Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > MERCADO EDITORIAL

Venda de livro em espanhol cresce nos EUA

Por Wladir Dupont, da Cidade do México em 09/01/2006 na edição 363

Tanto o número de países latino-americanos – 22 – que têm o espanhol como língua oficial como os cuidados permanentes da Real Academia de la Lengua (RAE), de Madri, na preservação e expansão desse belo e imponente patrimônio cultural, contribuem muito para fazer do idioma uma força imparável, com contínuos desdobramentos em sua área de influência, que ainda abrange Espanha, Filipinas e parte dos Estados Unidos, num total, calcula-se, de 450 milhões de hispanohablantes.

Embora as perspectivas sejam otimistas quanto a essa expansão do espanhol no mundo –no Brasil, por exemplo, já é matéria obrigatória no ensino médio –, alguns problemas ainda persistem e impedem uma ampliação mais sistemática do idioma. É o caso dos Estados Unidos, onde vivem e trabalham 40 milhões de latino-americanos (65% são mexicanos), dos quais pelo menos a metade são leitores em potencial, mas que não contam com uma rede de boas e bem sortidas livrarias.

De fato, as vinte e poucas livrarias especializadas em livros em espanhol no território americano se concentram em Los Angeles, Chicago, San Antonio, Miami e Nova York. Nesta última cidade, das quatro que havia há dez anos só ficaram duas – Lectorum e Macondo.

A Lectorum, a propósito, existe há 40 anos (está na Rua 14, entre a Sexta e Sétima avenidas), mas, mesmo oferecendo um catálogo de 30 mil títulos, continua batalhando para manter as portas abertas. Em entrevista recente à imprensa mexicana, a diretora da casa e da principal distribuidora de livros em espanhol, também de nome Lectorum, Teresa Mlawer, dizia que o maior obstáculo a uma distribuição mais eficaz é justamente a falta de mais e melhores livrarias do gênero.

Em tal situação, esse enorme público latino compra seus livros em estabelecimentos americanos, que se esforçam para atender bem, é verdade, mas quase sempre não têm pessoal bem treinado para lidar com estrangeiros. ‘O que adianta,’ pergunta Teresa, ‘ter um bom cátalogo mas não saber orientar uma pessoa que chega procurando determinada obra em espanhol?’

Puritanismo e censura

Conhecedora do mercado editorial americano, ela confirma, altos e baixos à parte, a crescente procura pelo livro em espanhol, ao mesmo tempo em que menciona outra barreira para uma distribuição mais ampla: a atual onda de puritanismo (e as conseqüentes investidas de censura de grupos religiosos), que agora, ao contrário de tempos passados, é mais intensa e abrangente, chegando a proibir a circulação de livros infantis como o best-seller Harry Potter, referências racistas nos textos (negro é uma delas) ou histórias com fumantes e bebedores contumazes, além de viciados em drogas. Em alguns estados, também se proíbem livros que toquem no tema da teoria da evolução de Darwin.

Felizmente, diz Teresa, grande parte das bibliotecas públicas americanas, fiéis à vocação de servir suas comunidades, reagem com firmeza às pressões de certas associações fundamentalistas e colocam à disposição de seus freqüentadores habituais todo tipo de literatura em espanhol, livre de restrições de qualquer natureza.

Até há poucos anos, a Califórnia, com sua vasta população latina, era o principal mercado da Lectorum, mas quando o estado eliminou a educação bilíngüe, em 1997, a livraria e a distribuidora entraram num vermelho bravo: só no ano passado tiveram perdas de 5 milhões de dólares.

Embora sejam diversificadas as comunidades latinas em Estados Unidos, com gente da América Central e América do Sul, o que dificulta oferecer aos clientes todos os livros editados no continente, a Lectorum faz o possível para atender aos pedidos: se não está nas estantes, a distribuidora consegue o exemplar solicitado. Entre os mais procurados, estão os escritores mexicanos Carlos Fuentes, Laura Esquivel e Ángeles Mastretta.

Desde 1996, Teresa Mlawer se considera numa situação privilegiada para uma empresária editorial e promotora cultural: vendeu a distribuidora e livraria ao grupo Scholastic, o mais importante de literatura infantil no mundo. ‘Com a condição de continuar à frente do negócio’, diz ela. ‘Tenho muita sorte. Poucos podem vender sua empresa e continuar dirigindo-a. Não conheço ninguém nessa posição na indústria editorial.’

