no Brasil). Em meio a ideias antigas (como a de que é possível bancar a gratuidade na internet com publicidade) e outras pouco concretas (como não cobrar nada por passagens de avião ou de carro), o livro traz um bom resumo do momento: as pessoas não se veem mais pagando pelo conteúdo que circula na rede.

Não é um grupo pequeno. Um levantamento da consultoria americana CacheLogic calcula que mais da metade de todo o tráfego de informações na internet se presta ao download. Apesar de a maioria estar sujeita a direitos autorais, ninguém paga. Está-se falando de gente como o estudante de ciências da computação Diogo de Campos, 20 anos, que, apesar de ‘fanático’ por música, jamais comprou um CD na vida: ‘Não vejo por que ir à loja, se posso baixar facilmente as músicas de casa’. Recentemente, ele e mais 8 000 jovens de 28 nacionalidades se reuniram em Porto Alegre num fórum internacional dedicado a discutir a flexibilização das regras para o uso de informações contidas na internet. Ali, em meio a jovens atracados aos seus laptops, era impossível perder de vista o sueco Peter Sunde, 30 anos, que desfilava com uma jaqueta verde-palmeira e recebia tratamento de celebridade. Explica-se: Sunde é um dos fundadores do Pirate Bay, um dos mais populares da atual geração de sites que ajudam as pessoas a baixar arquivos por meio da tecnologia P2P – peer to peer, ou ‘entre colegas’, em português (veja o quadro). Por manter o site, que no entendimento da Justiça sueca se presta a facilitar a violação da propriedade intelectual, Sunde e seus três sócios foram condenados, em abril, a um ano de prisão. Enquanto recorriam da sentença, passavam o negócio adiante por 8 milhões de dólares. O acesso ao site só fez subir. Resume o sueco: ‘É um fenômeno consumado’.

Todos reconhecem a dificuldade de conter os acessos ilegais. Apesar disso, há um grupo que ainda luta para reduzi-los. Uma ideia para inibir o download irrestrito é obrigar os provedores a divulgar a identidade daqueles que baixam música sem pagar direitos autorais. Seus principais defensores vêm da indústria de entretenimento, que acumula perdas na casa dos bilhões com as infrações. O mercado fonográfico míngua ano após ano, de uma década para cá. Enquanto seu faturamento no mundo todo encolheu à metade, os downloads ilegais atingiram a marca dos 20 bilhões em um ano apenas, somados os números de dez países, incluindo o Brasil. Fenômeno parecido se vê nos estúdios cinematográficos: os ganhos da pirataria já ombreiam com os do mercado formal. No setor editorial, a escala da pirataria é menor, uma vez que as pessoas ainda resistem à ideia de ler textos longos na tela do computador. De todo modo, só em 2008 as perdas registradas pelas editoras americanas cravaram meio bilhão de dólares. O escritor Mark Helprin, autor do livro Digital Barbarism (sem versão em português), um manifesto de defesa aos direitos autorais, ecoa o pensamento de boa parte de seus colegas: ‘Trata-se de um pagamento justo e devido ao criador de qualquer obra intelectual. Se esse direito for sitiado, não haverá mais incentivo para criar conteúdos’.

Não é exagero dizer que a história das sociedades modernas se confunde com o próprio advento da propriedade intelectual. Antes dela, raros eram os artistas que conseguiam viver apenas de sua obra. Os que alcançavam tal feito na Idade Média e, mais tarde, no período renascentista dependiam, basicamente, dos humores dos monarcas ou da Igreja, que ora elegiam um preferido, ora outro. A maioria deles, no entanto, precisava acumular empregos e bicos. Na Inglaterra de antes do Tratado de Anne, que em 1710 estabeleceu, enfim, a propriedade intelectual, o lucro no mercado editorial se repartia entre os livreiros e o rei. Quanto ao autor, ele não recebia um único centavo. Resultado: publicava-se muito pouco. ‘Sem o direito autoral, a principal atividade dos livreiros era reimprimir velhos exemplares. A cultura estava fadada à repetição’, diz o jurista José Carlos Costa Netto, há trinta anos um estudioso do assunto. Com a lei de propriedade intelectual e a remuneração dos autores por suas obras, deu-se pela primeira vez uma massificação da produção intelectual. Movimento que se repetiu, um século depois, na França e nos Estados Unidos, onde tais mudanças ganharam ímpeto com o pensamento iluminista e a Revolução Francesa. No Brasil, o mesmo se deu no fim do século XIX. Conclui Costa Netto: ‘Uma sociedade grande, diversificada e moderna não pode sobreviver sem propriedade intelectual’.

