Domingo, 15 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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ARMAZéM LITERáRIO >

Verdades e mentiras

Por Sebastião Jorge em 29/09/2009 na edição 557

O homem, sobrevivente do planeta Terra, vive em conflito permanente consigo e aqueles que o cercam. É um inconformado. No dia-a-dia, envolve-se nas decepções e indiferenças do meio que o cerca. Daí a eterna aventura de emigrar, sem descanso. É um expor-se a todo tipo de risco. Nada o amedronta. É o caminhante das noites e das estrelas num céu sem lua.

Ora, se não se sente seguro no próprio país, imaginem fora, ou no exterior, onde é olhado com desprezo e considerado um intruso na competição do mercado de trabalho, inclusive por se comunicar com idioma diferente. Fica exposto a toda sorte de discriminação.

Pensando nessa situação, o refinado escritor, polígrafo de estilo elegante, Alberto Manguel (Argentina, 1948 /cidadão canadense), autor do livro A cidade das palavras / a história que contamos para sabermos quem somos nos oferece um quadro amplo sobre o assunto, cuja abordagem se fixa na história e na linguagem. Explora os aspectos humanos do problema. Ao olhar o colega de aventura literária Ronald Wright, perguntou-lhe à queima roupa:

‘Por que estamos juntos?’

A resposta: ‘E temos alternativas?’

‘É claro que não temos alternativas’ – retrucou Manguel.

A odiosa discriminação

Ao aprofundar-se sobre o tema, imagina um simpósio internacional com a presença de autores do Ocidente e Oriente. Extrai de cada um subsídios que formassem a opinião, lastreada pela importância das histórias narradas e o uso inevitável da linguagem na vida da humanidade. O assunto envolve homens e mulheres do século 21. Todos inquietos com os perigos e problemas que têm pela frente, transformados nas glórias e desgraças da vida em comum.

E o que dizem os participantes daquela reunião imaginária, sobre os aspectos contidos nos livros? Há muito a nos ensinar… Alfredo Döblin, um ícone da literatura alemã, vítima da paranóia de Hitler, diz que as coisas mais importantes num homem são seus pés e seus olhos. Explica: ‘Você precisa ver o mundo e andar por ele.’ Quanto a Aristóteles, autor de Política, o filósofo discute os seis tipos de sistema político para seis diferentes estirpes de cidadãos. Seria algo igual à novela Caminho das Índias, que se passa no país de Mahatma Ghandi, com castas e costumes diferentes. Platão encarrega Sócrates de explicar suas ideias, que permitem banir a poesia do Estado ideal, a não ser que tratem dos homens bons e dos deuses e tragam algum proveito. Curioso que Platão gostava dos versos de Homero, cujo enunciado se constitui num paradoxo.

A odiosa discriminação sempre houve em diferentes sociedades, tanto no passado como no presente. Há uma exceção: O sábio Eratóstenes de Cirene, de Alexandria, século 3, a.C. estabeleceu num tratado a rejeição pelos que discriminavam as classes. Referia-se aos conflitos entre gregos e troianos.

‘Por que vivemos juntos?’

Nos dias atuais, principalmente líderes de países ricos não querem saber de imigrantes. No governo de Tony Blair ele decretou que os estrangeiros islâmicos deveriam se enquadrar nas leis britânicas, a começar pela escola, com a retirada do véu. Nicolas Sarkozy, da França, prometeu criar o Ministério da Imigração e da Identidade Nacional para reunir numa só entidade tudo o que fica do lado de lá e de cá. A Espanha não tem condescendência com os imigrantes – há ofertas de passagem e dinheiro para retornar ao país de origem. O mesmo acontece com o Japão. Os EUA mandaram levantar um paredão para impedir a aventura dos que desejam ganhar alguns dólares. Idéia do tresloucado ex-presidente George Bush. O governo do Brasil deu uma lição de civilidade para o mundo, ao normalizar a situação de todos os estrangeiros, e não são poucos. Pelo Ministério da Justiça, pode chegar a 50 mil pessoas, embora entidades internacionais estimem 200 mil.

Manguel mostra que certos aspectos históricos virão ao nosso socorro. Eles podem curar, iluminar, indicar o caminho. É aqui que entra o jornalismo. A linguagem constrói com palavras a realidade, dentro e fora dos muros da sociedade. A linguagem providencia histórias que contam mentiras e verdades. O que precisamos é saber distinguir a verdade da mentira. De palavra em palavra se constroem cidades e se chega às conquistas, umas fáceis e outras difíceis, ou quase impossíveis. Vamos vivendo como viajantes solitários com esperança e fé no amanhã, num malabarismo que desafia a vida e a morte.

O escritor alemão W.G. Sebald (1944-2001), que morava na Inglaterra, na obra Os Emigrantes retrata com precisão e calor humano, sensibilidade e conhecimento de causa a tristeza e a profunda dor da saudade que sente um emigrante. Sabendo o que seja um cidadão em terra alheia, Sebald, que ensinava literatura e morou naquele país até morrer, acreditava que o homem foi deixado de lado, ‘quando a ênfase da vida se voltou para o negócio, a indústria e a economia’.

Com a internet, então, podemos afirmar que a verdade é rara. Prospera a mentira e a futilidade. A História é violada, sem a menor cerimônia, e o comportamento não passa de um tiro na cultura. Pelo andar dos acontecimentos, Manguel insiste na pergunta: ‘Por que vivemos juntos?’ (…) Provavelmente, porque não há outro jeito.

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Professor universitário e jornalista

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