Antigas mas produtivas

Uma parte considerável do catálogo em espanhol da Lectorum provém de duas grandes editoras latino-americanas, a mexicana Fondo de Cultura Económica (FCE), que completou há pouco 71 anos, e a argentina Paidós, que fez 60 anos semanas atrás, tema de ampla matéria nas páginas de cultura do jornal El Universal, da Cidade do México.

Ao longo dos últimos 50 anos, as duas editoras têm sido as fontes de maior prestígio e confiança na formação de intelectuais, acadêmicos e profissionais liberais no continente. Suas linhas editoriais básicas se orientaram, desde o principio, a publicar títulos nas áreas de pedagogia, história, psicologia e economia, com o propósito de suprir as necessidades de leitura e conhecimento especializado de estudantes e professores. (Mais tarde, o FCE ampliaria essa linha publicando ficção e poesia).

A argentina Paidós (em grego significa ‘da criança’), fundada em 1926 por dois professores universitários, Jaime Bernstein e Enrique Butelman, ambos com 26 anos, saiu ao mercado para publicar basicamente livros de psicologia infantil. Seu primeiro lançamento foi Conflictos del alma infantíl, de Carl Gustav Jung. O jovem editor Butelman tinha tudo para acertar no ramo, pois estudara com o próprio Jung em Zurique, durante seis meses, além de ter feito psicanálise com o mestre.

Hoje, com vendas anuais de 400 mil exemplares só no México, onde abriu uma filial em 1983, a editora argentina mantém seu objetivo inicial – o de destinar 25% de sua produção para o mundo acadêmico, os outros 75% para leitores de interesse geral. Atualmente produz 10 coleções de psicologia, com mais de 200 títulos, além de obras sobre sociologia, economia e política.

Este ano, para comemorar suas seis décadas no mercado latino, a editora lança uma nova coleção, denominada ‘Surcos’, integrada pela reedição de alguns de seus 3 mil lançamentos mais significativos: Choque de civilizaciones, de Samuel Huntington; Análisis del carácter, de Wilhelm Reich, e os Manuscritos del Mar Muerto, de Hershel Shanks, entre outras obras clássicas dos anos 1960.

Futebol vende livro

A informação, divulgada no México, é da agencia espanhola EFE: apostando numa das grandes paixões nacionais, o futebol, em apenas dois anos uma pequena editora argentina, Al Arco, especializada em literatura esportiva, já colocou no mercado, com razoável repercussão, uma série de relatos ficcionais feitos por jornalistas, como o também escritor uruguaio Eduardo Galeano e o ex-jogador e técnico argentino Jorge Valdano, com ilustrações do artista gráfico Roberto Fontanarrosa.

O jornalista Julio Boccalatte, diretor da editora, diz que ele e seu sócio, Marcos González Cezer, não dependem disso para viver: trabalham com tiragens baixas, esperando que ‘as edições se paguem sozinhas’. Os resultados contabilizados até agora, garantem, lhes permite planejar, para 2006, a publicacao de mais alguns livros, ainda em escala menor.

Nesses dois anos mandaram às livrarias 13 obras sobre o mundo esportivo argentino, incluindo biografias do ex-jogador Alberto Acosta e do piloto de automóveis de corrida Marcos di Palma. O livro de maior sucesso até agora foi De Puntín, uma copilação de 11 ‘contos de futebol’, gênero que os dois editores dizem ter inventado ao sabor das circunstâncias econômicas, sempre críticas, e que querem continuar publicando.

Por enquanto sem possibilidades materiais de sequer exportar os livros a outros países, Boccalatte e Cezer fazem tudo: lêem e editam originais, acompanham a revisão e leitura de provas, se encarregam da distribuição local e ainda, na companhia dos autores e tirando partido de sua condição de jornalistas, fazem a divulgação dos livros.

Os tenazes editores também esperam, graças às boas perspectivas e ao prestígio já alcançado entre os fanáticos do gênero, ir em frente editando obras relacionadas com outros esportes, mas sempre dando óbvio destaque ao futebol, aproveitando este ano de Copa do Mundo.

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Jornalista e escritor brasileiro radicado na Cidade do México

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