Isso é ponto pacífico. A questão que se coloca agora é como preservar a proteção às grandes ideias e obras num mundo inteiramente diferente daquele em que a lei foi concebida. É curioso observar que, enquanto o volume e o fluxo de informações só aumentam, o texto que rege a propriedade intelectual vai ficando mais e mais restritivo. Quando o copyright foi criado, ele significava, literalmente, o direito à cópia, que passava a ser exclusivo de alguns.. Durava 28 anos. Hoje, chega a 95 anos nos Estados Unidos, país que protege as obras por mais tempo. Uma convenção internacional de 1952 foi além e limitou também o uso de uma obra como fonte de inspiração para outra. A preocupação central, à época, era controlar a exibição de velhas imagens nos programas que surgiam junto com a televisão. Mas a lei acabou podando aí algo vital para o processo criativo – em grande medida, impulsionado por releituras daquilo que já existe. O que teria sido de Walt Disney, por exemplo, se precisasse pedir autorização e pagar por cada um de seus desenhos criados com inspiração nas fábulas dos irmãos Grimm e de tantos outros? O economista Eric Maskin, prêmio Nobel de Economia e dono de um dos mais sólidos trabalhos na área, chama a atenção para os riscos do que define como exageros da lei. ‘Em algumas indústrias, como a de software, para dar vida a uma nova ideia, o inventor precisa ter acesso às que já existem’, diz. ‘A imitação funciona como um motor fundamental para a inovação – e as patentes podem se transformar em obstáculos incômodos.’

Em paralelo à discussão teórica, que aponta para os ganhos de uma flexibilização da lei, já aparecem exemplos bem-sucedidos de como realizar isso na prática. Às vezes, é necessário mudar o modelo de negócio. A gravadora Trama, que vivia até cinco anos atrás da venda de CDs, resolveu colocar álbuns inteiros, de graça, na internet. Quem paga a conta são os patrocinadores. Eles já respondem por 40% da receita do selo. ‘Não iríamos sobreviver sem essa transição’, afirma João Marcello Bôscoli, presidente da Trama. Como a venda de seus discos despencava nas lojas, o cantor Leoni adotou a internet como uma aliada e passou a fazer ali a propaganda de seu trabalho. Sozinho, ele organizou um cadastro com 32 000 fãs, a quem envia canções inéditas e a data dos shows. ‘O que perdi com discos ganhei com shows’, afirma o cantor. A experiência do Creative Commons, empresa criada em 2001, na Universidade Stanford, ajuda a comprovar, de maneira mais sistemática, que regras mais flexíveis não são sinônimo de prejuízo. A maioria dos hoje ligados à organização, donos de algo como 150 milhões de obras, permite que elas sejam copiadas e até modificadas, desde que não sejam vendidas e que lhes seja dado o devido crédito. Participam da iniciativa bandas como Pearl Jam e Radiohead e até o ex-ministro Gilberto Gil, um defensor do relaxamento na lei de direitos autorais, que liberou o download de seu disco O Sol de Oslo (mas de nenhum de seus antigos hits). Conclui Lawrence Lessig, de Stanford, o inventor do Creative Commons: ‘Tudo indica que, com o tempo, a visibilidade dada pelas redes de compartilhamento a esses artistas significará mais lucro’.

Sempre que surge uma inovação capaz de provocar mudanças tão acentuadas, quem perde com elas resiste. Foi o que ocorreu, por exemplo, quando surgiu o rádio, no início do século XX. Os artistas, sentindo-se lesados com a reprodução de suas músicas, foram até o Congresso americano se queixar. Diziam que o rádio infringia a lei de propriedade intelectual. Na ocasião, não conseguiram nada. O Congresso entendeu que impedir o avanço do rádio representaria uma perda para a sociedade. Coisa parecida aconteceu na década de 70, quando a Disney e a Universal entraram com processo contra a Sony, que havia criado o Betamax, o primeiro videocassete. A inovação foi, então, demonizada pelas duas produtoras, que diziam se tratar de um instrumento ‘devorador de fitas’ e ‘a serviço da infração dos direitos autorais’. O caso chegou à Suprema Corte, que concluiu: ‘Nunca os detentores do copyright tiveram controle completo sobre todos os usos possíveis de seu trabalho. Para que se estimulem a criatividade e o poder de inovação, deve continuar sendo assim’. Palavras que, ainda hoje, podem servir de norte à discussão sobre a propriedade intelectual.’

 

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